A Namorada

 

     Autor: Marcelo Marzochi, Endere�o do autor: Rua Dom Jos� Gaspar 07, S�o Jo�o da Boa Vista – SP, 13870-000 BRASIL

     *� permitida a c�pia do material desta p�gina desde que citada a fonte e mantida a autoria. Registrado na Funda��o Biblioteca Nacional sob o n.� 159.963, Livro 265, Folha 93 * Conto premiado no I Pr�mio P�rtico de Poesia e Prosa, promovido pelo Grupo Cultural P�rtico, em Salvador, Bahia.  

A Namorada

     "Por favor Alessandra, traga-me os relat�rios da reuni�o de ontem".

     A secret�ria abriu a porta e entrou na sala de Thomas. Ele estava no computador conversando, atrav�s de videoconfer�ncia, com o diretor da filial francesa da companhia.

     Alessandra colocou os relat�rios em cima da mesa. Perguntou se ele queria mais alguma coisa. Thomas pediu que ela lhe trouxesse �gua. Como de costume, ela trouxe uma bandeja com um copo e uma jarra grande de �gua. Alessandra vesti-se com a discri��o que a sua fun��o requeria. Todavia era imposs�vel n�o notar as curvas de seu corpo, mesmo naquele modelito masculinizado. Mas Thomas estava muito ocupado para isso.

     "Mais alguma coisa, Dr. Thomas?"

     "N�o, obrigado. Voc� pode tirar o resto do dia de folga. Eu me viro hoje..."

     "Mas, ainda s�o tr�s da tarde?"

     "Aproveite a chance, antes que eu mude de id�ia..."

     "O senhor � quem manda..."

     "Boa tarde Alessandra."

     "Boa tarde Dr. Thomas. At� amanh�."

     Thomas continuou no computador. Al�m da filial francesa, conversou com as filiais de Joanesburgo, Jacarta, Seattle, Macau e Londres. J� passava das sete da noite.

     Thomas desligou o computador. Levantou, alongou-se e olhou o rel�gio. Sentou-se no sof� e ficou olhando para o teto. Tirou a gravata e resolveu voltar ao computador. Dessa vez para se divertir.

     H� tempos que n�o entrava num chat. Resolveu ent�o entrar num. O bate-papo geralmente � o �ltimo recurso. Quando n�o se tem mais nada para se fazer na Internet � s� entrar em alguma esta��o de bate-papo.

     Na tela aparece as op��es de salas. Cidades, variados, tema livre, idade, sexo, imagens er�ticas, eram muitas as op��es. Descartou as duas �ltimas pois n�o estava inspirado para isso. Al�m do mais estava na empresa. Mesmo sendo o presidente, a conex�o de seu computador n�o era exclusiva. Utilizava a mesma rede da empresa. Tentou ent�o tema livre.

     Antes de entrar teve que se identificar com nome ou apelido. Identificou-se como Dirceu. Era o nome do �ltimo diretor com quem havia conversado. Das trinta salas dispon�veis, vinte estavam lotadas. Entrou na sala dois.

     Esperou que algu�m o chamasse para conversar. Ningu�m o chamou. Foi ent�o para outra sala. Entrou na n�mero cinco. Ao verificar os nomes das pessoas que estavam ali, um nome chamou sua aten��o. Outras pessoas da sala tamb�m perceberam a coincid�ncia.

     "Gente, olha s�! Est�o aqui a Mar�lia e o Dirceu! Um encontro po�tico..." escreveu Silvana.

     "E da�?" perguntou Patolino.

     "Quem s�o esses?" perguntou Lilica.

     "�h! Povo burro!!! N�o se lembram das aulas de literatura? Dirceu era o pseud�nimo de Tom�s Ant�nio Gonzaga. Mar�lia era a paix�o da vida dele e para quem ele escreveu o poema "Mar�lia de Dirceu"... Voltem aos livros ignorantes!!!" escreveu Gatinha.

     "Vai ver se tem leite no teu pires..." respondeu Patolino.

     "Calma pessoal! N�o quero semear a disc�rdia!" escreveu Thomas – Dirceu – para tentar acalmar os �nimos. "Estou procurando a minha musa, o amor da minha vida..."

     "Vai l� Mar�lia! Aproveita boba..." disse Silvana.

     "Ah! Mar�lia, que tormento n�o tens de sentir saudosa! Ver�s, Mar�lia, onde te dava beijos amorosos..." disse Dirceu.

     "Ai, ai..." suspirou Silvana.

     "Como �s atirado, Dirceu..." respondeu Mar�lia.

     "Tudo por voc�, minha doce Mar�lia" escreveu Dirceu.

