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(Álbum de Fotos) |
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Da roça ao remo: diferentes oportunidades Até os vinte anos tive uma vida absolutamente igual a da grande maioria de filhos de agricultores da região oeste do estado do Paraná. Nasci e me criei numa pequena vila do interior do município de Toledo na década de 60. Fiz o primário em escola municipal multi-seriada e para dar continuidade aos estudos fui para um seminário, onde terminei o curso ginasial. Cursei o segundo grau na cidade de Toledo, fazendo o Curso Técnico em Contabilidade, iniciando a faculdade de Economia com 17 anos, em 1984. Após um semestre na faculdade fiz minha opção pela agricultura e voltei para trabalhar no sítio de meu pai. Tudo corria normalmente até o dia 30 de abril de 1986, quando sofri um acidente automobilístico, voltando de um período de trabalho prolongado. Na agricultura, acumulam-se dias em que se trabalha dia e noite, aproveitando o clima favorável. Após três dias de plantio de trigo, descansando em média 3 a 4 horas por noite, retornava para casa por volta de meia noite e meia, dormi na condução do veículo. Numa estrada rural, onde a velocidade não podia ultrapassar os 60km/h, capotei o carro e fui jogado pelo pára-brisa. Fui socorrido por um primo, já em estado de coma em função dos ferimentos no crânio. Quatro dias depois, ao retomar a consciência, sem consciência do que realmente tinha acontecido, mas com consciência de que era grave, o médico me disse que eu tinha sofrido deslocamento de duas vértebras da coluna e secção da medula nervosa. Realmente era grave! Uma das poucas coisas que ainda me recordava das aulas de Ciências do período ginasial, dizia que o tecido nervoso não se regenera. Neste momento soube que dificilmente voltaria a caminhar novamente. Não tive nenhuma reação de desespero, mostrando-me forte e confiante numa recuperação, apoiada pelo médico que me atendia, que ratificava a gravidade da situação, porém dava esperanças de haver melhoria no quadro num prazo de dois anos. Acompanhavam toda situação meus pais, meus irmãos e alguns amigos, todos juntos no quarto de hospital tentando se mostrar fortes para também não me desanimar. Após essa conversa, pelo menos restou o consolo de que eu estava totalmente lúcido, sem seqüelas mentais, que era uma das preocupações pelo traumatismo craniano. Nesta noite, já totalmente livre de sedativos e consciente do quadro e da minha situação, sozinho comigo mesmo me perguntava: “O que vou fazer agora? Qual será minha condição de vida? Sou um aleijado? Que mulher ainda vai me querer? Poderei ter uma mulher? Poderei ter filhos? Família? Estou com apenas vinte anos? Por que Deus fez isso comigo? Logo agora que a vida está muito, mas muito boa? Vou ficar numa cadeira de rodas para o resto da vida? Que droga... Tudo bem, então minha vida não será muito longa, porque deste jeito eu não quero viver.” Esta foi a minha decisão no dia 06/05/1986. A previsão de internamento era de quatro meses, porque o tratamento ainda era feito com gesso, que cobria todo meu corpo até a linha da cintura. Quatro meses engessado, que previsão maravilhosa!!! A estratégia que adotei, para que um dia eu pudesse dar cabo de minha vida, que provavelmente seria após minha saída do hospital, foi a de manter uma postura de alto astral e de que eu tiraria de letra essa situação. E nesse clima passei a receber os amigos, a família, os parentes que me visitavam diariamente, parecendo uma romaria ao meu quarto de hospital. Eram trinta, quarenta, cinqüenta pessoas todos os dias que passavam para dizer um “oi” ou ver como eu estava. Passei a ouvir todos os tipos de conselhos como Moacir, Deus dá a cruz para cada um de acordo com a força que Ele acredita que a pessoa tenha; Moacir, nós ainda vamos jogar futebol juntos; Moacir, você quer casar comigo?; ou de outros bem “animadores” como Moacir, já vi casos como o teu que a pessoa viveu quase dez anos depois do acidente...Muito bom, não é? Eu já estava com 20 anos então poderia viver, provavelmente, até os 30. Uma previsão muito otimista! Mas comigo mesmo