Via Zambi
"Tudo é relativo."
Alberto
Einstein
Capítulo Um
Século XXI ao XXV
VISÃO LINEAR
Se Charles Darwin, o pai da evolução e da biologia moderna, tivesse considerando os estudos de Einstein - se tivesse tido a oportunidade de fazê-lo - talvez descobrisse que o processo evolutivo jamais se deu de forma lenta e linear. Tampouco a adaptação dos seres vivos ao meio ambiente foi um processo gradual e meramente acidental. Sim, faltou-lhe uma compreensão mais plena dos movimentos cíclicos da vida. Porque dadas espécies evoluem para outras formas, enquanto outras permanecem sem grandes modificações? Porque algumas espécies evoluem e desaparecem e outras não evoluem e permanecem até a atualidade? Tudo é relativo, inclusive o que denominamos evolução.
Eis o que Darwin não compreendeu, a alavanca mestra do processo transformador: o sofrimento, o sofrimento relativo! A dor contínua e transgeracional; o desconforto torturante, mas não mortífero, eliciando o processo evolutivo. Não de forma lenta, mas súbita e dramaticamente. O processo em si, dispensando algum breve tempo no espaço, poucos séculos, e a mudança decisiva sobrevindo rápida e inesperadamente, como um inédito amanhecer que se instaura com o nascimento de uma nova estrela. Descobrimos isso da forma mais vívida...
Já
no princípio do século XXI, nos idos anos de 2030 DC, sentiam-se os efeitos
primordiais. A Terra apresentava uma considerável elevação de temperatura, o
verão tornava-se paulatinamente mais quente e a cada nova estação podia-se
perceber e lamentar o incremento do insuportável calor. Por sua vez, o inverno
tornava-se progressivamente ameno e curto. As causas de tal mudança climática
deviam-se a fatores conhecidos na época: a poluição e a destruição
ambiental e atmosférica. O que não esperávamos diante de tal situação
adversa, era presenciar um salto evolutivo.
O começo da Grande Mudança deu-se quando a temperatura média do planeta alcançava os quarenta e dois graus centígrados à sombra, sendo que na África a temperatura média era ainda mais elevada, girando em torno dos quarenta e seis graus. Não tínhamos conhecimento de uma tal tragédia climática, que se anunciava arrasadora. É bem verdade que, teoricamente, sabíamos que populações inteiras haviam sido dizimadas em mais de uma ocasião na história da Terra, sendo cabalmente eliminadas, mas agora chegara a nossa vez! Não estávamos preparados, absolutamente, para tal infortúnio. A seleção natural mostrava a sua face mais cruel. O que tomáramos como “Seleção Natural” agora nos parecia uma bestialidade.
Foram os brancos... Levas e levas de homens e mulheres brancos, como espectros pálidos, apresentando carcinomas e tumores pela extensão do corpo. O calor lhes queimava a pele, tornando-a uma manta rugosa e vermelha, e a radiação solar transfigurava-a em feridas incuráveis. Pouco adiantava o uso de protetores solares, que rapidamente se tornaram placebo de luxo, tal a procura desesperada por eles. O sol emitia radiação de forma que mesmo à sombra o sujeito era parcialmente atingido por seus raios. Numa primeira leva, pelo menos um bilhão de brancos morreram, envoltos em carcinomas. Isso num período de apenas doze fatídicos anos. Tudo registrado e documentado pela mídia.
Houve um grande movimento mundial para nos livrarmos de seus corpos o mais rapidamente possível. Se não destinássemos os corpos agilmente, muito mais mortes haveria, a contaminação e a doença prevaleceriam de modo insustentável. Enterramos muitos em imensas valas coletivas e a tantos outros cremamos no deserto, montanhas deles. A demanda era absurda. Foi um milagre termos conseguido. E era apenas o começo...
Nós, os negros, não sofríamos do mesmo mal. Nossas peles se apresentavam lisas e sadias, ao passo que, com horror, assistíamos ao fim dos humanos deficientes em melanina. Com a morte do primeiro bilhão de brancos e amarelos, e de muitos humanos de tez mais clara, a população encerrou-se em suas casas e nos subsolos, tentando se proteger, mas era tarde demais. Todos já haviam sido expostos por tempo suficiente ao sol e às forças da natureza, que se mostraram irredutíveis. Não tardou para que os carcinomas surgissem nesses enclausurados também. Num período de apenas trezentos anos, os brancos foram extintos da face da terra. Portanto, por volta de 2355, somente os escuros ou negros sobreviviam. Eventualmente ainda nascia um exemplar de tez clara, mas simplesmente não sobrevivia ao primeiro mês de vida.
Foi assim que aprendemos o significado real do processo seletivo descrito por Darwin. Enquanto todas as criaturas carentes de melanina desapareciam, nós, os humanos providos de suficiente melanina, podíamos continuar a luta pela vida. Não havia maldade ou bondade no processo seletivo, era simplesmente uma guerra de vida e morte, indiferente ao sofrimento dos extintos e ao alívio dos sobreviventes. Uma mudança drástica no meio ambiente da Terra descartara todos os seres inaptos diante das novas circunstâncias. Todos os seres de pele nua e carente de melanina foram radicalmente extintos, incluso entre estes, os porcos cor-de-rosa e os gatos brancos, com hiper-sensibilidade à luz solar. Mas as mudanças maiores ainda estavam por vir.
A humanidade sobrevivente, apesar de não correr perigo de morte iminente, deparava-se com imensos desafios. Com o desaparecimento dos brancos precisávamos reorganizar a sociedade, tomar cargos e funções para manter a civilização em funcionamento, tal como a conhecíamos. Essa mudança foi se dando velozmente, à medida que os brancos iam desaparecendo. Contudo, muito ainda havia a ser feito. O certo é que, com extremo esforço e dedicação, conseguimos manter o nível tecnológico existente. As fábricas principais jamais cessaram de produzir seus sofisticados itens eletrônicos e as grandes empresas ligadas à informática, continuaram na ativa, desenvolvendo seus programas e soluções. Nos sentimos orgulhosos. Na sociedade dirigida pelos brancos raramente galgávamos posições de comando e gerência e agora provávamos para nós mesmos nossa grande capacidade adaptativa diante dos obstáculos, nossa superação diante da maior das tragédias. Simplesmente cerca de cinqüenta por cento da humanidade havia sido eliminada, e dentre estes, muitos dos instruídos, dos cientistas e inventores, mas nós, os sobreviventes, os histórica e socialmente excluídos, havíamos conseguido manter as conquistas da civilização. Tínhamos alimento industrializado, água potável, hospitais modernos, tecnologia.
Por volta do ano 2400 estabelecemos um governo mundial num promissor país da América Latina, o Brasil, que fora escolhido como país-sede-global devido a sua abundância em recursos hídricos (a preciosíssima água doce jorrava de seus rios caudalosos e de imensos depósitos subterrâneos!) e à qualidade preservada do solo, que não desertificara nos estados do norte; mais especificamente no Amazonas, Mato Grosso do Sul e no Tocantins. Do Brasil administrávamos as necessidades mundiais e socorríamos as populações e os países desestruturados, que ainda não haviam conseguido suficiente ordem e prosperidade. Em poucas décadas o Brasil tornou-se a nova potência mundial, exportando água potável em barris, como o precioso petróleo de outrora, fonte de energia que abandonáramos. A energia combustível utilizada agora, era a mais abundante e barata: a solar.
Se o calor insuportável nos oprimia e criava um novo meio, de alguma forma isso não era de todo estranho para nós, pois parecia que em nossas memórias ancestrais figurava uma lembrança primitiva de nossa terra mãe: a África! O calor quase insuportável nos remetia ao impiedoso Saara, que se parecia mau ao olhos de alguns, para muitos outros era o próprio lar. Nossos antepassados haviam caminhado pela terra de areia mole e fervente, e cobertos apenas com panos, haviam, não vencido o sol, mas se irmanado a ele. E o sol, como que testemunhando e aprovando essa irmandade, havia tornado nossas peles ungidas por um manto protetor negro.
