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Mitológica
Édipo
Édipo e o Ciclo Tebano
O ciclo de mitos que tratam das sortes da cidade de Tebas e sua
família real é certamente tão antigo quanto as estórias que
compõem a Ilíada e a Odisséia, mas chega até nós através de
fontes muito posteriores. Enquanto a fundação de Tebas é
principalmente conhecida a partir de autores romanos como o poeta
Ovidio, as estórias de Penteu e Édipo são contadas pelos
dramaturgos atenienses, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.
Cadmo e a Fundação de Tebas
Cadmo era um dos três
filhos de Agenor, rei de Tiro, na margem oriental do
Mediterrâneo. A irmã deles, a linda Europa, estava brincando na
praia quando foi levada através do mar por Zeus, na forma de um
touro, até Creta. Agenor disse a seus filhos que encontrassem a
irmã e que não voltassem sem ela. No decorrer de suas
perambulações, Cadmo chegou em Delfos, onde o oráculo o avisou
que uma vaca o encontraria ao deixar o santuário; foi instruído
a fundar uma cidade onde a vaca finalmente parasse. O animal o
levou ao local da futura Tebas. Quando a vaca se deitou para
repousar, Cadmo percebeu que este era o local para a sua cidade e
decidiu sacrificá-la aos deuses. Precisando de água, mandou
seus ajudantes buscá-la em uma fonte próxima, a Fonte de Ares.
A lagoa da fonte, entretanto, estava guardada por uma ameaçadora
serpente, que atacou e matou todos os homens de Cadmo. Quando
Cadmo veio a procura destes, encontrou apenas fragmentos de
membros e o grande monstro saciado. Mesmo estando só e levemente
armado, conseguiu subjugar a serpente e, a seguir, aconselhado
por Atena, semeou os dentes do animal no solo. Deles surgiu um
grupo de guerreiros, armados com espadas e lanças. Teriam
atacado Cadmo, se este não tivesse tido a idéia de lançar uma
grande pedra no meio deles; assim, começaram a atacar uns aos
outros, parando apenas quando restavam apenas cinco deles; estes
cinco se juntaram a Cadmo e se tornaram os fundadores das cinco
grandes famílias de Tebas.
A cidade de Cadmo rapidamente tornou-se rica e poderosa, e seu
fundador prosperou com ela. Casou-se com Harmonia, a filha de
Ares e Afrodite, e tiveram quatro filhas, Ino, Autônoe, Agave e
Sêmele, e um filho, Polidoro. Estes por sua vez também tiveram
seus filhos. Autônoe era a mãe de Actéon, o grande caçador
morto pelos seus próprios cães de caça quando Ártemis o
transformou em veado como punição por tê-la visto nua. A linda
Sêmele foi seduzida por Zeus e ficou grávida de seu filho, o
deus do vinho Dionisio. A esposa divina de Zeus, Hera, estava com
ciúmes e astutamente sugeriu a Sêmele que pedisse a Zeus que
surgisse para ela na forma que tinha aparecido para Hera. Como
Sêmele tinha feito Zeus prometer cumprir qualquer pedido que
fizesse, foi obrigado a se revelar como um relâmpago, o que a
queimou viva. Zeus retirou a criança do útero de Sêmele e a
implantou em sua própria coxa, da qual a criança acabou
nascendo no tempo devido.
A família de Sêmele se recusava a acreditar que Zeus fosse o
responsável pela condição dela, ou sua morte. À medida que o
culto de Dionisio espalhou-se pela Grécia, ocorreu com muito
entusiasmo e pouca resistência, salvo em Tebas, onde o primo de
Dionisio, Penteu, filho de Agave, recusava-se a aceitá-lo.
