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Mitológica
Meu Contos
Publicado no Jornal O Diário de Barretos - 06 de abril de 2005
Horário de Almoço
Todos
os dias, um homem velho se sentava no mesmo local para almoçar. A distância do
trabalho à sua casa era muito longa, por isso ele preferia ficar sentado no
banco de uma praça, fazendo a sua refeição. A comida era muito simples e,
raramente, era acompanha de algum suco ou água. Ele comia sozinho todos os
dias. E isso o fez um bom observador sobre o que ocorria ao seu redor naquela
praça.
Mas
houve um dia que ficou destacado em sua memória. Enquanto comia saboreando ao máximo
o seu almoço, vagarosamente, aproximava-se dele uma cadela marrom e de médio
porte. Não demorou muito para que o homem velho percebesse uma sutil presença.
No entanto, ao levantar seu rosto e olhar para a pobrezinha, ela se assustou e
recuou um bom par de passos. Ela teve medo.
O
velho logo percebeu pela cara dela, ou melhor, pela língua, que ela estava com
sede, muita sede. E vendo que ela não tinha dono, pensou que também deveria
estar com fome. Catou, então, um pedaço de carne de seu prato e colocou no chão,
dizendo:
–
Venha, mocinha! Este pedaço aqui dou para você!
Mas
a cadela se afastou mais ainda. Por isso, o homem pegou outro pedaço de carne
de seu prato e o colocou novamente no chão, mas, desta vez, não tão perto
dele.
Ela
pensou em se aproximar e chegou a dar alguns passinhos para a frente, mas logo
voltou a recuar ainda mais. A mesma coisa aconteceu várias outras vezes. O
homem, portanto, pensou:
–
Com essa língua para fora desde que chegou, acho que deve estar mais com
sede do que com fome.
Porém,
naquele dia, o homem não estava bebendo nada. Mesmo assim, se dispôs a
levantar e procurar um copo. Só que quando se levantou, a cadela se assustou de
vez e saiu correndo até sumir de vista.
Com
a certeza de que ela voltaria, ele continuou a procurar algum copo jogado pelos
gramados da praça. Foi difícil achar um, mas depois de uma caprichada busca,
enfim, encontrou. Para encher de água
foi fácil, havia uma torneira a alguns passos de onde ele costumava se sentar.
Copo
achado e copo enchido, este foi colocado no chão. Agora era só esperar a volta
da cadela.
–
Tiro e queda, eu sabia que você voltaria. Não precisa ter medo, pode
tomar o quanto de água você queira!
Mas
por algum motivo, ela ainda tinha medo. E após olhar o homem nos olhos, deu
meia-volta e se mandou com a língua ainda para fora de tanta sede.
Já
o velho homem ficou triste e pensativo:
–
Nossa, eu fiz tudo para ajudá-la: dei um pouco da minha comida e fui
buscar água só para que ela bebesse e, no entanto, ela recusou. E recusou de
medo de mim. Pobrezinha. Deve ter apanhado bastante por tentar se aproximar de
pessoas para pedir água ou comida. Com certeza achou que eu fosse fazer o
mesmo.
Ele
ainda tinha meia hora antes de voltar ao trabalho. Terminou de almoçar e ficou
ali olhando os pedaços de carne e o copo cheio de água. Pensou:
–
Fiz tudo isso à toa! Ninguém vai comer essas carnes e nem beber essa água.
Que desperdício!
Nesse
mesmo instante, no momento em que terminava seu pensamento, apareceram dois
outros cachorros. Ambos eram pretos e pequenos. Era óbvio que eles também não
tinham donos. Um tinha os pêlos um pouco desarrumados, mas o outro, parecia um
monstrinho de tão feio.
Já
chegaram comendo os pedaços de carne e depois, enquanto um bebia água, o outro
esperava. O homem pegou o resto do seu almoço e se aproximou dos dois,
abaixou-se e o colocou no chão. Nenhum deles se assustou! E o velho sabia que
aqueles cães já tinham apanhado por pedir comida ou por pura maldade das
pessoas e, mesmo assim, eles não tiveram medo.
O
cão que esperava comeu mais um pouco e o outro, que bebia água, já tinha
praticamente acabado com a água do copo e enfiava o focinho o máximo que podia
dentro do copo para beber o que sobrava.
Vendo
que a água tinha acabado, o homem pegou o copo e foi novamente até a torneira
e o encheu. Quando voltou, foi a vez do outro cãozinho tomar água. E ele fez
igual ao seu companheiro e bebeu o quanto pôde. O homem achou aquela cena muito
engraçada: eles faziam de tudo para que o focinho não os impedisse de tomar
toda a água do copo.
Já
satisfeitos, os dois foram embora juntos, seguindo o mesmo caminho. E deixaram o
velho homem a pensar:
– Enquanto uns têm medo das oportunidades que aparecem, outros as agarram com unhas e dentes.
Agora é a hora do julgamento! Clique na figura abaixo e fale o que quiser.