continuava alimentando a idéia “Não, não viverei dez anos, apenas o tempo suficiente para ter uma oportunidade para me suicidar” e sorria feliz para todas as visitas. Embora, no hospital, creio que pela experiência dos enfermeiros e equipe, não deixavam nenhum objeto cortante, pontiagudo ou de metal próximo a mim. E assim passei o primeiro mês de “aleijado” sem sair da cama. No segundo mês fui transferido para outro hospital e recebi a visita do médico que me atendeu no pronto-socorro na noite do acidente, que por sinal era amigo da família. Ele é muito extrovertido e brincalhão, fazendo com que todos a sua volta se contagiem com o seu bom humor, mas nem por isso deixa de falar o que tem que ser falado e no momento certo. Entramos no assunto da minha situação e ele me disse: “Moacir, tenho duas notícias para te dar, uma boa e outra ruim, qual você quer ouvir primeiro?” Eu respondi: “Fale a ruim primeiro, já tive tantas mesmo ultimamente...” Ele respondeu: “Apesar do que o médico te disse que você poderia se recuperar num prazo de dois, na situação da medicina atual você não voltará mais a caminhar”. Perguntei “Qual a notícia boa, então?”Ao que ele respondeu em tom de brincadeira, mas com uma sinceridade muito grande: “Moacir, posso te dizer com toda tranqüilidade, antes torto do que morto!”. Após essa frase ele continuou falando de inúmeras possibilidades e de oportunidades para reconstruir a minha vida, mas em cadeira de rodas. Apesar da frase “antes torto do que morto” ser minha preferida até hoje, fiquei muito chocado nesta noite. Logicamente já estava chocado com toda situação que vivia, ou seja, com 20 anos, condenado a uma cadeira de rodas e sem sensibilidade do umbigo para baixo. Essa falta de sensibilidade me dava uma sensação horrível, porque toda vez que eu passava a mão na minha perna tinha a impressão que colocava a mão na perna de outra pessoa. Isto porque eu sentia minha perna na mão, mas não sentia a mão na perna. E isso se aplicava a outras partes do corpo como o pênis. Sabe o que é pegar no teu próprio sexo e parecer que não é teu? Era desesperador... Muitas noites eu rezava para que Deus me deixasse morrer. Outras noites eu negociava com Deus, fazia as mais loucas propostas, como voltar ao seminário, ser padre, dedicar o resto de minha vida a obra de Deus, enfim, propunha de tudo, mas parece que Deus, neste momento, é completamente surdo. Mesmo fazendo estas propostas a Deus nas noites, durante o dia, com meus pais, meus irmãos, amigos e parentes meu semblante continuava risonho e feliz, transmitindo a segurança de quem vai se sair bem. Foi essa postura, essa atitude aliada com o carinho e a força de minha mãe, de meu pai, de meus dois irmãos, de uma infinidade de amigos, que nunca deixaram de me visitar, que o meu fingimento de estar bem começou a se transformar em realidade. Passei a realmente estar bem. Também tive a participação de uma fisioterapeuta, com a qual tinha sessões diárias, por quem me apaixonei, que me influenciou positivamente. Desta forma, passados os quatro meses de hospital voltei para casa sem ter mais a idéia do suicídio. Isso já estava superado. Agora teria que pensar em reconstruir minha vida. Reconstruir como? Com problemas financeiros, de locomoção, fisiológicos, psicológicos, preconceituosos da comunidade e meus, enfim, um sem número de problemas que teriam que ser superados por um simples filho de agricultor que nunca tinha saído da região? Bom, mas eles começaram a se resolver sozinho, necessitando apenas de um empurrão. As decisões foram sendo tomadas e as oportunidades foram aparecendo. Algumas decisões um pouco mais difíceis, mais duras e dolorosas, mas que precisavam ser tomadas. A namoradinha que tinha antes do acidente me visitava todos os dias, mas ela estava buscando uma forma de dizer adeus, que eu encorajei. Nos despedimos e permanecemos como bons amigos até hoje. E assim foi passando o tempo e tudo se ajustando, mesmo com toda saudade do tempo em que caminhava. Cada dia era um aniversário. Hoje faz quatro meses que não caminho mais. Amanhã serão seis meses da minha última partida de futebol. Em seguida sete meses do meu