Faça assim:
bem antes de eu chegar, enxugue a sala:
só quadros, o tapete e as almofadas,
as flores renovadas
e um pouco de saudade...
e finja, à minha chegada, ar de surpresa...
me envolva, desde a porta, em seu abraço,
perceba o meu cansaço,
embora eu não esteja...
me leve para perto da sacada...
desligue o spot próximo à janela...
e à mínima candela,
só brilhe a sua mirada...
e deixe umas canções no ambiente...
uns discos de vinil, balde de gelo...
alise o tornozelo
sentando displicente...
por fundo, os bolerinhos da Batanga...
ao chão, inda espalhados, meus sonetos...
e o seu tubinho preto
da cor da sua tanga...
me beije, de repente, sem aviso,
e dê para o meu beijo o seu pescoço...
na voz em tom de esforço,
me diz "eu te preciso..."
me engane ao dizer que eu sou o máximo...
acenda a meia-luz, apague a roupa...
arranhe as minhas coxas
e diz que eu sou seu macho...
e sente no meu colo, assim, no meio...
pergunte qualquer coisa... eu direi "sim"...
me tire o mocassim
e dê pra mim seu seio...
e fique assim gemendo em trote lento...
guardando em seus afagos meu cabelo,
seu hálito a aquecê-lo
num "ai, que não agüento..."
e passe do trotar à galopada...
arranque meu silêncio com seus gritos...
me chame de maldito,
e implore ser amada...
e beije e gema e grite e trema e goze...
e que não fique nada nos ouvidos,
além desses gemidos
do arfar de nossas vozes...
* * * * Antoniel Campos