Lauro está apaixonado loucamente e não consegue imaginar sua vida sem a amada que nem conhece direito. A garota não possui o mesmo sentimento por ele, ao contrário, se incomoda com suas declarações.
Lauro ama há anos a mesma mulher, tornou-se obcecado e não se relaciona com mais ninguém. A coisa mais importante do mundo, na minha opinião, é a vida afetiva, e esta simplesmente não existe para mim. Quando era adolescente, conheci uma garota e minha vida mudou para sempre. Ela era uma aluna da minha classe. Eu apaixonei por ela como nunca acontecido antes. Ela passou a ser a razão da minha vida. Declarei meu amor e comecei a escrever poemas e levá-los até sua casa. Perdi completamente o controle sobre minha vida, só fazia pensar nela, me iludir-me com sonhos e escrever-lhes meus poemas de amor. Em meados do ano, eu tive um choque: a família dela passou a me odiar e a manifestar medo da minha presença. Fui proibido de levar os poemas em sua casa, e cheguei a ser ameaçado pelo seu pai. Eu ligava para a casa dela todos os dias sem me identificar, só para ouvir sua voz. O colégio passou a ser um "templo de adoração" para mim, onde eu a encontrava, porém ela sempre indiferente. Todo o lugar que ela freqüentava tornava um "santuário". Uma coisa muito comum entre rapazes são as fantasias sexuais. Eu não conseguia fantasiar com ela. Ela era mais do que um amor, era uma verdadeira devoção. Nenhum namoro pode dar certo pra mim. Eu não suportaria manter outro relacionamento. E sabe por quê? Porque ninguém consegue ser como ela. Sinto que nossas almas são unidas.
Lauro.
ALBERTO GOLDIN
Um amigo me convidou para uma caçada, esporte que pratica há anos e com relação ao qual tenho algumas restrições. Num fim de semana, decidi acompanhá-lo como espectador e foi interessante. À noite, no acampamento, em volta da fogueira, escutei vários relatos. Pescadores falam de peixes, caçadores de caça. Aprendi que dependendo do território e do animal, os caçadores o localizam e o perseguem até caça-lo e capturá-lo. Outra tática é preparar armadilhas, instalar iscas e esperar. Sob um certo ângulo se parece um pouco com a pesca, requer tempo e paciência, até o animal se entregar ao caçador. Era um conceito interessante e pensei que poderia utilizá-lo na minha coluna. Lauro está apaixonado, loucamente apaixonado. Persegue sua amada, a cerca, a cansa, escreve poesias, telefona. É implacável na sua perseguição, mas adianto-me em denunciá-lo fracassa porque não utiliza corretamente suas ferramentas. Lauro a persegue com iscas! São duas estratégias radicalmente opostas que jamais devem ser misturadas. Ou usa-se a perseguição ou a espera. Nunca ambas as coisas ao mesmo tempo. Num primeiro momento, declarou-se para sua amada, descarregou sua artilharia, confessou sua admiração por ela, agiu como qualquer jovem romântico e apaixonado. Foi rejeitado. A jovem não o quis, a presa escapou. Lauro tinha pleno direito de amá-la, ela não era obrigada a corresponder. Agora devia parar, pensar e modificar sua abordagem. Os caçadores costumam estudar suas presas. Os mínimos detalhes são importantes. Lauro fez algo parecido quando seguiu os passos da pretendida e se fez presente nos momentos mais inesperados. Mas, quando ela levantava a vista, o encontrava suplicando cheio de paixão, que quando são correspondidos se mostram infalíveis, mas são inócuos e prejudiciais se unilaterais. A paixão humana é autocentrada, porém egoísta, não se preocupa com seu objeto, neste caso, a jovem real que tem residência, estuda, tem amigos, família, interesses próprios. Lauro vai à caça com a isca, não a instala nem espera o tempo necessário. Sua paixão é tão intensa e excessiva que gera o efeito contrário: medo e rejeição. O jovem pode sonhar com sua amada, mas ela é real, não é um sonho, por isso sua louca paixão se mostra mais louco do que apaixonada. Seus sentimentos parecem descontrolados, a família dela teme que possam prejudicar a jovem. Lauro, nas mesmas circunstâncias, teria o mesmo temor. É lúcido, sabe o que está fazendo, e reconhece seu erro, mas não modifica sua atitude. Não o culpo, a paixão juvenil é arrasadora, violenta e submissa, mas ineficaz para alcançar seus objetivos. Sua carência não é motivo suficiente para conquistar a mulher que ama. O que poderia seduzir é o que Lauro teria para dar, não o que acredita que mereceria receber. Jamais deveria Ter abandonado seus estudos e deve retomá-los. Não há isca mais apetitosa para uma mulher do que um jovem ambicioso, admirado por seus pares, com sucesso nos estudos, praticando esportes e praticando poesias. Não deve fazer mais oferendas que ela não pedir e nunca telefonar sem se identificar. Isso é antiquado e inútil na atual era tecnológica dos identificadores de chamadas. As iscas mais apetitosas são indiretas. Por exemplo, Lauro editando um livro, dedicando sua obra a uma dama desconhecida. Pode ser que então a própria dama se reconheça nos seus poemas e se emocione, de modo que movida por seus próprios desejos, sem pressão queira desfrutar de tanto amor. Isso é morder a isca. As poesias então poderão se transformar em prosa e construir um belo romance de difícil começo porém, final feliz.
Alberto Goldin é psicanalista e autor de "Amores freudianos" e "Histórias de amor e sexo". E-mail: [email protected]
Matéria extraída do jornal DIÁRIO DE S. PAULO, SÃO PAULO, DOMINGO, 17 DE FEVEREIRO DE 2002.
* Existe uma expressão que diz assim: "vou te vencer pelo cansaço", quando li está matéria eu não sabia se ria ou se chorava, foi tão engraçado, lembrei de tantas pessoas que fizeram e ainda fazem todas essas coisas, da forma errada, mais engraçado também foi que eu também faço isso, é, preciso pedir mil desculpas pra alguém especial demais pra mim, tadinho, chega a ser até engraçado, hoje lembrando de tudo o que eu fiz, eu rio, mas levando para o lado serio da coisa, o amor cega, e faz com que nós não percebemos que estamos sufocando, mas a palavra chave pra tudo isso é paciência que junto com o tempo, tudo resolve, tudo soluciona e a dor passa, ameniza e só fica cicatrizes, apenas cicatrizes que não doem, só deixam marcas! Mas vale deixar claro que lutar, correr atrás do amor, ou do sonho é importante demais... Sissa Geller.