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Mitológica
A barata e o rato
Era uma dessas baratinhas brancas e nojentas,
acostumadas à só imundice e ao monturo, comendo calmamente sua
refeição composta de um pedaço de barata podre e um pedaço de
tomate podre (causando inveja a muita gente). Chegou junto dela
um Rato transmissor de peste bubônica e lhe disse:
"Comadre, ontem tive uma aventura extraordinária. Estive
num lugar realmente impressionante, com você, comadre, certo
jamais encontrará em toda sua vida". Barata comendo.
"O lugar era uma coisa que realmente me deixou de boca
aberta" - prosseguiu o Rato - "tão espantoso e tão
diferente é de tudo o que tenho visto em minhas vida
roedora". (É sua sina roer.) Barata comendo. "Imagina
você - prosseguiu p Rato - "que descobri o lugar por acaso.
Vou indo numa das cavidades subterrâneas por onde passeio
sempre, entrando aqui e ali numa casa e noutra, quando, de
repente, percebo uma galeria que não conheço. Meto-me nela, um
pouco amedrontado por não saber onde vai dar e de repente saio
numa cozinha inacreditável. O chão, limpo, quem nem espelho! Os
espelhos, de um brilho de cegar! As panelas, polidas como você
não pode imaginar! O fogão, que nem um brinco! As paredes, sem
uma mancha! O teto, claro e branco como se tivesse sido acabado
de pintar! Os armários, tão arrumados e cuidados que estavam
até perfumados! Poeira em nenhuma parte, umidade inexistente, no
chão nem uma palito de fósforo...
E foi aí que a Barata não se conteve. Levou a mão à boca num
espasmo e protestou: "Que mania! Que horror! Sempre vem
contar essas histórias exatamente no momento em que a gente tá
comendo!"
Millôr Fernandes
MORAL: "Para o vírus a penicilina é uma doença."