Diante
desse quadro mundial, acreditávamos que o pior havia passado.
Capítulo Dois
Século XXV ao CC
VISÃO LINEAR
"O
imaculado, o forte e o belo de agora."
Stéphanie Mallarmé
Nesse intervalo de tempo, abrangendo nada mais nada menos do que 17.600 anos de história ou cento e setenta e seis séculos, aconteceram pelo menos três saltos evolutivos na espécie humana, perfeitamente documentados.
No ano de 7500 D.C. observou-se que alguns bebês estavam nascendo completamente desprovidos de pelos, mas com longos e espessos cílios oculares. Estes bebês foram carinhosamente chamados de “Nus” (abreviação do nome científico Homo Sapiens Nudis) e logo demonstraram que obtinham mais sucesso em seus empreendimentos do que os bebês comuns. Pareciam sentir menos calor e posteriormente descobrimos que suas dermes permitiam uma diferente ventilação orgânica, baixando a temperatura do organismo em caso de necessidade. Estes bebês tornaram-se adultos adaptados às altas temperaturas, mas surpreendentemente, também às baixas, pois os poros abriam-se e fechavam-se conforme a temperatura externa, do meio ambiente. Em poucos séculos os descendentes destes bebês Nus originais multiplicaram-se e no ano 8000 já constituíam a inteira população global.
O Brasil permanecia sede do governo mundial e sem dúvida tornou-se o império da nova era. É preciso esclarecer que o sistema econômico vigente não era em nada semelhante ao sistema capitalista que vigorava antes da Grande Seleção Natural. Agora mantínhamos um sistema político-econômico que consistia num misto de capitalismo e socialismo, que denominamos de Capitalismo Solidário. Quando uma nação precisava de ajuda, nenhum lucro era mais importante do que manter nossos irmãos alimentados e protegidos. Talvez isso, àquela época, quando os brancos dominavam, pudesse soar utópico, mas para nós, os sobreviventes fundadores de uma Nova Era, tal postura caridosa fazia pleno sentido. Sabíamos muito bem o que era sofrer a escravidão e a exclusão, além de perdas escatológicas, e essa memória coletiva nos conduzia a um caminho de mais compreensão e sabedoria.
Nossos cientistas concluíram que o nascimento dos bebês Nus tinha sido propiciado pelo sofrimento contínuo de algumas gerações com o calor abrasador. Como tal sofrimento não havia resultado em morte da população negra, mas persistira por algumas gerações, o código genético sofrera alteração brusca, adequando-se ao meio. De alguma forma, o sofrimento (e todas as transformações fisiológicas por ele disparadas), quando sentido por uma população inteira de indivíduos, por várias gerações sucessivas, eliciava uma mutação pró vida e saúde.
Assim havia sido desde os tempos imemoriais. Como quando os animais aquáticos necessitaram, talvez devido a carência de alimentos, sair da água e tocar o solo firme. Quanto sofrimento não terão padecido tais criaturas? Suas delicadas nadadeiras sangraram devido ao atrito com o solo áspero e pela tentativa de sustentação do aumentado peso do corpo, acostumados que estavam somente ao meio líquido. Quantos mortos atolados à beira d’água? E suas tremendas dificuldades para oxigenação do sangue, no exaustivo vai e vem do meio aquático para a terra e vice-versa? Quantas gerações terão assim sofrido até que a primeira sombra de pata surgisse? Infelizmente, a população de humanos brancos não tivera tempo de adequar-se ao meio, uma vez que para eles a mudança ambiental fora fatal. Tal explanação teórica veio a ser confirmada repetidas vezes, não mais por experimentos fictícios, mas por prova testemunhal.
Por volta do ano 10.300 D.C., século CIV, tivemos o segundo salto evolutivo. Bebês começaram a nascer sem as unhas. A princípio não percebemos a utilidade de tal ausência e nem compreendemos o porque desta mutação específica, porém, usando o raciocínio do pai Darwin, chegamos a conclusão de que as unhas simplesmente não eram mais importantes em nossos corpos, tal como um apêndice que, deixando de ser usado, atrofia. Nenhuma de nossas atividades rotineiras envolvia a utilização das unhas há séculos e com a ausência de ossos pelos, já que estávamos completamente desprovidos de pelos, sua utilidade reduzira-se ainda mais, pois muito raramente nos coçávamos; diferentemente dos hominídeos peludos, nossos primitivos ancestrais na escala evolutiva, que não só coçavam-se assiduamente como usavam as unhas para matar os insetos parasitas que infestavam suas pelagens. Somente nossos olhos ainda possuíam uma camada espessa de cílios, mas para coçá-los ou massageá-los, de modo algum usávamos as unhas. Nesse caso, a evolução deu-se por desuso de um dado apêndice: desaparecimento das unhas das mãos e dos pés. Da mesma forma observada anteriormente, os bebês Digitais (Homo Sapiens Digitalis), sem unhas, demonstraram ser superiores em tarefas de alto nível. Uma sensibilidade aguçada nas pontas dos dedos lhes assegurava um toque extremamente habilidoso, mas mais do que isso, eram capazes de sentir sem tocar de fato.
E,
finalmente, o último salto evolutivo, por nós documentado, deu-se no ano
18.714 D.C. Surgiram os bebês precoces. Nasciam e em poucos minutos punham-se
de pé, firmando-se sobre as perninhas rijas e adequadamente desenvolvidas. Mais
alguns minutos e seguiam aos pais andando e em pouco mais de duas horas eram
capazes de correr com desenvoltura. De alguma forma o processo de maturação física
e cerebral havia sido incrivelmente acelerado. Não havia aumento de capacidade
cognitiva, propriamente, mas um desenvolvimento maturacional veloz que
possibilitava aquisição precoce de habilidades. Com um mês de idade falavam
as primeiras palavras, como “mamãe”, “papai”, “leite”. Aos três
meses já diziam frases simples e aos seis meses falavam com o vocabulário típico
de uma criança de três anos de idade. Ficamos encantados. Os bebês eram
maravilhosos, nos sentíamos abençoados. De uma vitalidade e de uma precocidade
nunca vista, os apelidamos de bebês Evol (derivativo de Homo Sapiens Evolution).
Aos nove meses de idade, brincavam ativamente nas áreas de lazer infantil e
desenvolviam francamente a linguagem. Não é preciso dizer que tal fenômeno
foi considerado o mais relevante de todos e o mais festejado pela humanidade.
Contudo, é preciso informar que as crianças Evol, ao atingirem a idade adulta,
eram adultos iguais aos outros adultos, exceto pelo fato de que, com a infância
reduzida e o acelerado desenvolvimento físico, chegavam à forma adulta aos dez
ou onze anos de idade. Era como se ganhassem mais tempo para serem adultos
jovens. Essa vantagem significativa, cerca de dez anos à frente de uma criança
digitalis, os tornava, com relativa facilidade, os mestres, cientistas e
professores de nossa sociedade. Mas isso não vencia a eventual genialidade de
algum adulto tardio, como passaram a ser chamados os filhos da geração
digitalis, de amadurecimento lento.
Dados comparativos
Desenvolvimento dos Digitalis X Desenvolvimento dos Evol
A)
Digitalis (I.c. Idade cronológica)
0 1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 anos => puberdade Digitalis
B)
Evol (I.m. Idade maturacional)
3 4 5 6 8 10 12 14 16 18 20 anos =>
adulto Evol ou adolescência final Evol
Verificando
os dados, observa-se que a criança Digitalis apresenta o desenvolvimento
tradicional, tido como normal, conforme demonstrado na linha do tempo A, que vai
do zero aos dez anos de idade Ic. Na linha do tempo B é muito diferente, é
como se o bebê nascesse com três anos de idade e realmente, do ponto de vista
do desenvolvimento maturacional, o bebê Evol nasce com três anos de idade.