último baile. Na semana seguinte oito, nove, dez, onze meses das últimas coisas feitas em pé, como um cidadão normal. Depois, um ano, como foi marcante esse aniversário. Um ano longe de tudo que parecia normal. Depois desse primeiro ano, parece que caiu a ficha realmente. Não tinha mais volta. Meu pai foi morar na vila e me incentivou a começar alguma atividade e abri uma pequena papelaria com dinheiro emprestado. Muito mais com o objetivo de entretenimento que de negócio mesmo, porque eu tinha internalizado que não viveria mais que dez anos. Passei a viver intensamente tudo. O negócio foi bem, ganhava dinheiro e gastava tudo em festas, viagens, mulheres, enfim, badalação. Com relação às mulheres, ainda no hospital descobri que a questão sexual está presente na cabeça e não exatamente no órgão. Num sábado à tarde, estava eu assistindo ao programa de Televisão Cassino do Chacrinha, muita gente deve lembrar. Aquelas mulheres lindas, seminuas, e eu ali, cheio de tesão por elas. Estava acompanhado com algumas visitas, engessado até a cintura, coberto com um sobre lençol, sem cueca. Comecei a sentir algo estranho na região genital e levantei um pouco a cabeça e olhei para baixo. Que susto maravilhoso! O “bicho” continuava vivo, em pé. Tive uma ereção plena, completa e despertada pelo desejo. Quando eu o vi fora do sobre lençol, também as visitas o haviam visto. Entre elas algumas mocinhas de dezesseis, dezessete anos que ficaram vermelhas, embaraçadas e eu também, logicamente. Foi uma situação muito cômica. Depois, todos caímos na gargalhada. Neste momento havia percebido, que no meu caso, minha condição sexual estava preservada. Completei o segundo ano já restabelecido, pessoal e profissionalmente, embora com todas as limitações sociais, pessoais, físicas e psicológicas. Quando falo em limitações sociais é a posição adotada pela comunidade onde você está inserido em relação a tua condição de pessoa com deficiência, muitas vezes chamado de “aleijado” que é uma expressão forte e dolorosa. A comunidade adota uma postura de te relegar o papel de “coitadinho”, junto a quem todos podem exercitar o papel de bom cidadão, fazendo uma pequena doação, corrente de orações, diferentes milagres propostos por todo tipo de religião. Enfim, pela atual estrutura das pequenas comunidades uma pessoa com deficiência física permaneceria para sempre como um “aleijado”. As limitações pessoais talvez sejam as mais perigosas e prejudiciais. Elas acontecem quando você aceita essa condição que a sociedade te impõe. Se a pessoa se deixa envolver por esse falso carinho da comunidade, que nada mais é que um processo cruel de dó e piedade, dificilmente abandona a condição de “aleijado”. Neste caso você acaba internalizando todos os preconceitos existentes e alimentados historicamente por diferentes fatores, como a não condição de se sustentar. Portanto, o preconceito próprio é mais prejudicial que o preconceito externo. Ao falar em limitações físicas elas são claras, visíveis e terríveis. A sociedade não está preparada para receber uma pessoa que não tenha as condições normais de locomoção. São barreiras arquitetônicas que impedem o acesso regular as instalações públicas, privadas, de transporte, enfim, impedem a locomoção dentro da própria casa. Esses empecilhos estimulam o aparecimento das outras limitações, alimentando os problemas sociais de inclusão e os problemas pessoais de baixa auto-estima. Por fim, os problemas psicológicos advém de todas as variáveis citadas anteriormente, com o agravante de você ter que aprender a gostar das tuas novas características físicas. O teu corpo não é mais o mesmo e não responde aos mesmos estímulos. Todos esses problemas continuaram me acompanhando no terceiro, no quarto, no quinto, enfim em todos os aniversários de cadeirante. Hoje já se passaram vinte anos e a superação destes problemas passa a ser um exercício diário. Todas as manhãs, ao despertar, é necessário que você reúna forças e faça um exercício mental para não se ater as limitações e ver as possibilidades, percebendo as oportunidades. Nem sempre é fácil, mas é compensador. Um acidente pode ser uma oportunidade? Estar