Penteu
A característica principal do culto de Dionisio nos tempos
clássicos era a formação de grupos de mulheres conhecidas como
Mênades; vagavam por dias a fio pelas áreas das montanhas, num
transe ou frenesi, bebendo vinho, alimentando filhotes de
animais, ou despedaçando-os e comendo-os, encantando serpentes e
de uma maneira geral se portando de maneira selvagem. Devido a
estes aspectos semelhantes a orgias e também pelos principais
seguidores serem mulheres, a adoração de Dionisio era vista com
desconfiança pelas autoridades masculinas, que gostavam de
manter as mulheres em casa e sob o seu controle. A tragédia de
Eurípedes, As Bacantes, mostram um caso extremo de festividade
de Dionisio e suspeitas masculinas. Nesta peça, o próprio
Dionisio vem a Tebas, determinado a punir a família de sua mãe
por sua falta de fé, tanto nas suas irmãs como nele próprio. As mulheres de Tebas, incluindo as irmãs de Sêmele, seguem
entusiasmadas o deus; no correr da festa, altos brados erguem-se
do Monte Citéron devido as brincadeiras. Penteu, o senhor de
Tebas, considera seu primo de longos cabelos e modos afeminados
com razoável desconfiança, mas, como deus gradualmente o acaba
deixando maluco, confessa seu desejo de ir à montanha e espionar
as Mênades. Então, Dionisio o leva lá, e quando se aproximam
das mulheres, os deuses curvam um alto pinheiro para que Penteu
se alojasse no topo e pudesse ver tudo que desejasse. Como seria
previsível, torna-se um alvo fácil para as Mênades, que
derrubaram as árvores e o despedaçaram com as próprias mãos.
Entre elas está, principalmente, Agave, a própria mãe de
Penteu, que retorna triunfalmente a Tebas ostentando a cabeça do
próprio filho, acreditando ser esta a cabeça de um jovem leão.
Ao final da peça, acaba por perceber o que tinha feito, e todas
admitem o poder do deus.
A Casa de Édipo
Édipo, o trineto de Cadmo, é hoje talvez o herói grego mais
famoso depois de Hércules; ele é famoso por ter resolvido o
enigma da Esfinge, mas ainda mais notório por sua relação
incestuosa com sua mãe. Na antiga Grécia era famoso por ambos
os episódios, mas o maior significado era como o modelo do
herói trágico, cuja estória incluía os sofrimentos universais
da ignorância humana - a falta da compreensão da pessoa sobre
quem ela é sua cegueira em face do destino.
Édipo nasceu em Tebas, filho de Laio, o rei, e sua esposa
Jocasta. Devido ao oráculo ter predito que Laio encontraria a
morte nas mãos de seu próprio filho, o jovem Édipo foi
entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos
perfurados de modo que não pudesse se mover. Esta foi a origem
de seu nome que significa "pé inchado". Entretanto, o
bom pastor não conseguia abandonar a criança, entregando-a
então a outro pastor do lado oposto da montanha. Este pastor,
por sua vez, levou a criança a Pólibo, rei de Corinto, o qual
não tendo filhos, ficou feliz em criar o menino como sendo seu
filho. Enquanto Édipo crescia, era ameaçado com comentários
sobre não ser filho legítimo de Pólibo; apesar de Pólibo ter
lhe assegurado que o era, Édipo decidiu-se finalmente a viajar
para Delfos e consultar o oráculo. O oráculo não revelou quem
eram seus pais verdadeiros, mas contou-lhe que estava destinado a
matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado, e tão chocado
que esqueceu completamente suas próprias dúvidas sobre seus
pais, deixou Delfos resolvido a nunca mais retornar a Corinto,
onde viviam Pólibo e sua esposa.
Desconhecido para Édipo, seu pai verdadeiro Laio estava também
viajando nas redondezas de Delfos. Num local onde três estradas
se encontravam, Édipo se viu ao lado da carruagem de Laio; um
membro da escolta de Laio ordenou rudemente que Édipo saísse do
caminho, e este, sem disposição para obedecer, vociferou de
volta. Ao passar a carruagem, o próprio Laio golpeou Édipo com
um bastão e este respondeu derrubando Laio do veículo e o
matando. Esqueceu, então, o incidente e continuou o seu caminho.
Voltando as costas a Corinto, acabou chegando em Tebas, a cidade
de Laio, a qual estava sendo aterrorizada pela Esfinge, um
monstro parte leão alado, parte mulher, que fazia uma pergunta
que confundia: "O
que é que anda com quatro pernas, duas pernas e três
pernas?" Aqueles que tentaram e falharam em
solucionar a charada eram jogados pela Esfinge num precipício,
cujo fundo estava literalmente tomado por ossos das vítimas.
Quando a morte de Laio se tornou conhecida em Tebas, o trono e a
mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse
solucionar a charada e livrar a região da terrível Esfinge.
