Casamento : Até que a Morte os Separe?
A influencia cristã sobre o comportamento da sociedade ocidental tem sido tão ampla que a maioria dos valores seguidos tem origem direta da religião. A união de um homem e uma mulher possibilitando a convivência plena, inclusive a nível sexual, ainda nos dias de hoje não se dá de forma completa apenas com a união civil e comumente o ato mais pomposo e festivo é o casamento religioso, quase sempre seguido de um banquete entre os convidados como forma de comemoração.
Se o casamento quase sempre começa de forma festiva, nem sempre a convivência do casal se pauta pela harmonia. Diferenças existentes antes do casamento porém negligenciadas ou ignoradas começam a fazer peso no conviver do dia a dia transformando muitas vezes o que parecia ser um sonho num completo pesadelo. Porque alguns casamentos dão certo e outros não? É mais fácil imaginar nosso casamento ou nosso cônjuge mais problemático que o dos outros justificando assim nossos fracassos na relação.
São muitos os fatores que levam um casamento ao sucesso ou ao fracasso. Porém não existem casamentos perfeitos e muito menos casamentos sem diferenças. Mas alguém consegue imaginar a monotonia que seria um casamento se não houvesse diferenças? Os pontos discordantes, quando há maturidade entre ambos, permitem freqüentemente um crescimento na relação dificilmente alcançado por outros meios. Aparentemente parece mais tranqüilo imaginar-se uma relação de tal forma complementar que não houvesse diferenças e sim apenas harmonia. Porém isso está mais para o campo da utopia que da realidade. Alguns casais possuem mais afinidade, interesses em comum, algumas características que são complementares, e isso claro facilita a vida em comum.. Por exemplo se torna mais fácil a convivência quando um dos dois tem características de liderança e o outro se sente melhor em ser liderado. Mas de concreto as características de homem e mulher por si só já criam um contexto de relação complementar dado as diferenças inerentes à natureza masculina e à feminina. Essa inter-relação e intercâmbio que a convivência entre duas pessoas fornece, se bem administrados, constituem importante instrumento de apoio psicológico e qualidade de vida poucas vezes encontrados em outros tipos de relação.
Parece que o que tem diferenciado um casamento que dá certo de um que fracassou é a disponibilidade que ambos ou pelo menos um dos dois apresenta de lidar com as diferenças, com as frustrações, conseguindo tolerar o indesejável do outro e usufruindo das qualidades mútuas. Para tanto o diálogo aberto sempre se faz um instrumento imprescindível ao qual ambos precisam estar disponíveis e receptivos.
E casamento que esta dando errado, há possibilidade de voltar a dar certo? Claro que sim. É necessário que possam ser detectados os pontos comuns de atrito e observadas as características e diferenças existentes. Temos uma vida só e os dias passam mais rápido que muitas vezes gostaríamos e não é justo que desperdicemos parte importante dela em uma relação desgastante e angustiosa. Todo mundo quando decide se casar obviamente o faz com a crença de que a vida de casado será melhor do que a vida de solteiro, do contrário não casaria. Mas e porque manter uma vida de casado quando essa se transforma em um inferno para todas as pessoas envolvidas? Temos visto em nossa experiência clínica que é comum uma atitude de tolerância a continuação de uma relação fracassada por pura comodidade, medo de enfrentar a situação, ou mesmo receio da reação da família ou sociedade. E com isso é comum a existência de casais que deixam passar uma parte importante de suas vidas num faz de conta onde apenas as aparências externas são mantidas. Sobra-lhes desejo de mudança mas falta-lhes força e iniciativa para faze-lo, perpetuando uma situação insustentável com sérios prejuízos a cada um e aos filhos quando esses existem.
Hoje temos na psicologia técnicas terapêuticas bastante aprimoradas que tem se constituído de grande auxílio aos casais com dificuldades de relacionamento. Importante salientar que a função terapêutica não é obrigatoriamente tornar o casamento viável novamente e sim permitir que o casal reflita a partir de sua própria vivência e características e assim possa tomar a decisão que seja melhor para que ambos possam viver bem. E o viver bem pode passar por um rearranjo de forças dentro do casamento tendo como resultado uma convivência mais saudável ou a percepção de que o melhor para ambos seja a separação. O que se busca a nível terapêutico é dar instrumentos a cada um de se conhecer melhor e poder tomar decisões em bases mais saudáveis. Quando a relação se encontra muito desgastada facilmente o ódio e desrespeito mútuos passam a ocupar um lugar privilegiado substituindo o diálogo a compreensão e a tolerância. Assim o maior problema não está nas diferenças encontradas mas na comodidade em não buscar auxílio para encontrar um nível de vida mais saudável.
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