numa cadeira de rodas a partir dos 20 anos pode ser considerado como uma possibilidade interessante? Depende como se encaram os problemas, reais e imaginários. O meu trabalho me levou a voltar a estudar, dando-me a oportunidade de terminar dois cursos superiores, especialização e mestrado. Ao mudar o rumo de minha profissão e estudar língua espanhola, pude viajar por praticamente todos os países da América do Sul, visitando também Cuba, México e Espanha. Estudos e viagens que certamente não teria feito se eu tivesse seguido minha vida como agricultor. Tive envolvimentos amorosos que somente foram possíveis pela minha nova condição física, dos quais não abro mão de trazê-los na lembrança. Voltei a praticar esportes sendo atleta de basquete e remo. O basquete pratico simplesmente por lazer, divertindo-me com meus colegas. É um estímulo à camaradagem e a amizade, por meio da participação em competições locais e regionais, muitas vezes com o objetivo de incentivar outras pessoas com deficiência para que vejam as possibilidades. Apesar das deficiências podemos nos divertir, participar, competir, enfim, a nossa essência de ser humano continua intacta e preservada. Porém, o Remo Adaptado me oportunizou algo que não imaginava mais possível. A oportunidade de representar o Brasil em dois campeonatos mundiais de Remo, em 2004 na Espanha e em 2006 na Inglaterra. Quem poderia imaginar que um simples filho de agricultor, após sofrer um acidente e ficar paraplégico representaria o país num campeonato mundial de Remo? Quando iniciamos a prática desse esporte em 2004, com o apoio da AFLODEF – Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos, do Clube Náutico Riachuelo e de um grupo de para-atletas, não imaginávamos que iríamos tão longe. Não sabíamos a oportunidade que estávamos criando. Ela não veio sem custo. Como se trata de um esporte de alto rendimento o nível de treinamento é muito forte. Enquanto outros dormiam, nós treinávamos. Todas as manhãs a partir das 6h, com chuva, frio ou vento mantínhamos nossas treinamentos. Quando não podíamos ir para a água remar, fazíamos trabalho de academia. E assim, após um longo período de treinamento intensivo veio a primeira grande recompensa. O técnico do Clube, Fernando, disse: “Moacir, você vai representar o Brasil no campeonato mundial de remo na Espanha”. Aumentamos a carga de treinamento e no final de julho de 2004 embarcamos para a Espanha com o tradicional agasalho da seleção brasileira. Fechava-se um ciclo previsto de oportunidades pelo médico que me disse “antes torto do que morto”. De filho de agricultor passei a ser um remador internacional. A sensação de vitória, de saber que é possível, de saber que a vida vale a pena sob qualquer circunstância culminou na alegria indescritível proporcionada pelo prazer de ser o único brasileiro na competição mais importante do remo mundial. Esse mesmo fato se repetiu em 2006, quando mais uma vez competi pelo Brasil na Inglaterra, desta vez acompanhado por uma equipe de oito colegas. Em 2007 mais uma vez consegui o índice para disputar o Campeonato Mundial de Remo na Alemanha. Portanto, as oportunidades estão ocultas nas diferentes dificuldades que encontramos no nosso dia-a-dia. Dificilmente encontramos oportunidades nas facilidades. Enfim, o fato de eu estar numa cadeira de rodas não foi impedimento, mas uma oportunidade. Pude me desenvolver como pessoa e como profissional, amando, desejando, sonhando, competindo, brincando, enfim, fazendo tudo que qualquer outra pessoa faz ao longo da vida. Certamente meu maior desejo seria voltar a caminhar, mas se eu tivesse a possibilidade de escolher entre voltar 20 anos no tempo e seguir como se nada tivesse acontecido ou voltar a caminhar a partir deste momento, eu obrigatoriamente ficaria com a segunda opção. Aceitaria voltar a caminhar a partir de agora, porque nesta trajetória como cadeirante vivi situações e conheci pessoas simplesmente maravilhosas das quais eu não posso abrir mão. E assim, passei os quarenta anos, sabendo que viver é uma oportunidade única, sempre, em qualquer situação. |
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