Comparando a evolução: No ponto 0 (zero ano), o bebê digitalis nasce, sendo
que mal coordena mínimos movimentos; enxerga com certa dificuldade; e não
fala. Contudo, o bebê Evol nasce no ponto 3 (equivalente a três anos), sai do
parto já com coordenação motora bastante adiantada, se erguendo sozinho e
caminhando sem auxílio; enxerga com perfeição e logo ensaia as primeiras
palavras. A diferença é fantástica! A seguir, enquanto o bebê digitalis
ensaia os primeiros passos no ponto 1 (um ano), o bebê Evol já está no ponto
4 (equivalente a quatro anos), correndo; falando fluentemente, embora com o
vocabulário reduzido e ainda cometendo erros típicos da tenra idade; ganhando
espantosa desenvoltura! Ao fim dos dez anos cronológicos, a criança Digitalis
chega à puberdade e o jovem Evol chega à adultez, com o corpo e a mente
plenamente desenvolvidos. Em termos percentuais, no primeiro ano de vida a criança
Evol desenvolve habilidades cerca de 300% à 400% mais rápido que uma criança
Digitalis. Esse percentual varia um pouco de criança para criança, uma vez que
algumas crianças Digitalis, excepcionalmente, apresentam altas habilidades,
assim como algumas crianças Evol apresentam um desenvolvimento um pouco mais
lento e, muito raramente, mais rápido ainda – esses são chamados de EvolSP (Evol
Super Precoce). Depois do primeiro ano de vida essa diferença no ganho de
habilidades diminui para uma taxa de cerca de 200%, o que ainda representa uma
enorme vantagem para os infantes Evol; vantagem que se mantém até a adultez.
No campo cognitivo, é praticamente impossível um Digitalis se igualar a um
Evol. Talvez eu seja o único a realizar esse feito.
Agora estamos no século CC, ano 19.980, avançamos muito tecnológica e
cientificamente, em parte graças à geração Evolution, e justamente quando
acreditávamos desfrutar nosso apogeu enquanto civilização, eis que outro
imenso desafio surge. Estaremos aqui para continuar nossa caminhada?
Capítulo Três
Época Atual
19.980 – Séc. CC
OÁSIS A M A Z O N A S - BRASIL
"Uma
ameaça não pode causar
nenhum mal, se não for aceita."
Paulo Coelho
Sentei-me à beira da mesa e mirei o menino, enquanto ele balançava suas pernas finas no ar, distraidamente, fazendo a superfície da poltrona flutuante subir e descer.
— Zambi, você é muito jovem, não tem maturidade suficiente para participar deste projeto! - repreendeu-me o pequeno Babalô, no tom paternal que sua voz aguda permitia.
Aos seis anos I.c. (Idade cronológica), o menino Evol Super Precoce me considerava um idiota, entretanto, era evidente que negava e invertia os fatos. Sua Idade maturacional era de aproximadamente quatorze anos, não mais do que isso, em nada justificando seu ar autoritário e sua postura um tanto rude, exceto o fato de que ele era um adolescente. Ao contrário da postura arrogante, esperava que ele me recebesse como a um igual, um amigo. Talvez o jovem Babalô quisesse compensar o azar que tivera: seu corpo não acompanhara plenamente seu brilhante desenvolvimento cognitivo; sua Idade orgânica era de aproximadamente onze anos, o que provocava uma jocosa disparidade. Babalô era um fabuloso adolescente com um corpo absolutamente infantil. Isso o faz transpirar de inveja, pensei, afinal ele tem diante de si um belo jovem Digitalis, que goza seus incríveis dezenove anos I.c., na mais singela harmonia entre corpo e mente.
— Professor Babalô, com todo o respeito, não me faltam referências profissionais positivas! Tudo que lhe peço é uma chance, uma única chance para fins de comprovação, uma oportunidade de demonstrar minha utilidade no projeto – Tentei argumentar, humilde, mas enfaticamente, ciente de que este seria o único meio de convencê-lo a me ouvir. Nada como um argumento claro e honesto!
— Uma chance de provar sua maturidade e capacidade? - falou Babalô, cheio de ironia, alçando os músculos da testa desnuda – Parece-me razoável... Muito bem! Pegue um dos suínos rosa e lave-o com água e sabão. Agora mesmo!
Os suínos rosa eram animais de laboratório, cobaias-clone, artificialmente criados com o fim de estudarmos e monitorarmos os efeitos da radiação solar, além de servirem para testarmos toda sorte de produtos dermatológicos. Evidentemente, Babalô verificava minha capacidade de suportar ordens, bem como minha humildade ao ter de banhar porcos de laboratório, tarefa que nem os robôs auxiliares faziam manualmente.
— Professor, eu posso me sujeitar às suas ordens, mas creio que estamos perdendo vidas, tempo e recursos! — afirmei em tom grave.
Pela primeira vez o menino me olhou diretamente, algo admirado.
— Bem... Você está certo... Não vamos perder tempo! Vou incumbi-lo de uma tarefa mais produtiva, e se você cumpri-la adequadamente, será membro de nossa equipe. Agora, meu jovem, preste atenção, se eu considerar o seu trabalho insatisfatório, vou mandá-lo embora tão depressa que não vai ter tempo nem de suspirar!
— Sim senhor! - respondi triunfante e esperançoso.
— Ótimo! Apresente-me uma tese com as suas hipóteses referentes às condições que propiciaram o surgimento do Homo Sapiens Evolution.
O garoto Evol atirou-se para trás na poltrona flutuante, folgadamente, como se desfrutasse férias num delicioso oásis sombreado. A aparência de Babalô não me enganava. Era pequeno, porém um salto em seu desenvolvimento físico era iminente, e dentro de pouco tempo seu corpo tomaria as formas de um típico adolescente, isento de primitivos pelos e unhas, mas ainda acossado pela explosiva testosterona. Contudo, no momento ainda era um infante atrevido, que se destacara, excepcionalmente, pelos conhecimentos avançados em manipulação genética e que, para o bem ou para o mal, chefiava uma importante equipe de pesquisadores. Além da costumeira precocidade Evol, Babalô manifestara alta habilidade, especialmente no que dizia respeito às ciências biológicas, mas, sem dúvida, ainda carecia de maturidade emocional, que só viria nos anos seguintes, aos nove ou dez anos I.c.
— Posso lhe apresentar a tese em forma discursiva? – perguntei, abrindo mão dos recursos holográficos.
— Perfeitamente! – falou o pequeno arrogante, aparentemente impressionado com minha ousadia.
— Pois bem, a tese que defendo é a seguinte: estamos sendo bombardeados por radiação solar nos últimos séculos; assolados de forma ímpar pelo sol. Esse fator ambiental, a radiação solar, claramente mutagênico, associado à Lei de Darwin de Seleção Natural, nos brindou com avanços na escala evolutiva!
Babalô ficou em silêncio. Parecia meditar.
— E os símios?
— Os macacos? O que tem os macacos? – indaguei sem entender aonde o professor queria chegar.
— Porque os macacos não evoluíram?
— Senhor, se refere aos chimpanzés? – perguntei apreensivo, sentindo que o raciocínio do garoto me escapava.
— Precisamente! Mas não apenas aos chimpanzés, mas também me refiro aos Bonobos, Orangotangos e Gorilas. Por quê não evoluíram? Foram igualmente torpedeados pela mesma radiação solar ímpar, e também sobreviveram a Grande Mudança de 2030.
Num piscar de olhos me senti enredado, simplesmente não me ocorrera comparar os símios sobreviventes aos humanos sobreviventes. Simplesmente não me ocorrera comparar as trajetórias. E agora não sabia o que dizer.
