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Mitológica
Lenda Grega de Orfeu
Orfeu é associado com uma das mais belas artes de todos os
tempos, isto é, com a música. Diz-se que o deus Apolo lhe
ofereceu uma lira com sete cordas e que o próprio Orfeu
acrescentou mais duas a este instrumento, com o qual conseguiu
produzir alguns sons e umas melodias que amansavam as feras; o
canto que acompanhava a suave música que emanava daquele
instrumento tinha a particularidade de fazer com que árvores e
montes acolhessem, e protegessem, o jovem Orfeu de quaisquer
perigos que pudessem sobrevir-lhe. A lenda colheu até aos fatos
tão líricos como aqueles que narram a história do carvalhal da
Trácia no qual as árvores que o compõem dançam, até o dia de
hoje, por efeito da melodia que saiu da lira do jovem e belo
Orfeu num dia já muito longínquo.
Conta-se também que até os humanos se sentiam melhor e o seu
caráter se suavizava quando ouviam os serenos sons que saíam da
lira do belo efebo Orfeu. Música e poesia se fundiram, através
dos tempos, na cítara e na lira que Orfeu aperfeiçoou,
dotando-as de nove cordas em memória das "Nove Musas"
pois, como já sabemos, ele próprio foi engendrado pela
principal de todas: pela musa Calíope.
Uma série de acontecimentos míticos se resolverão felizmente
graças à intervenção de Orfeu com os seus instrumentos
musicais. Por exemplo, segundo narram as crônicas clássicas,
quando a expedição dos Argonautas tinha dificuldades devido ao
mar bravo, o jovem Orfeu - que se encontrava presente na citada
expedição - arrancava tais sons harmoniosos da sua cítara e
entoava tão desgarradoras canções que as águas se acalmavam e
o mar inteiro se transformava numa, por assim dizer, balsa de
azeite. Deste modo, os expedicionários puderam seguir o seu
caminho para a região da Cólquida à procura daquela apreciada
pele do mítico carneiro que, segundo as narrações clássicas,
nasceu da união entre Teófane - mulher de extrema beleza que
acossavam os seus admiradores e que Possêidon seqüestrou e
mudou para a ilha de Crisina para, uma vez lá, convertê-la em
ovelha e ele próprio transformar-se em carneiro - e Possêidon,
dando lugar à lenda do Velocino de ouro. Um gigantesco e feroz
dragão guardava o citado troféu e não deixava aproximar-se
ninguém ao Velocino de ouro mas, a lira e a cítara de Orfeu,
suavemente tocadas pelo jovem, transformaram em mansidão a
ferocidade do dragão e, deste modo, o chefe da expedição -o
ousado Jasão- conseguiria matar o monstro.
Muitas ocasiões teve Orfeu para acalmar com a sua cítara e a
sua lira a fúria desatada de numerosos animais selvagens. E,
freqüentemente, os mortais foram salvos do ataque dessas
agressivas feras que, ao ouvirem a música emanada dos
instrumentos tocados com habilidade pelo jovem Orfeu, abandonavam
imediatamente as suas covas e guaridas e se tornavam, ao mesmo
tempo, dóceis e mansas.
Contudo, o episódio mais significativo, e que tem por
protagonista Orfeu e sua lira, talvez seja o sucedido na região
subterrânea do Tártaro. Contam as mais ancestrais lendas que
até o infernal cão que guardava aquelas regiões abissais, o
Cão cerbero, cedeu perante a música do jovem Orfeu e
permitiu-lhe entrar nos escuros domínios de Hades /Plutão. Mas
porque é que o jovem efebo quereria ultrapassar o umbral da
porta do Tártaro? Para responder com precisão à esta pergunta
é necessário descrever uma doce história de amor cujos
protagonistas serão Orfeu e a bela ninfa Eurídice. Contam as
crônicas que a jovem donzela, sentindo-se acossada por um dos
seus pretendentes, concretamente por Aristeu -filho de Cirene e
Apolo que, segundo a tradição, foi cuidado pelas Musas, que lhe
ensinaram a arte da cura e da adivinhação-, decidiu fugir e
teve tão pouca sorte que, na sua louca corrida, tropeçou com
uma enorme serpente que cravou imediatamente as suas venenosas
fauces na rosada pele de Eurídice, causando-lhe a morte. Grande
foi o desconsolo de Orfeu, que decidiu descer ao Tártaro -armado
com a sua lira- para resgatar a sua amada. Que vã pretensão!
