C.Metal
Capítulo Um
PRELÚDIO PANORÂMICO
Século XXI
Ano 2000-2060
Asimov estava certo: a integração corpo-máquina deu-se mais rapidamente do que supúnhamos. Afinal, as pessoas preferiam um órgão eletrônico suprindo suas deficiências orgânicas a um implante de tecido provindo de suínos e símios, ou de qualquer outro animal, não raramente tido como impuro e inferior. As máquinas, ao contrário, quase sempre exibiram uma irrepreensível imagem de velocidade e eficiência, de limpeza, de progresso. Um homem acoplado a uma máquina não somente era um homem curado de suas enfermidades e deficiências, como era um homem mais perfeito e capaz. E quem podia duvidar disso? As próteses velozmente superaram em muito os órgãos naturais e passaram a ser chamadas simplesmente OE - Órgãos Eletrônicos.
Foi então que os amputados começaram a obter vantagens no mercado de trabalho. Um homem sem os dois membros inferiores, que em outras épocas fora considerado incapaz para muitas atividades, agora era mais hábil e forte do que qualquer outro homem normal. Embora as atividades no mercado de trabalho raramente exigissem força física, os homens com OE passaram a ser preferidos, em detrimento dos homens normais. E por normal se entenda aquilo que é comum ou corriqueiro numa dada população, num dado período de tempo, sendo que àquela época, ainda era normal ter um corpo inteiramente orgânico.
Assim como as pessoas no passado, em geral, preferiam uma Ferrari ou uma Mercedez a um carro popular, assim os empresários passaram a preferir os portadores de OE, devido a exuberância e eficiência de suas partes artificiais. Dessa forma, um diretor ou um executivo, que tivesse um membro ou órgãos eletrônicos, aumentava dramaticamente seu prestígio entre os demais colegas. Era uma questão de status social, uma questão de poder. Qualquer que fosse o órgão acoplado, ele possibilitava ao portador excepcional habilidade física. Em se tratando dos membros superiores, um sujeito podia facilmente erguer o peso do próprio corpo centenas de vezes, sem nenhum sinal de cansaço; em se tratando dos membros inferiores, um sujeito poderia subir inúmeros lances de escada, a mesma velocidade de um moderno elevador, sem nenhuma evidência de desgaste físico. Em se tratando de órgão interno, como o pulmão, o sujeito adquiria incrível capacidade, no caso a respiratória; podendo ficar até duas horas em baixo d’água, em plena atividade laboral ou esportiva, sem necessidade de novo suprimento de ar. Esse poder fantástico, mesmo que não utilizado propriamente em profissões que demandavam força e resistência, era invejado pelos homens normais, que reconheciam na capacidade extraordinária dos portadores de OE sua própria condição de repentina inferioridade e perda de prestígio. Da noite para o dia, os que eram tidos como deficientes se tornaram poderosos e os que eram tidos como normais, se tornaram fracos e desqualificados.
Os ricos da sociedade começaram a solicitar aos médicos o acoplamento de OE, mesmo não sofrendo de deficiência alguma. Houve um alvoroço na classe médica devido aos aspectos éticos envolvidos, porém, alguns cirurgiões, antevendo um mercado novo e promissor, não hesitaram e braços e pernas sãos principiaram a ser amputados para que os órgãos eletrônicos tomassem os seus lugares. Foi assim que o considerado normal teve seu padrão alterado e em poucos anos o normal, o comum, passou a ser o indivíduo portador de pelo menos um Órgão Eletrônico.
Para as mulheres, as próteses eletrônicas não eram bem-vindas, pois as próteses primavam pela eficiência e pela força, mas praticamente desconsideram aspectos estéticos, e tampouco valorizavam a sensibilidade tátil e corpórea. Mas a indústria não tardou a dar-se conta do nicho a ser explorado e buscou desenvolver OE que salientassem a beleza feminina e a sensibilidade corporal. Logo as mulheres também se viram seduzidas por próteses eletrônicas siliconadas, encantadoras e impecáveis, que não só valorizavam o físico da portadora, como aumentavam suas sensações corpóreas prazerosas por meio de um fluxo elétro-químico que simulava a ação de certos neurotransmissores cerebrais, gerando prazer ao menor estímulo cutâneo. As mulheres que resistiram um pouco mais ao implante das próteses se viram sem ter como competir com os seios perfeitos, as pernas sedosas - sem qualquer sinal de celulite, estrias, manchas, varizes - que as portadoras orgulhosamente exibiam, tal a qualidade alcançada. Assim, o público feminino também se viu irresistivelmente atraído pelas incríveis possibilidades que os OE ofereciam.
