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Mitológica


 

A Loucura de Ulisses


    Uma ruga de preocupação marca a testa de Ulisses, rei de Ítaca. De todos lados, sentinelas correm e anunciam-lhe a aproximação de uma imponente frota grega. Por que todos esses navios de guerra dirigem-se à tranqüila ilha de Ítaca?
    O astuto Ulisses logo compreende. A guerra de Tróia começou, e, por causa do juramento feito no casamento de Helena e Menelau, o rei de Ítaca deve unir-se ao exército grego e deixar sua pátria para ir guerrear.
    Ora, tempos depois do juramento Ulisses casou-se com a princesa Penélope. Reinando sobre sua ilha próspera e feliz, é amado por seus súditos. Um filho, Telêmaco, acaba de nascer. Portanto, Ulisses não tem nenhuma vontade de deixar essa felicidade doméstica para ir lutar num país bárbaro e longínquo. Ademais, um oráculo já avisou que, quando o rei saísse de Ítaca, levaria vente anos até tornar a pôr os pés na ilha!
    Mas Ulisses resolve recorrer a um estratagema....
    Quando se apresentam diante do palácio de Ulisses os reis gregos Agamenon, Menelau e Palamedes, encontram Penélope em prantos.
    - Ulisses enlouqueceu - conta a rainha . - Se vocês forem até a praia, na certa irão encontrá-lo. Ele não terá nenhuma utilidade numa expedição guerreira.
Preocupados, os três gregos vão à praia, seguidos de sua escolta. Lá encontram um espetáculo pouco comum.
    Caminhando sobre a aridez da areia, está Ulisses, seminu. Usa na cabeça uma boina de camponês, parecida com meia casca de ovo. Está empurrando um arado puxado por um boi e um burro. À medida que a curiosa parelha avança e lavra a areia fina, Ulisses semeia grãos de sal, sem nem mesmo dar-se conta de que está sendo observado.
    - Coitado! Perdeu o juízo! - comenta Menelau.
    Mas Palamedes é mais desconfiado:
    - Esperem! - grita
    Num relance, joga-se sobre Penélope, que se aproximou com o pequeno Telêmaco no colo. Palamedes agarra o bebê e o põe no chão, bem no caminho do arado. Se Ulisses estiver mesmo louco, deixará o filho ser pisoteado pelos animais e cortado em dois pela lâmina.
    Tão logo vê seu único filho no chão, Ulisses puxa com força as rédeas e faz os animais parar. Em seguida, é obrigado a confessar que estava apenas fingindo loucura. Apesar das lágrimas de Penélope, arma-se todo, reúne seus homens, manda preparar seus doze navios vermelhos e segue com a expedição para Tróia. Quando o vento começa a soprar, empurrando seu barco para longe, lança um último olhar à terra, perguntando a si mesmo se um dia retornará.
    Dali a pouco, Ulisses e os outros encontram a frota grega, de belos navios e incontáveis guerreiros. Os maiores reis já estão lá, acompanhados de seus poderosos exércitos. O velho e sábio Nestor segue ao lado do valente Diomedes (que não é aquele das ervas carnívoras); os dois Ájax, o grande e o pequeno, orientam regularmente as manobras de seus soldados.
    Uma única preocupação perturba Agamenon, escolhido para chefe de todos os aqueus: o jovem e valoroso Aquiles ainda não se juntou ao exército. Sem esse semideus, os gregos não têm nenhuma esperança de tomar Tróia e devolver Helena a Menelau. Onde está Aquiles? Ninguém sabe, mas corre o boato de que sua mãe, Tétis, uma das deusas do mar, escondeu-o, disfarçado em moça, no palácio do rei Licomedes.
    É verdade. Aquiles; sem nenhuma memória para fazê-lo recordar o guerreiro que sempre foi, vive no meio das filhas de Licomedes. Vestido como elas, passa o dia em ocupações femininas.
    Quando ouve contar isso, Ulisses acha que, se teve de sair de sua pátria, não há razão alguma para que Aquiles deixar de ir...
    O esperto rei de Ítaca resolve, então, disfarçar-se de mascate. Apresenta-se no palácio de Licomedes carregando cestos cheios de jóias e enfeites. Com gritos de alegria, as princesas precipitam-se sobre as mercadorias. Aquiles, como uma moça, faz o mesmo. Mas no fundo de um dos cestos Ulisses dissimulou algumas armas: punhais, dardos, um escudo.
    De repente, Aquiles percebe-as. Após um momento de perplexidade, agarra o escudo, ergue a espada e lança seu grito de guerra. Tudo lhe volta à memória. Chama para acompanhá-lo seu primo Pátroclo e os guerreiros mirmídones e segue com Ulisses para o porto onde o exército grego está reunido.
    Os cem mil combatentes aqueus estão prontos para partir. Os marinheiros já içaram as velas... Mas nada acontece, pois o vento não quer soprar.
    Então, o divino Calcas revela aos gregos que a frota ainda não pode partir. Isso porque muito tempo atrás seus chefe, Agamenon, ofendeu Ártemis, a deusa da caça. Para anular a maldição lançada por ela, é preciso que Agamenon lhe sacrifique sua filha mais velha, Ifigênia. O vento volta a soprar depois de cumprido o ato sangrento, presenciado por todos os aqueus, que, cabisbaixo, estão em lágrimas.
    O exército embarca, e os navios de guerra partem em direção a Tróia.

 

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