— Bem... Você tem razão. Humanos e símios são espécies suficientemente próximas para nos perguntarmos porque ambas, expostas às mesmas condições ambientais mutagênicas, seguiram rotas evolutivas tão diferentes. Porque a espécie humana apresentou saltos evolutivos tão definidos e espetaculares e os grandes macacos continuaram exatamente iguais aos seus antepassados?
Súbito, tive plena e dolorosa consciência do que significava ser um digitalis. O pequeno gênio de seis anos I.c. acabara de demonstrar o quanto eu, dezenove anos I.c., estava obsoleto. Senti-me uma tartaruga preguiçosa e lenta diante de um coelho esperto e ágil. Baixei a cabeça, humilhado.
— Você foi aprovado! – exclamou o menino, num grito de júbilo.
— O quê? – retruquei aflito, sem acreditar no ouvia.
— Bem-vindo professor Zambi à equipe multidisciplinar de Estudos da COBRAPA (Comunidade Brasileira de Pesquisas Avançadas).
Fez-se silêncio na sala. Babalô sorria.
— Desculpe, mas não estou entendendo. Eu errei, não respondi adequadamente à pergunta, não argumentei bem... – falei francamente.
— O senhor apenas não havia pensado no que eu havia pensado, mas foi capaz de ouvir e reconhecer uma argumentação momentaneamente melhor do que a sua. Foi capaz de se guiar pelo raciocínio lógico e científico, mesmo quando quem lhe falava era um desprezível menino. Então, caro professor Zambi, o senhor está pronto para interagir com uma equipe que se guia pelas idéias objetivas e não pelos estereótipos, além disso, tenho ouvido falar que o senhor é o mais brilhante digitalis que já nasceu – disse Babalô, assumindo uma nova postura profissional e estendendo a mão para me cumprimentar, exibindo um sorriso irônico no rosto.
Foi então que compreendi. Babalô era adulto! Deus do céu, como podia? Era emocionalmente precoce também!
— Será uma honra trabalhar com o senhor! – afirmei, sentindo a um só tempo respeito e admiração pelo homenzinho, mas também um pouco de rancor, afinal ele me enganara e acabara de tocar, embora sutilmente, numa questão extremamente delicada, ao me citar, talvez com intencional ironia, como o mais brilhante digitalis que já nasceu. O que ele pensava dos demais digitalis, supostamente menos brilhantes que eu? Além disso, não podia desconsiderar que acabara de ser derrotando por ele, numa espécie de artimanha intelectual; pensaria ele que derrotando a mim, todos os digitalis estivessem também definitivamente derrotados e inferiorizados? Naturalmente, eu não simpatizava com qualquer idéia que remetesse a uma possível superioridade Evol, ainda que do ponto de vista cognitivo ela fosse praticamente inquestionável. Desfez-se nesse dia qualquer tendência em mim a ver Babalô como mera criança mimada. Ele era um homem adulto e poderoso, tinha uma mente arguta, mas eu ainda desconhecia sua índole.
Deixei o gabinete do professor Babalô perturbado com os acontecimentos. Estava feliz por estar conquistando um dos meus maiores desejos, trabalhar na conceituada COBRAPA, uma das instituições científicas mais respeitadas do mundo; contudo, meus sentimentos estavam abalados. Eu seria um dos raros digitalis a trabalhar num universo de Evols fantásticos. Temia ser humilhado, mais do que isso, temia ser continuamente humilhado; temia não poder defender os digitalis, representá-los com dignidade. Nosso futuro estava em jogo. Se eu fracassasse em minha missão científica - não contribuindo efetivamente para a Comunidade - não restaria nenhuma dúvida de que os digitalis deveriam ser subordinados a um governo Evol, que as tarefas e missões menos importantes nos seriam delegadas, enfim, a porta estaria aberta para um regime ditatorial. A volta dos senhores e dos servos; dos arcaicos senhores feudais e seus vassalos! Sobreviveria o Capitalismo Solidário, conquistado a tão duras penas, a essa relação de poder tão desigual? Sobreviveria a solidariedade aos bafejos de tão grande dominação? O poder do conhecimento superior precisava ser distribuído urgentemente e eu era a maior esperança de que isso acontecesse!
Enquanto meditava sobre estas questões perturbadoras, percebi que o pequeno Babalô me prestara um grande favor, e talvez tivesse sido um verdadeiro amigo. Ele me mostrara o poder dos Evols, e derrubara meus conceitos precipitados e tolos, fazendo que jamais eu voltasse a entender os Evol simplesmente a partir da aparência física ou mesmo a partir de um diálogo breve, fora de um contexto mais amplo. Babalô também me mostrara que se eu conseguisse argumentar suficientemente bem, eles me ouviriam. Eu tinha alguma chance, concluí, mínima que fosse, mas tinha.
Do
prédio da COBRAPA, no vigésimo andar abaixo do solo, rumei para a via Atômica-Solar,
que me transportaria em segundos para casa. Mas antes resolvi subir à superfície
e apreciar um pouco a paisagem do Oásis Amazônia com sua magnífica e preciosa
floresta. Precisava relaxar e meditar. No dia seguinte eu seria apresentado à
equipe de Evols e talvez pudesse traçar alguma estratégia inicial para esse
primeiríssimo encontro...
Capítulo Quatro
O ENCONTRO
Alcancei a plataforma de observação ao meio-dia e aproveitei para almoçar no famoso restaurante da torre, que se erguia acima da floresta. As três pilastras da plataforma haviam sido cuidadosamente projetadas para constituir abrigo para algumas espécies ameaçadas, simulando uma enorme rocha, cheia de úteis saliências, bem como cavernas e pequenas tocas. Assim, nos andares inferiores das pilastras, havia uma gama de cavernas de todos os tipos e tamanhos, além de fontes de água fresca. Nos andares mais altos, estavam as saliências e pequenas tocas. Através do piso transparente da plataforma podia se ver, logo abaixo, inúmeras belas aves, ocupadas em lidar com seus ninhos e filhotes, abrigados nas boas pilastras.
Como entrada, pedi ao garçom um acarajé e depois uma porção de feijoada light, com ingredientes de porcos geneticamente modificados. Ainda assim, comi pouco, o que contribuiu para meu bem-estar geral. Depois do almoço e do cafezinho costumeiro, fui observar a floresta na ampla janela do observatório. Lá fora a temperatura girava em torno de 43° graus Celsius, graças ao Oásis verde, mas no interior envidraçado da plataforma vigorava uma agradável temperatura de 23° graus. A floresta se estendia esplêndida, mas sempre sentia uma certa ansiedade diante daquele mar verde, aparentemente infinito. Eu sempre procurava, quase instintivamente, sinais de deterioração na mata, temendo o aparecimento de algum terrível ponto de desertificação e naquele dia, fatídico dia, vi algo que me deixou verdadeiramente preocupado. Bem na linha do horizonte, de modo quase imperceptível para um observador menos preparado, uma finíssima faixa de luz branca emergia. Se havia uma cor da morte em nossos dias, essa cor era o branco: o branco das areias do deserto.
Qual dedicado cientista, eu estava a par do histórico processo de desertificação mundial e agora, o que nos impedia de uma falência, eram os focos de vida espalhados por alguns lugares do planeta, que denominávamos, acertadamente, de Oásis. Era nos subsolo desses Oásis que habitávamos, consumindo água e aproveitando ao máximo quaisquer recursos naturais. Nossas plantações de cereais e de vegetais vicejavam nos laboratórios, alimentadas por uma mistura bioquímica. Nossa proteína de origem animal, igualmente, provinha dos laboratórios, fruto de manipulações genéticas e de animais modificados. Mas, apesar dessas técnicas avançadas para obter alimento e sobreviver, eram os Oásis que resistiam a uma devastação climática completa do planeta e mantinham um ciclo mínimo da água, provocando chuvas e a manutenção de pequenos nichos de vida natural. Então, quando vi a linha branca no horizonte, pensei estar vendo o alvorecer da morte.