     "Como sabes que sou doce?"

     "N�o sei. Essa incerteza me aflige. N�o poder te ver, te tocar, te beijar, sentir o teu perfume... Mas me consola estar com voc�, mesmo virtualmente, aqui nesse bate-papo..."

     Ficaram conversando por um longo tempo. Descreveram-se e para o espanto de Thomas, a garota disse que n�o era loira de olhos azuis como acontece na grande maioria das vezes que se conhece algu�m pela Internet. Era morena, cabelos e olhos castanhos. Apesar do tipo que pode ser considerado comum Thomas n�o desanimou. Pelo menos era uma pessoa real e n�o uma fantasia virtual. Era alta, um metro e setenta e cinco de altura.

     O tempo foi passando e s� ficaram os dois na sala. A afinidade entre eles estava cada vez maior. Mar�lia disse que tinha que desligar pois j� passava da meia-noite e tinha que levantar cedo para trabalhar. Marcaram um encontro para o dia seguinte, no bate-papo.

     Thomas olhou o rel�gio. Meia-noite e meia. Decidiu ficar por ali mesmo no escrit�rio. Tirou a gravata, o cinto da cal�a e afrouxou a camisa. Ficou ali mesmo no sof�, que era muito confort�vel. Comprara um igual para sua casa. Cobriu-se com o palet� por causa do frio.

     "Dr. Thomas! Dr. Thomas!" disse Alessandra tentando acord�-lo.

     "Uh, qu�? ... Alessandra? Que horas s�o?" respondeu Thomas assustado.

     "Nove da manh�... Por que o senhor dormiu aqui?"

     "Nossa... Fiquei at� tarde conferindo uns pap�is. Parei um pouco para descansar e acabei ficando aqui. Como est� meu dia hoje?"

     "O senhor est� com o dia cheio hoje..."

     "Cancele todos os compromissos da parte da manh�. Se n�o me engano h� uma reuni�o com os acionistas �s quatro da tarde, n�o �?"

     "Isso mesmo..."

     "�timo! Meu dia hoje come�a �s nessa reuni�o ent�o... Vou pra casa, tomar um banho e depois eu volto. Essa companhia n�o vai falir se eu me ausentar por algumas horas, n�o � mesmo?"

     Thomas se arrumou para sair. Colocou a gravata, os sapatos, pegou o palet� e alguns pap�is. Estava quase saindo, quando parou e voltou.

     "Voc� mudou o cabelo, Alessandra?"

     "Mudei o penteado..." respondeu ela.

     "Ficou muito bonito... Gostei..." diz Thomas saindo.

     Alessandra sorri. Pela primeira vez se sentiu notada. N�o como profissional mas como pessoa.

     Thomas chegou em casa assobiando. Estava feliz, mas n�o sabia a raz�o. Resolveu at� fazer seu pr�prio almo�o. Foi at� a cozinha preparar um macarr�o. E n�o era daqueles instant�neos.

     Cozinhou a massa e a escorreu. Colocou uma colher de margarina na massa, para que misturar melhor com o molho. Misturou � massa um pouco de ricota amassada com salsinha. Em seguida, colocou o molho.

     Fez seu prato e foi para sala. Comia na frente da televis�o como se fosse um adolescente. Na realidade parecia uma crian�a que almo�a r�pido para logo voltar a brincar.

     Depois de colocar a lou�a suja na lavadora, foi at� a estante e pegou aquilo que n�o poderia esquecer: o livro "Mar�lia de Dirceu". Se arrumou e voltou para companhia.

     Thomas estava animado. E animou tamb�m todos com quem esteve. At� mesmo a reuni�o com os acionistas. Todos eles sa�ram rindo, e pareciam felizes, apesar do preju�zo causado pela crise asi�tica que Thomas teve que justificar. Foi sua melhor performance numa reuni�o. Foi um verdadeiro espet�culo.

     Ele foi o �ltimo a sair da sala. Alessandra o esperava do lado de fora.

     "Pelo visto, a reuni�o foi excelente" disse Alessandra.

     "Se foi! N�o viu como todos sa�ram felizes daqui? E o melhor: todos acreditam na empresa e v�o continuar investindo, apesar do susto que tivemos com a crise".

     "Que bom! Eu sabia que o senhor conseguiria" respondeu ela.

     "Pelo menos algu�m aqui nessa companhia confia em mim" brincou Thomas.

    "O senhor ainda tem duas reuni�es. Uma com a diretoria de Marketing e outra com a diretoria de Recursos Humanos..."

     "Cancele... Tenho coisas mais importantes para fazer hoje. Depois voc� pode ir Alessandra..."