Em menos de uma década, os OE foram disseminados pelos cinco continentes, tornando-se tão populares quanto os veículos automotores do século XX.
Foi o princípio do SEI - Salto Evolutivo Induzido. As próteses foram ganhando cada vez mais acessórios importantes e subfunções. Agendas e calculadoras foram os primeiros acessórios a agradar aos clientes, que já não eram chamados de portadores de OE pelos lojistas e comerciantes, mas simplesmente de clientes especiais. Depois vieram o telefone, o microcomputador, os games, o rádio, a televisão, todos acoplados e inseridos nos OE. Esses acessórios, acrescentados ergonomicamente às próteses, aumentavam ainda mais o diferencial entre os sujeitos portadores de OE e os não portadores. Os acoplados às próteses foram ganhando capacidades cada vez mais sofisticadas.
Um vendedor, consultando um mini monitor presente em seu braço eletrônico, podia facilmente conectar-se à Internet e consultar na bolsa de valores a cotação de mercadorias; o valor atual das ações de sua firma; os preços praticados pela concorrência e suas promoções; o estoque disponível em sua loja; a variação cambial; financiamentos; taxas de juros; táticas de vendas, etc. Tudo de forma extremamente rápida e a qualquer momento, literalmente ao alcance dos dedos e diante do cliente. Tal agilidade era aplicável a qualquer ramo profissional desejado. Em se tratando de um médico, ao invés de um vendedor, simplesmente a comunicação se dava direcionada para hospitais, bancos de sangue, tele-exames, teleconferências, transmissão de procedimentos cirúrgicos ao vivo, etc. Um profissional não acoplado a um OE, dificilmente desenvolvia a mesma agilidade de ação, decisão e negociação, especialmente se o atendimento era presencial, diante do cliente. Tal revolução no modo de comunicação e consulta a informações úteis, incorporados ao físico do portador de OE, era admirável. Entretanto, a verdadeira revolução ainda estava por vir.
Nesse ínterim, as três leis da robótica de Isaac Asimov foram adaptadas para a nova realidade de humanos acoplados à maquinas, ficando assim constituídas:
1) Um portador de órgão eletrônico (OE) não pode ferir um ser humano usando suas capacidades especiais ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2) Um portador de órgão eletrônico (OE) deve obedecer as leis humanas vigentes em seu país, exceto nos casos em que tais leis contrariem a Primeira Lei.
3) Um portador de órgão eletrônico deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
As três Leis foram gravadas nos OE, que monitoravam as ações do portador e denunciavam automaticamente qualquer infração grave. O infrator de tais leis de segurança era punido não somente com a perda da liberdade, mas com a perda de seus órgãos eletrônicos. Ou, se a retirada de dado órgão fosse resultar em morte, o portador infrator era punido com a substituição do OE plenamente eficiente por um OE que limitava a capacidade de ação, tornando o portador novamente um indivíduo quase meramente biológico, de capacidade reduzida.
A Lei Zero de Asimov também foi utilizada qual resumo adaptado das outras três leis, ficando assim enunciada:
0) Um portador de órgão eletrônico não pode causar mal a humanidade utilizando-se de suas capacidades especiais ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal, nem permitir que ela própria o faça.