Contudo,
afastei o olhar da paisagem e olhei ao meu redor. As pessoas continuavam
sorrindo e mostrando aos seus filhos, através da vidraça, o que era a vida
fora das cidades subterrâneas. Crianças corriam ao longo da ampla janela do
observatório, alegres, cheias de vitalidade em suas brincadeiras. As aves
coloridas voavam ao redor da torre e pousavam em seus ninhos para alimentar seus
filhotes. Sim, a vida continuava rica e bela. Concluí que devia estar
enxergando demais. Não era a primeira vez que me flagrava com pensamentos
sinistros e pessimistas. Talvez minha depressão estivesse voltando.
Acordei na manhã seguinte mais animado. Havia conversado com o Terapeuta ao chegar em casa e aliviado minhas preocupações. Sem dúvida, Zaôque, o terapeuta virtual, era meu melhor amigo. Podia contar com ele a qualquer hora, estava sempre disponível, bastava acessar a Rede e pronto! Confiara a ele meus receios quanto ao novo emprego junto aos Evols e também meus temores em relação ao alvorecer da morte. Zaôque interpretou adequadamente. Disse que eu estava passando por muitas mudanças, que implicavam novos desafios, e que essas mudanças soavam ameaçadoras, envolvendo, de alguma forma, a morte de certos aspectos infantis de meu ego e que, ambiguamente, tais mudanças também soavam como uma vida nova, como um alvorecer. Perfeito! Senti-me mais tranqüilo e confiante.
Às dez horas deveria me apresentar para a primeira reunião da equipe multidisciplinar de Estudos e exatamente as oito e quarenta e cinco horas entrei no saguão do prédio da COBRAPA. Haviam me avisado para chegar uma hora mais cedo, embora eu não soubesse exatamente o motivo. Eu estava trajando meu melhor traje inteiriço, traje que poderia favorecer uma boa primeira impressão a meu respeito, mas que não era excessivamente formal. Estava nervoso, como seria de esperar, mas procurava manter meu equilíbrio emocional, me mostrando afável e discreto. Não era momento de falar, mas de ouvir, pensei. Na recepção, fui muito respeitosamente submetido a um triplo teste de identidade, todos embasados em elementos orgânicos idiossincráticos. Depois fui orientado a descer ao décimo sétimo andar, onde aconteceria a reunião, sala setecentos e um. Fiquei impressionado ao descobrir que o acesso a esse andar não era feito pela GaG normal (Gravidade-anti-Gravidade) e sim por uma via GaG especial, mais veloz, e exclusiva para o décimo sétimo! Comecei a perceber em que tipo de trabalho estava me metendo, algo diferente, sem dúvida. Um misto de orgulho e excitação agitou meu íntimo. Não estava acostumado a regalias e de repente eu simplesmente fazia parte de uma equipe privilegiada.
Tomei a GaG especial e desci ao décimo sétimo. O andar era luxuoso. O tipo de luxo que um cientista aprecia. Salas de conferência com todo tipo de suporte moderno; laboratórios de ponta; restaurante gratuito aberto vinte e quatro horas; holoteca super atualizada, com obras de referência nas mais diversas mídias; comunicação disponível permanentemente com outras Comunidades científicas; equipe de apoio pronta para fornecer o que quer que fosse necessário, inclusive solicitação de melhores condições técnicas – o que me parecia um exagero! – bem como solicitação de materiais específicos e até acréscimo de verba para os projetos aprovados. Fantástico! Minhas mãos tremiam, embora eu disfarçasse a emoção. Conheci de forma rápida as dependências, tendo por cicerone um digitalis da equipe de apoio, de nome Topomá. Perguntei a ele se havia algum Evol trabalhando na equipe de apoio. Pergunta tola, a resposta era não. Quando achei que já havia visto tudo, ainda que de forma apenas breve, Topomá parou diante de uma porta, e fazendo um pouco de suspense, a abriu com o uso de uma senha mental. Uma sala interessante se descortinou. Havia um laboratório menor, um escritório-suporte adjacente e uma pequena Holoteca, todos os ambientes juntos no mesmo recinto, mas decorado de tal forma que a sala era muitíssimo agradável, enchendo meus olhos de admiração e cobiça. A sala continha praticamente tudo o que vira no andar inteiro, mas em pequena escala.
— Esta é a sua sala de trabalho – anunciou Topomá, exibindo um sorriso cordial.
Deus do céu - extasiei-me de felicidade - uma sala dessas só para mim! Era muito mais do que pudera sonhar! Então Topomá passou a me explicar a utilização de alguns recursos especiais e às nove e cinqüenta e cinco horas eu fechava a porta de minha sala com minha própria senha mental. Estava maravilhado, simplesmente maravilhado. Dirigi-me a sala setecentos e um, voltando a sentir as mãos trêmulas e uma camada fina de suor frio escorrer entre as palmas nervosas. Topomá já havia se retirado e finalmente eu enfrentaria o momento ansiado e temido.
A sala de reuniões estava movimentada. Os Evols conversavam animadamente, compondo um grupo bastante heterogêneo, que não deixava de me assombrar pela disparidade nos tamanhos. Havia os “adultos”, conforme eu chamava aos de físico desenvolvido e havia as “crianças” e os “púberes”, conforme seus graus de desenvolvimento aparente. Lembrei-me do encontro com Babalô e do quanto havia me enganado ao julgá-lo, mesmo sendo conhecedor de sua precocidade. Para conhecer um Evol havia muito mais envolvido, era preciso diferençar os Evols precoces dos Super precoces, e ainda considerar que havia os Evols com altas habilidades. Junte-se esses fatores todos e há de se notar uma série relevante de variáveis na composição das características físicas e psicológicas de um Evol, tornando difícil saber em que etapa do desenvolvimento físico-emocional-cognitivo um Evol realmente se encontrava. Assim, a criança diante de meus olhos, poderia ser emocionalmente mais madura que o jovem alto e forte ao seu lado.
Babalô irrompeu no grupo e veio me cumprimentar com um sorriso. Logo nos sentávamos em círculo para iniciar a reunião. Éramos onze. Minha curiosidade estava mais aguçada do que nunca. Era fascinante estar conhecendo aquelas pessoas, realmente um privilégio.
— Bem, está na hora, vamos começar a trabalhar! – disse Babalô em tom amigável.
O grupo parou de conversar e todos voltaram a atenção para o pequeno Babalô, que se balançava levemente na cadeira flutuante.
— Como a maioria de vocês sabem, sou bastante objetivo e prático e hoje precisarei ser mais objetivo e prático do que de costume. Assuntos urgentes pedem nossa atenção. Apresento-lhes os mais novos integrantes da Equipe de Estudos e Pesquisa da COBRAPA, o senhor Zambi e a senhora Iansanã, ambos digitalis. Sejam muito bem-vindos!
Ouve um curto silêncio após a referência aos nossos nomes, como se Babalô esperasse algum comentário a respeito, o que me pareceu constrangedor, mais provavelmente devido aos meus próprios sentimentos de inadequação em relação ao grupo do que por outro motivo. Iansanã era uma bonita jovem, talvez da minha idade, com grandes olhos amendoados e uma boca do feitio de um coração carnudo. Uma digitalis! Uma agradabilíssima surpresa.
— Ata de reunião sigilosa; sistema de conferência secreta; acesso negado a partir de agora. – ordenou Babalô ao Gerenciador da sala de reuniões, o suporte automático que administrava os recursos Holo.
A porta da sala se fechou com um baque surdo, enquanto ouvíamos uma seqüência de notas musicais, que me pareceu iniciar com um Dó-si-sol-lá-mi-ré.
— Todos os sistemas de segurança online – respondeu o Gerenciador com uma voz feminina.