     Thomas olhou no rel�gio. Eram quase seis. Faltava ainda uma hora para encontrar Mar�lia. A ansiedade come�ava a aumentar. Come�ou a imaginar como Mar�lia seria. Parecida com a personagem do poema? Pediu para Alessandra providenciar ch� gelado e �gua. Alessandra trouxe. Perguntou se precisaria de mais alguma coisa pois estava de sa�da. Ele disse que n�o.

     Thomas ligou o computador e se conectou � sala na qual combinaram se encontrar. Eram dez para sete. Deixou o computador ligado. Enquanto isso ficou lendo alguns pap�is para passar o tempo. Bebeu ch�. Sete horas. Mar�lia n�o havia aparecido ainda. A garrafa de ch� j� estava na metade.

     Come�ou a andar pela sala. Sete e cinco. Nada. Bebeu o �ltimo copo da garrafa de ch�. Sete e quinze. Sentou-se no computador. Ficou batendo com a ponta dos dedos na mesa, ao lado do teclado. Estava suando e tentava se acalmar. Sete e dezessete. Nada. Come�ou a beber �gua.

     Sete e dezenove. Aparece na tela "Mar�lia entra na sala". Thomas respirou aliviado. Rapidamente pegou o livrou que trouxera, copiou alguns versos e enviou.

     "Ah, meu Dirceu! Como � bom estar com voc� agora. Tive um dia t�o cansativo... Me desculpe pelo atraso. O tr�nsito estava terr�vel! Fiquei quase uma hora no congestionamento..." se justificou Mar�lia.

     "O importante � que voc� est� aqui agora..." respondeu Thomas.

     Conversaram durante tr�s horas. De Pol�tica aos �ltimos lan�amentos no cinema. At� sexo fizeram. Combinaram um encontro para o dia seguinte, �s seis da tarde, num Caf� no centro da cidade. Mar�lia usaria uma blusa vermelha e Dirceu – Thomas – um camisa azul. Era quase onze quando se despediram. Thomas foi para casa animado.

     No dia seguinte, Alessandra pediu para sair mais cedo, pois tinha um encontro com uns amigos que vinham de fora.

     "Tudo bem. Voc� merece se divertir um pouco. S�o quatro e meia mesmo. N�o h� muita coisa para ser feita. Daqui a pouco eu vou embora tamb�m..." respondeu Thomas.

     Alessandra saiu. Thomas leu mais alguns pap�is, memorandos e algumas cartas, e tamb�m saiu. Estava quase chegando a hora.

     No caminho at� a casa dele algo come�ou a incomod�-lo. O que faria se Mar�lia n�o correspondesse �s expectativas dele? Ou se ele n�o fosse o que ela esperava? Ou se ela fosse feia?

     Saiu de casa �s cinco e meia. Parou num estacionamento duas quadras antes. Quando entrou no Caf� viu Alessandra.

     "Deve ter sido telepatia, os dois aqui no mesmo lugar! E os seus amigos?"

     "Ainda n�o chegaram... Mas o que � isso na manga da sua camisa?"

     "Droga!!! Devo ter esbarrado naquele maldito port�o do estacionamento."

     "O pior � que a camisa � branca... Faz o seguinte... � s� dobrar a manga assim, que ningu�m vai ver... Depois dobra a outra e... pronto. Sua noite est� salva e � s� lavar a camisa depois..." disse Alessandra.

     "� nessas horas que eu me pergunto: O que seria de mim sem voc�? ... Bom n�o quero atrapalhar a sua noite... Divirta-se!"

     Thomas foi para uma mesa do outro lado do Caf�. Pediu um cappucino e ficou a olhar o movimento. Sete e meia e ele continua l�. Alessandra tamb�m. At� aquele momento nenhuma mulher de blusa vermelha entrara. Decide ir embora.

     No caminho at� o estacionamento vai pensando se aquilo n�o foi um trote. Teria se iludido por uma paix�o virtual? Como se deixou envolver por isso?

     Passa em frente do Caf� e v� Alessandra saindo a p�. Pelo visto ela tamb�m havia levado um fora.

     "E a�? O que aconteceu? Tamb�m te esqueceram?" perguntou Thomas.

     "Com meia hora de atraso me ligam dizendo que n�o v�m" respondeu Alessandra mostrando o celular.

     "Entra a� que eu te levo pra casa".

     Thomas a levou at� em casa.

     A cor da blusa dela era azul.

 

     Aten��o : o texto pertence ao autor mencionado acima, e qualquer semelhan�a com nomes, diria eu que � uma mera coincid�ncia.

 

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