A Lei Zero acentuava um caráter protetor que os portadores de OE deveriam cultivar. Havia poucos infratores das Leis, pois a vigilância e a punição eram severas. O mundo estava em pleno desenvolvimento e prosperidade. Com o avanço tecnológico muitos sofrimentos e males da humanidade estavam desaparecendo e, mais do que isso, muitas limitações estavam sendo ultrapassadas com gloriosa vitória. O progresso não tinha fim. É bem verdade que nos países subdesenvolvidos apenas uma elite econômica chegava a desfrutar dos maravilhosos OE, mas, ainda assim, estes constituíam alguns milhões de pessoas. Outros tantos milhões apenas sonhavam acoplar um órgão eletrônico, mas não dispunham de recursos para tal, assim como no passado multidões sonhavam em adquirir um automóvel, mas somente uma certa camada mais privilegiada da população conseguia realmente obter um. A situação se tornava mais dramática quando um sujeito pobre adoecia e necessitava urgentemente de um específico acoplamento. Nem sempre conseguia a tempo o OE que lhe resgataria a vida e a plena saúde. O governo somente garantia acoplamentos para os deficientes naturais, ou de nascença, e mesmo assim havia uma lista de espera para receber os OE. Também, sempre haviam os sujeitos que tentavam fraudar o esquema governamental, providenciando uma automutilação e depois se inscrevendo no programa de fornecimento de órgãos eletrônicos como se fosse um portador de deficiência natural. Às vezes conseguiam a tão desejada prótese, mas às vezes eram flagrados pelos inspetores especialistas, que diagnosticavam a terrível fraude e o infeliz entrava numa fila de infratores que aguardavam atendimento, mas tal fila não andava nunca porque a prioridade era para os deficientes naturais e não para os automutiladores. Ficavam esperando eternamente pelo almejado OE e morriam sem recebê-lo.
Esse
era o lado triste do avanço tecnológico, mas a paz e a prosperidade global
superavam em muito as tragédias individuais. Mesmo nos países subdesenvolvidos
não havia deficiente natural que deixasse de receber sua prótese, com todas as
magníficas vantagens que ela propiciava, salvo nos casos de emergência, quando
a demanda podia não ser prontamente atendida. Os eventuais deficientes por
causas acidentais eram assistidos por seguros de vida obrigatórios, que após
investigação das circunstâncias do acidente, cobria todos os custos para
acoplamento de OE. O mundo era promissor, quase perfeito, mas o futuro mostraria
logo a sua terrível face oculta.
Capítulo Dois
Século XXI
Ano 2060-2100
As experiências começaram com indivíduos que sofriam de esquizofrenia. Numa tentativa de interromper o progresso da doença, alguns jovens receberam implantes de chips no cérebro. Inicialmente os resultados foram tímidos, mas pouco a pouco as descobertas foram assomando. Na década de setenta já era anunciada, com grandiosa divulgação, a cura da esquizofrenia. Assim que os primeiros sintomas da doença manifestavam-se, o jovem era submetido a um procedimento cirúrgico que acoplava à área cerebral uma UEC - Unidade Eletrônica Cerebral. Observava-se que o jovem, após ser operado, voltava a nutrir interesse pela vida e recuperava o pensamento lúcido. A genética colaborava ativamente em tal processo, compondo um campo científico novo que denominou-se de medicina genetrônica. Assim, aliaram o conhecimento profundo do funcionamento celular e de seu intrincado código genético com as possibilidades de intervenção da eletrônica. Geralmente, as UEC implantadas estimulavam as delicadas funções que o cérebro já não cumpria e provocavam incremento nas conexões entre os neurônios (desenvolvimento de novas sinápses), além de produzir, em alguns casos, a multiplicação inédita dos neurônios por um processo de divisão celular a laser (ínfimos raios laser dividiam os núcleos de milhares de neurônios marcados quimicamente, de modo que eles se multiplicavam em poucos meses).