— Senhores, como é do conhecimento de alguns de vocês, temos um desafio pela frente. Como puderam notar pelo nível de segurança exigido, tudo que diz respeito ao que aqui será abordado é absolutamente secreto. Se houver alguém, aqui nesta sala, que não se encontre em condições de trabalhar com assuntos sigilosos e de extrema importância, por favor, se sinta à vontade para se retirar agora. É perfeitamente compreensível que alguns de vocês não possam assumir tamanha responsabilidade. Os que desejarem deixar esta sala serão transferidos para outra equipe da COBRAPA, sem maiores conseqüências. Contudo, devo informar que cada um de vocês aqui presente foi cuidadosamente selecionado para integrar esta equipe, porque acreditamos que exatamente vocês podem fazer a diferença e ajudar nessa missão.
Ali estava o pequeno Babalô, falando como um representante da Força Secreta. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Um pressentimento horrível atravessou minha mente: e se eu estivesse caindo numa ratoeira? Se estivessem me atraindo – o trouxa do digitalis - para ser o bode expiatório de alguma encrenca das grandes? Afinal, eu era novo ali e queriam que me comprometesse com uma missão totalmente desconhecida.
— Professor Babalô, sem dúvida a COBRAPA, é uma instituição altamente conceituada, mas, se me permite perguntar, como posso assumir um compromisso de tamanha responsabilidade se não disponho das mínimas informações sobre o que está envolvido na missão? - me vi falando diante do grupo, de forma um tanto vivaz.
Babalô alçou as sobrancelhas, como se desafiado.
— Alguém gostaria de ajudar o nobre colega? – respondeu o pequeno Mestre, parecendo irritado.
— Qual é o seu nome mesmo? – indagou-me Ogam, o braço direito de Babalô.
— Zambi – repliquei de pronto.
-
Zambi, Zambi, a natureza de nossa missão é SECRETA e por isso não pode ser
revelada. Entretanto, podemos dizer que nenhuma atividade ilegal está envolvida
– falou Ogam, em tom jocoso.
Risadinhas ecoaram na sala. Afundei um pouco na cadeira e engoli em seco. A humilhação começara, pensei.
— O questionamento do colega é pertinente, não basta sabermos que não há atividade ilegal envolvida. Poderia nos informar se experiências com seres humanos estão envolvidas? – irrompeu Iansanã, com firme delicadeza.
Um quadro de polarização se formava, ainda que sutil. Estaria a hostilidade entre Evols e digitalis começando a se configurar? Intimamente lamentei. Embora apreciasse a intervenção de Iansanã, que corajosamente me apoiava, não desejava que minhas colocações fossem entendidas como provocativas. Eu simplesmente tinha justo receio de me envolver com algo do qual não tinha informação alguma. Em todo caso, a receptividade as minhas indagações não havia sido muito boa e isso talvez fosse um indício do que viria pela frente.
— Sinto muito, senhores, se não podemos esclarecer mais sobre o assunto. É bastante compreensível que queiram se precaver de possíveis dificuldades buscando mais informações. O que posso lhes dizer com franqueza é que se trata de uma missão que exigirá o empenho dos maiores intelectos do país: vocês! Agora chegou a hora da decisão, por favor, escolham se pretendem assumir conosco esse compromisso, essa missão, ou se preferem sair.
Nesse instante, se levantaram dois colegas, um menino, aparentando oito anos, e um adulto. Para surpresa de todos, pediram licença para se retirar.
— Permitir saída em dez segundos – ordenou Babalô ao Gerenciador.
Os dois partiram sem hesitação. De repente nos entreolhamos, esperando alguém mais levantar. Triunfei com a saída dos dois colegas. Estava evidente agora que o compromisso às escuras não era uma piada, mas uma preocupação que mexia com todos nós, ou pelos menos com todos que tinham alguma maturidade e responsabilidade. Talvez eu devesse ter saído também. Afinal, valeria a pena arriscar o próprio pescoço em prol de uma causa complicada e que eu nem sabia se consideraria válida? Ficar naquele grupo significava participar de uma verdadeira loteria, talvez de uma roleta russa. Nós, os nove membros restantes, ficamos.
— Alguém mais deseja sair? – insistiu Babalô, assumindo um ar cansado.
Todos permanecemos em silêncio.
— Como está a segurança, Gerenciador? – perguntou Babalô.
— Sistema de segurança restabelecido.
— Ótimo! Bem, somos nove agora! – exclamou o pequeno Mestre – e vou começar a expor o nosso desafio! Apague a luz e Holográfico online!
O Gerenciador disponibilizou um gráfico tridimensional no meio do círculo das cadeiras flutuantes. Era um holográfico comparativo de temperaturas. As temperaturas crescentes eram exibidas paralelamente a uma coletânea de imagens em seqüência, dos vários Oásis da terra, que mostravam os efeitos adversos sobre a vegetação nos últimos meses, especialmente sobre a vegetação periférica às matas, e sobre os mananciais de água doce. O pesadelo estava acontecendo! Babalô mostrou justamente a faixa desértica branca que vinha avançando sobre os pontos extremos do Oásis Amazonas! Exatamente o que eu observara! Um arrepio percorreu minha espinha.
— Senhores, a situação é extremamente grave! – falou Babalô – dentro de poucos meses os Oásis da terra terão se transformado em areia e os grandes depósitos de água evaporarão.
— Podemos deter a evaporação! – afirmou Zimbaue, um garoto que aparentava dez anos I.c.
— Não, não podemos. Há uma complicação adicional – Babalô indicou novo holográfico.
As imagens se sucediam mostrando a fragmentação da atmosfera terrestre, fenômeno que na atualidade assumia uma velocidade assustadora. Ogam tomou a palavra e explicou que a origem do problema estava numa alteração do campo gravitacional e eletromagnético da Terra.
— É este campo que segura a atmosfera e, diga-se de passagem, o ar que respiramos! Sem este campo eletrogravitacional a atmosfera se esvai; sem a atmosfera, o sol nos atinge de forma nociva, como de fato tem nos atingido cada vez mais. Também, sem a atmosfera, a água evapora e simplesmente não volta, pois não há formação de nuvens, não há densidade para segurar e devolver a água, em forma de chuva ou orvalho. Vejam que se trata de uma sucessão de dificuldades extremas – explicou Ogam, com jeito didático.
— Não podemos equilibrar os campos eletromagnético e gravitacional? – indagou Iansanã, aflita.
— Infelizmente nem todo o nosso conhecimento acumulado nos permite lidar com forças tão poderosas – respondeu Hóris, o mais velho do grupo, beirando os quarenta anos de idade.
— Senhores, este é o nosso desafio! Precisamos achar uma solução para a continuidade de nossa existência – anunciou Babalô, com um engasgo de emoção – Precisamos manter em sigilo a situação que a Terra enfrenta para não colocarmos a população em pânico, mas isso eles acabarão sabendo, sem muita demora. Mas, o que realmente precisamos manter em sigilo diz respeito às decisões que tomarmos.
— Fale mais sobre isso... – pediu Exá, um adolescente de corpo tatuado.
— Pois bem! Talvez não encontremos uma solução para a Terra, mas podemos encontrar uma solução parcial... uma solução para alguns de nós – continuou Babalô
— O que o senhor tem em mente? – questionei
— Nada, meu jovem, nada! Apenas quis dizer que seria bastante bom se pudéssemos sanar o problema do planeta, mas talvez só consigamos, e com muito esforço, salvar alguns de nós. Entende isso?
— Não, não entendo! – retruquei rispidamente – por acaso essa equipe foi formada para que achemos um meio de salvar os mais inteligentes do planeta? Isso é ridículo!
— Senhor Zambi, acho melhor o senhor se conter, não precisamos de mais histeria aqui! – intercedeu Hóris, em tom severo.
— Ok! Temos muito o que conversar ainda! – falei em tom mais baixo, mas ainda ameaçador.
