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Mitológica


 

Carinho Triste

 

A tua boca ingênua e triste
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar
em meio das alegrias,
A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.

Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios
intactos da virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos
pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha
de mar e céu ao pôr-do-sol,
É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de que criança que se deve afagar
e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza,
ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.

 

Manuel Bandeira

 

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