Para Édipo a charada não ofereceu problema; rapidamente
identificou seu sujeito como um "homem, que como um bebe engatinha de quatro,
acaba crescendo e andando em duas pernas e com a idade necessita
do suporte de uma terceira perna, uma bengala". Quando a
Esfinge escutou esta resposta, ficou tão enraivecida e
mortificada que se jogou no precipício causando sua morte.
Os cidadãos de Tebas receberam Édipo com deferência e o
fizeram seu rei; casou-se com Jocasta e por muitos anos viveram
em perfeita felicidade e harmonia. Édipo mostrou-se um
governante sábio e benevolente, Jocasta deu-lhe dois filhos,
Etéocles e Polínece, e duas filhas, Antígona e Ismênia.
Eventualmente, entretanto, outra praga se abateu sobre a região
de Tebas, e é neste ponto que começa a grande tragédia de
Sófocles, Édipo Rei. A colheita estava morrendo nos campos e
hortas, os animais estavam improdutivos, as crianças doentes e
os bebês em gestação definhavam, enquanto os deuses estavam
surdos a todos os apelos. Creonte, irmão de Jocasta, retornou de
sua consulta ao Oráculo de Delfos, que ordenava que a maldição
seria levantada apenas quando o assassino de Laio fosse trazido a
justiça. Édipo, imediatamente e de maneira enérgica, tomou a
tarefa de encontrá-lo, e como primeiro passo consultou o profeta
cego Tirésias. Tirésias reluta em revelar a identidade do
assassino, mas é levado gradualmente a se enfurecer pelas
insinuações de Édipo sobre ter algo a ver com a morte. Acaba
revelando que o próprio Édipo é o pecador que trouxe a
maldição sobre a cidade; também profetiza que Édipo, que se
considera tão inteligente e de visão larga, se recusará a
aceitar a verdade de suas palavras, se recusará a reconhecer
quem realmente é e o que tinha feito.
Édipo, enraivecido, suspeita que seu cunhado Creonte está
mancomunado com Tirésias para assumir o trono; Creonte também
nada pode dizer para acalmá-lo. Jocasta tenta acalmar a
situação: é impossível que Édipo tenha morto Laio, diz ela,
pois este foi morto numa encruzilhada de três estradas.
Subitamente Édipo lembra seu encontro casual com um homem velho
perto de Delfos; questionando Jocasta sobre a aparência de Laio
(estranhamente, se parecia com o próprio Édipo) e o número de
elementos na sua escolta, percebe que Laio foi provavelmente a
sua vítima. Enquanto espera pela confirmação de um elemento da
escolta que retornava a Tebas, um mensageiro chega de Corinto com
a notícia que Pólibo tinha morrido de morte natural; Édipo,
ainda não suspeitando de toda a extensão de seu crime, fica
feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da
profecia do oráculo, mas resolve ter cautela antes que acabe se
casando com sua mãe.
O mensageiro bem intencionado, ansioso em confortá-lo, assegura
a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais; o próprio
mensageiro tinha recebido Édipo, então um bebê, das mãos de
outro pastor do Monte Citéron e o entregou a Pólibo. Mesmo
agora Édipo não consegue fazer a correta conexão, e enquanto a
aterrorizada Jocasta tenta em vão persuadi-lo a parar a
investigação, persiste nos seus esforços para chegar ao fundo
do mistério e ordena que o pastor de Laio, agora um velho, seja
trazido a sua presença. Por uma casualidade do destino, este
homem é também a única testemunha ainda viva da morte de Laio.
Quando finalmente aparece, o completo horror da situação
finalmente chega a Édipo; o homem admite que tomou o filho de
Laio e com pena o entregou ao pastor de Pólibo, ao invés de o
deixar morrer. Esta criança era Édipo, que agora tinha sucedido
seu pai no trono e no leito.
Jocasta não esperou pelo desfecho; tinha ido antes de Édipo
para o palácio, e quando a seguiu, com o que parecia uma
intenção assassina, descobriu que tinha se enforcado.
Arrancando os broches de ouro do vestido dela, golpeia
seguidamente seus olhos com eles, até que o sangue corra pela
sua face. Como pode olhar para o mundo, agora que consegue ver a
verdade? O coro da peça mostra a moral da estória: por mais seguro que um homem possa
se sentir, mesmo sendo rico, poderoso e afortunado, ninguém pode
se sentir seguro de escapar de um desastre; não é seguro chamar
qualquer pessoa de feliz deste lado do túmulo.