— Por hoje, peço apenas que avaliem o problema de todos os ângulos que puderem imaginar. Os dados de que dispomos, bem como a atualização diária deles, estão disponíveis nas holotecas de suas salas particulares. Não apenas nós, aqui presentes, estamos recebendo essa missão crucial em mãos, mas equipes em todos os Oásis estão trabalhando na tentativa de resolver o problema. As mentes mais brilhantes do planeta estão sendo recrutadas. Temos esperança de que alguém possa fazer um milagre. Se o que estamos fazendo aqui vier a público, não teremos condições mais de pensar, pois o desespero e a pressão serão enormes. As pessoas reivindicarão violentamente uma salvação que talvez não sejamos capazes de dar. A COBRAPA poderá ser invadida, atacada e destruída. É com esse tipo de desespero que estaremos lidando – explanou o pequeno Mestre.
— O povo, as pessoas, não tem o direito de saber o que lhes acontecerá e o que estamos fazendo aqui? – questionei mais uma vez a Babalô, mas cuidando para que minha emoção estivesse mais controlada.
Fez-se um silêncio breve na sala.
— Sim, teoricamente tem, mas você poderá consolá-las?
Era uma questão ética que me angustiava, pois envolvia meus irmãos digitalis. Eram os digitalis os grandemente afetados pela ignorância dos fatos. Mas, concluí que, pelo menos no momento atual, seria uma grande irresponsabilidade minha fazer qualquer divulgação de que a Terra estava acabando e que projetos de salvamento para a elite estavam em andamento. Claro, ninguém havia mencionado a expressão “salvamento para as elites”, mas me parecia evidente que os Evols – que constituíam a elite rica e poderosa - se concederiam privilégios no momento de escolher os que se salvariam.
Fiquei
mudo diante de Babalô, mas não convencido por sua cômoda lógica. Contudo, a
pergunta que ele fizera ainda ecoava em meus pensamentos: "Você poderá
consolá-las, Zambi? Poderá?"
Capítulo Cinco
VISÃO COMPLEXA
"Nenhum
homem é uma ilha;
Qualquer homem é uma parte do todo."
John Donne
Lançada a missão da equipe de Estudos da COBRAPA! – Anunciei para mim mesmo, com amarga ironia. Apesar dos sentimentos que me perturbavam, mergulhei com afinco no estudo dos dados que dispúnhamos. Não demorei a me dar conta de que o pequeno laboratório de minha sala não continha os recursos suficientes para a elaboração das experiências e das simulações necessárias e, todos de nossa equipe, chegando a um dado limiar de dificuldade, íamos trabalhar nos laboratórios maiores, com recursos ampliados. Contudo, ainda assim, freqüentemente precisávamos pedir auxilio à equipe de apoio para conseguirmos montar os protótipos que tínhamos em mente.
A regra para a equipe de cientistas era simples e clara: podíamos abordar o problema como nos aprouvesse, mas o andamento e os resultados de todas as pesquisas deveriam ser partilhados com a equipe. O objetivo era um só, ajudar uns aos outros no que fosse possível. Existia liberdade para rejeitar as opiniões e sugestões de terceiros, mas deveria haver disposição total para o diálogo e a troca de conhecimento. O tempo era deveras curto e o problema complexo demais para pensarmos sozinhos.
Babalô, Ogam e Zimbaue rumavam para a construção de uma atmosfera artificial contida por uma espécie de imensa cúpula orgânica, mas enfrentavam inúmeras dificuldades, como a multiplicação do efeito estufa e as dificuldades com relação ao teor de oxigênio e gás carbônico. Eu, Hóris e Iansanã estávamos tentando restabelecer o campo eletromagnético da Terra, assim como seu campo gravitacional. Buscávamos a gênese do desequilíbrio e a partir daí o que poderia restabelecê-lo. Moabe, Holodum e Exá pesquisavam formas de enxergar o problema, pois mudando os enfoques e a abordagem, poderiam chegar a uma solução inusitada. Haviam concluído que poderíamos lidar com a falta da atmosfera se essa tivesse por conseqüência única, a falta do ar que respiramos. Tínhamos condições de produzir uma atmosfera respirável, mediante o emprego das cúpulas orgânicas, e fornecê-la as nossas cidades subterrâneas. Contudo, o agravante da situação era que a perda da atmosfera terrestre não implicava apenas na perda do ar que respiramos, mas em termos o ciclo da água quebrado, em termos os raios de sol nos atingindo de forma ainda mais maléfica, em perdermos os últimos refúgios de vida natural, os Oásis. Essas e outras conseqüências vinham atreladas ao fato de que estávamos perdendo a atmosfera terrestre. Isso sem mencionarmos problemas supostamente menores, como o bombardeio de meteoros, que cairiam direto no solo sem qualquer impedimento.
Mil soluções surgiram e mil soluções se mostraram inadequadas. Podíamos congelar uma pequena parte da água do planeta e mantê-la em reservatórios subterrâneos, evitando que evaporasse e se perdesse no vazio do céu. Isso retardaria a perda da água que pudéssemos acumular, mas no momento que consumíssemos a água e ela começasse a ser eliminada de nossos corpos, das casas, das fábricas e das indústrias, como a recuperaríamos? Nossa atmosfera artificial e nossa cúpula orgânica de contenção estavam longe de conseguir restabelecer o mais singelo ciclo natural da água (evaporação=> condensação=>liquefação), e seus caminhos sobre a terra, sem gerar problemas tão ou mais graves. Além disso, mesmo que o ciclo da água fosse restabelecido de modo artificial, era impossível sustentar toda a humanidade por esse meio limitado. A água não seria suficiente para todos, ainda que a usássemos apenas para as necessidades vitais.
Em nossas reuniões de equipe, o desânimo prosperava. Recuperar o planeta começava a parecer impossível.
Cansado de tanto estresse e pressão, pois desde que entrara para a COBRAPA vivia totalmente dedicado ao trabalho, fui almoçar novamente na torre da superfície. O trabalho me alienara tanto da vida cotidiana que fiquei surpreso ao constatar que as pessoas já estavam alarmadas com os acontecimentos. Já não era nenhum segredo que o planeta ia mal das pernas. Todos os jornais anunciavam manchetes com temas ambientais, alguns com frases esperançosas e outros simplesmente fornecendo dados crus e informações “não tendenciosas”. Embarquei na via GaG para o topo da plataforma com vista para a floresta do Oásis e fiquei boquiaberto. O acesso à torre estava sendo controlado pela polícia e só consegui passagem quando me identificaram como cientista da COBRAPA. Enfim, no topo da plataforma, a visão foi terrível. O que fora uma simples linha branca no horizonte, que mal se divisava, agora se transformara numa faixa larga que dominava a metade da paisagem. A mata estava agonizando. As aves, outrora viçosas, que pairavam sobre seus ninhos, alimentando seus filhotes, haviam desaparecido, restavam apenas os ninhos abandonados. Para onde terão ido? – perguntei-me. A resposta estava do outro lado da plataforma. Milhares, talvez um milhão de animais, de todas as espécies, estavam encurralados nos poucos quilômetros de mata doente que ainda restava de pé. Podia-se ver muitos agonizantes sobre as copas queimadas de sol e tantos outros em movimentos de pura angústia. Cena horrível.
Foi nessa altura dos acontecimentos que desenvolvi uma idéia relativamente simples, mas que poderia salvar muitas vidas, e a levei para discussão na reunião.
— E se ao invés de mudarmos o planeta, mudarmos nossas necessidades? – falei.
— Como assim, explique isso melhor – disse Babalô, franzindo o cenho e mostrando-se imediatamente interessado.
— Ok! Peço a atenção de todos por um momento. Ótimo! Nós temos um corpo que necessita de água, nutrição e ar para se manter vivo, certo? Mas o que faz realmente você ser quem é, onde habita a nossa essência?
— Zambi, não enrole, aonde você quer chegar? – interrompeu-me Hóris.
— Que tal se você deixá-lo explicar, Hóris? – disse Babalô. Continuei meu raciocínio e ao final da explanação, ninguém disse nada.