poderíamos pensar num primeiro momento; pois ninguém, até
agora, tinha regressado dos domínios de Hades /Plutão. No
entanto, o nosso herói, levando como única bagagem o seu canto
e a sua música, chegou até a mesma porta do Tártaro e
ultrapassou o seu umbral -com a licença expressa do feroz Cão
cerbero, naturalmente-, e entrou nos escuros abismos de tão
sinistro lugar. Depois de deleitar com a sua cítara e as suas
canções o próprio Hades /Plutão, rogou-lhe que permitisse
sair Eurídice do Tártaro, ao qual acedeu a terrível deidade,
com a condição de que o jovem músico não olhasse para trás,
para comprovar que a sua amada o seguia, enquanto não se
encontrassem ambos fora daqueles lugares infernais. Aceitou Orfeu
tais condições e dispôs-se a caminhar para a saída do
Tártaro; quando já se encontrava praticamente fora daquela
região escura, sentiu a necessidade de comprovar se a sua
querida Eurídice o seguia e, sem lembrar-se da condição
imposta por Hades /Plutão, virou a cabeça para a olhar. Mas só
conseguiu ver, entre assustado e atônito, como a sua amada se
convertia em brumas e desaparecia para sempre.
À raiz dos fatos narrados, o jovem efebo ficou sumido na mais
profunda das tristezas. A perda da sua amada Eurídice
transtornou o rapaz e, para sobrepor-se a tão aguda dor, Orfeu
dedicou-se a confeccionar uma espécie de guia, por assim dizer,
que descrevesse aqueles lugares secretos e escuros que
constituíam os domínios de Plutão para, assim, alertar o resto
dos mortais. Diz-se que Orfeu, depois de abandonar o Tártaro, e
uma vez resignado à irreparável perda de Eurídice, se dedicou
a explicar a maneira de achar o caminho que conduzia aos
domínios de Plutão e, assim, mostrou às almas dos mortais os
escondidos becos que desembocavam na própria margem do
Aqueronte, o escuro rio que delimitava a região do Tártaro e
cujas turvas águas só podiam ser atravessadas pela barca de
Caronte.
O nosso herói ainda fez outra tentativa para descer aos infernos
mas, desta vez, não conseguiu os seus propósitos. E não porque
tivesse decaído no seu empenho, dado que durante sete dias e
sete noites permaneceu na margem do pestilente rio Aqueronte à
espera de que o barqueiro da morte o transportasse até a porta
das regiões subterrâneas que já tinha visitado antes. Tudo
resultou em vão, e Orfeu se resignou à perda da sua amada e, ao
mesmo tempo, entrou numa espécie de apatia que o conduziria à
morte. Depois de que o nosso herói tivesse abandonado aqueles
lugares de perdição, se encaminhou para as montanhas situadas
no mais afastado da região de Trácia. Procurava a solidão para
aliviar a sua pena e acalmar a sua dor.
A única companhia que Orfeu aceitava de bom grado era a dos
animais que habitavam naquela zona tão inóspita de Trácia, os
quais se aproximavam mansamente dele quando ouviam a música que
saía da sua cítara. Mas algumas mulheres em breve deram com o
refúgio do jovem efebo que, em princípio, pretendiam
consolá-lo embora, realmente, o que tentavam era fazer esquecer
Orfeu de qualquer recordação antiga e penosa, e conquistá-lo
com os seus encantos. Mas o jovem tinha decidido nunca ter mais
relação alguma com outras mulheres e, de uma forma indireta,
rejeitava qualquer oferecimento que lhe fosse feito em tal
sentido. Conta a tradição que as mulheres que moravam naquela
zona da Trácia, sentindo-se rejeitadas pelo jovem efebo,
despeitadas e doloridas, decidiram esperar as datas em honra de
Baco e vingar-se. E assim foi como ocorreu, uma vez convertidas
em bacantes, as mulheres trácias cometeram o crime mais horrendo
da história pois não só mataram Orfeu, mas também todos os
seus adeptos.