A idéia consistia numa forma de preservar muitas vidas numa situação de extrema carência. Construiríamos inicialmente um tanque experimental, de material sintético-não-rejeitável pelo corpo humano, e ali colocaríamos a quantidade adequada de líquido encefálico artificial e cérebros vivos, alimentados por um bombeamento eficiente de sangue previamente oxigenado e nutrido. As mentes se manteriam conscientes e ativas. O tanque e as condições para manter os cérebros vivos eram bastante simples de fabricar, nada que não pudéssemos criar. O problema maior consistia na falta total de estímulos para os cérebros, já que os órgãos dos sentidos seriam eliminados. E outro problema, também importante, residia na falta de um meio de comunicação. Resumindo: como nos sentiríamos se fôssemos apenas mente, nossa própria mente, sem experimentar mais qualquer sensação física, inclusive a visão. Nenhum toque, nenhum cheiro, nenhuma imagem, silêncio total. Talvez a ausência dos sentidos fosse suportável, mas a total falta de comunicação precisava ser resolvida.
— Isso é apavorante! – desabafou Babalô – Mas a idéia é muito boa! Como você pensa em nos tirar dessa enrascada, rapaz? Digo, nos tirar dos tanques?
Havia três possibilidades. Uma seria colocar os cérebros em estado de atividade mínima por meio de resfriamento. As mentes ficariam inconscientes, mas em perfeitas condições de vida, se é que assim podíamos falar. Um segundo destino para os cérebros seria mantê-los ativos e com as mentes conscientes, mas enviá-los para uma viagem de busca pelo universo. Os robôs seriam seus membros e olhos, mas uma pequena equipe de humanos “inteiros” poderia servir de guia e guardião da operação. Em alguns trechos da viagem, os cérebros poderiam ser colocados em coma induzido por resfriamento e no momento propício os cérebros poderiam ser despertados. Um terceiro destino para os cérebros seria mantê-los na terra, trabalhando em prol de uma possível salvação do planeta e esperando a hora em que corpos-clone poderiam ser fabricados e seus cérebros novamente implantados numa caixa craniana normal, humana.
Por mais absurda e assustadora que a idéia fosse, ela foi aprovada. Foi assim que vim a ser altamente respeitado pelos Evols. Um digitalis tivera uma idéia revolucionária! Claro, não era a solução mágica que todos gostaríamos, mas era uma solução viável e que preservaria muitas vidas. A mídia anunciava o fim do mundo, e a morte espalhava seus tentáculos assassinos por toda a flora e a fauna, transformando a terra num manto de areia. Nessas condições, mesmo o mais conservador dos homens, se via tentado a aceitar uma solução radical. O que era melhor, morrer ou manter uma esperança de vida?
Começamos a fazer os primeiros testes. Agora não apenas eu trabalhava na idéia, mas recebi a ajuda de vários outros colegas, todos ajudando a viabilizar o projeto da melhor forma possível. Começamos com os porcos rosa. Fizemos um tanque com fluido encefálico e colocamos os primeiros cérebros de porcos. Ao final de vinte e quatro horas, re-implantamos os cérebros em corpos-clone e a adaptação foi perfeita! O mais fantástico foi que o nível de estresse dos animais foi mínimo, talvez, justamente pela falta de estímulos. Supunha que os animais sobreviviam psiquicamente num mundo alucinatório, de imagens lembradas ou inventadas por seus próprios cérebros. Era isso que parecia estar acontecendo, muito embora o período de vinte e quatro horas não pudesse ser ainda um período de medida padrão, já que o projeto envolvia que as mentes ficassem muito mais tempo isoladas de estímulos físicos. Havia muito ainda o que pesquisar.
Nossos experimentos com os porcos evoluíram para uma segunda versão. Os cérebros agora iam para o tanque com os olhos conectados a eles. Mas tal tentativa de manter o sentido da visão, não fui bem sucedida porque complicava o procedimento. Os olhos não podiam ficar submersos no fluido encefálico, exigindo que os cérebros não pudessem ocupar livremente todo o tanque. Adicionalmente, era preciso fornecer riqueza de estímulos visuais para os olhos captarem e transmitirem ao cérebro, que podíamos fornecer a alguns, mas não a todos. Não havia muito o que ver imerso num tanque! Concluímos que o estímulo da visão seria concedido a alguns lotes de cérebros ativos, especialmente preparados.
Por fim, os experimentos com animais cessaram.
Embora nos referíssemos, grotescamente, ao conjunto de cérebros humanos como lotes de cérebros em conserva, no fundo tínhamos plena ciência de que tais cérebros, assim dissociados de seus corpos e formas humanas, eram pessoas! Sim, cada qual encerrado em seu mundinho. Literalmente!
Alguns experimentos foram feitos com seres humanos. Os voluntários sabiam que havia risco e eram preparados da melhor maneira possível para enfrentarem a vivência de separação do corpo como um tipo de existência nova, de renascimento num mundo sem corpo. A maioria iria ficar em estado de coma induzido por resfriamento. Foi então que demos um novo passo extraordinário!
Surgiu a Rede, humildemente graças a mim! Unimos os primeiros cérebros de um tanque! Através de manipulação genética, criamos pontes de ligação entre os cérebros; pontes de neurônios e suas sinapses; tecido cerebral produzido. Assim como um lado do cérebro se comunica com o outro lado, assim as mentes começaram a se comunicar entre si. Se a ponte de comunicação era colocada na zona frontal dos cérebros, tínhamos uma comunicação emotiva entre as mentes. Se a ponte era colocada no lóbulo esquerdo, predominava uma comunicação de âmbito racional. Enfim, julgamos que a melhor região para haver a ponte de comunicação nos cérebros, era a região de junção do lóbulo direito ao esquerdo. Dessa forma, as pontes permitiam um fluxo integrativo completo entre as mentes, propiciando acesso pleno às potencialidades desenvolvidas em cada cérebro.
A
Rede de Mentes ou a Super Mente (SM) era mais do que a soma das mentes
individuais; era uma entidade nova, uma mente diferente de tudo que já havíamos
visto. Encontramos uma forma de nos comunicarmos com a Super Mente por meio de
chips eletrônicos na região da fala de cada cérebro individual, mas logo
descobrimos que as funções cerebrais haviam sido redistribuídas pela Rede.
Aparentemente cinco cérebros do tanque haviam assumido a função de guardar
memórias reprimidas, o inconsciente coletivo das mentes unificadas; dois cérebros
haviam assumido as funções do ego e a consciência. A função da fala estava
numa região reservada num lóbulo inteiro de um outro cérebro, e somente então
conseguimos nos comunicar de fato com a Super Mente. Na verdade a SM demorou um
bom tempo para nascer, foi preciso uma reorganização mental fabulosa.
Aparentemente, a fusão das personalidades é fruto de uma disputa de egos, mas
nenhum ego sai inteiramente dominante sobre os demais, já que na verdade todos
são transformados, nenhum sobrevive tal e qual era, a experiência é inovadora
em todos os sentidos. O pensamento flui múltiplo na Rede de Mentes, interminável,
complexo.
Desde
então, fascinado por minha descoberta, estou aqui. Muitas vidas foram salvas, não
todas, mas muitas foram salvas. Ainda não descobrimos a solução para as
alterações nos campos energéticos da Terra, mas melhorias contínuas têm
sido implantadas, em parte graças a nós, da SM. Não sei até ponto ainda sou
o jovem Zambi de outrora. Não sei até que ponto o que conto é verdade, não
temos muitos parâmetros de realidade por aqui, embora os outros, os indivíduos,
como Babalô, nos forneçam dados sobre o mundo lá fora. Não sei até que
ponto estou contando apenas minhas lembranças, talvez distorcidas pelas lembranças
de meus outros Eus. O que sei é que trabalhamos pela causa da vida. Às vezes,
depois de acordar, depois de acordar com um pesadelo, alucinando gritos agudos,
me pergunto, aflito, se haverá algum Evol entre meus colegas de tanque.
Marta Rolim