Como no caso dos OE - Órgãos Eletrônicos - as Unidades Eletrônicas Cerebrais serviram, primeiramente, aos interesses de pessoas com alguma necessidade especial, que sofriam de alguma patologia, mas não tardou para que os implantes cerebrais se popularizassem e começassem a ser aplicados em indivíduos normais. O acoplamento básico de uma UEC prometia aumento das memórias (auditiva, visual, curta e longa...) e das inteligências múltiplas, o que, por si só, justificava o grande interesse da população, já plenamente habituada ao uso dos OE. Contudo, a fatia da população mundial que realmente chegou a receber os implantes de UEC era constituída, predominantemente, de jovens, entre vinte e trinta anos de idade. Atraídos pelo indescritível aumento de suas capacidades cognitivas e familiarizados com os sucessos e avanços da genetrônica, aceitaram prontamente submeter-se ao processo cirúrgico de acoplamento das UEC. Foi então que o SEI - Salto Evolutivo Induzido — deu seu passo derradeiro. A mente humana ganhava novos limites de capacidade e utilização, uma nova geração de humanos nascia. No final do século XXI, por meio das Unidades Eletrônicas Cerebrais, os jovens tinham acesso mental direto a rede mundial de computadores ou a New Internet, assim como a emissoras de rádio e televisão. Também, softwares específicos, de interesse do portador, podiam ser inseridos no acoplamento mental, de modo que, pela primeira vez na história, a mente humana interagia diretamente com a máquina. Essa façanha só foi possível porque descobriu-se como o cérebro humano decodificava as imagens transmitidas pelos olhos. O olho capta as imagens semelhantemente a uma máquina fotográfica, mas essa imagem é transmitida ao cérebro via impulsos pelo nervo ótico e só então é vista ou traduzida pelo cérebro. Em outras palavras, o fenômeno da visão se dá no cérebro e não no olho, e foram os segredos que dizem respeito ao fenômeno da visão, que desvelados, mostraram aos cientistas como propiciar que as transmissões das imagens da New Internet (incluindo a televisão) fossem enviadas diretamente ao cérebro e ali traduzidas. O mesmo raciocínio aplicava-se aos impulsos sonoros, transmitidos pelo nervo auditivo. O acoplamento das UEC permitia tal conversão e integração, entre máquina e humanos, com pleno êxito. É preciso esclarecer que tal capacidade de conexão que a mente humana adquiria não impedia a visão normal da realidade, pois a visão eletrônica se dava num campo visual interno, tal como um indivíduo que, sentado em uma sala, assiste a um programa de TV, mas nem por isso perde a capacidade de, a qualquer hora, fixar seu olhar e atenção no ambiente ao seu redor.
Foi então que em abril de 2100, milhões de jovens portadores de UEC, no mundo inteiro, começaram a apresentar distúrbios de comportamento, desrespeitando violentamente as Leis Adaptadas de Isaac Asimov. Uma verdadeira horda de jovens acoplados passaram a usar suas capacidades avançadas para escravizar e roubar os não portadores. Não respeitavam nada e ninguém. Essa geração foi chamada de Coração de Metal porque pareciam não ter sentimentos e tampouco qualquer senso de compaixão e justiça; tudo que lhes interessava era seu próprio bem estar e para alcançar seus objetivos eram capazes de qualquer coisa. Alguém precisava detê-los...
Capítulo Três
CENTRO FEDERAL DE PESQUISA-OE
Brasil — abril de 2100
O laboratório de genetrônica estava calmo naquela manhã. Apenas um paciente viera fazer uma revisão em seu acoplamento de UEC. Um jovem que se beneficiara grandemente com o implante. Sua inteligência era excepcional antes do implante e depois do implante atingira o nível da genialidade. Como já esperávamos esse significativo aumento de sua capacidade cognitiva, Vando, o jovem brilhante, estava sendo plenamente assessorado e recebia apoio intensivo em sua transmutação mental. Ter a capacidade cognitiva aumentada da noite para o dia eqüivalia a adquirir visão depois de sofrer de cegueira. No mínimo, se tratava de um fenômeno estressante porque o mundo estabelecido do sujeito virava de pernas para o ar e nada mais era do mesmo jeito. Quebrava-se não apenas um, mas vários paradigmas a um só tempo.
Vando me falava de como se sentia abismado com sua capacidade de concentração quando meu braço começou a piscar.
— Um minuto, Vando, vou ter que me afastar, mas volto já.
— Ok, doutora. É alguma emergência?
— Justamente, Vando, esse é um chamado de emergência.
Retirei-me da sala e falei "mensagem" para o receptor automático em meu braço-OE. Marcos surgiu, na imagem holográfica diante de mim. Parecia muito nervoso:
— Raquel, precisamos de você urgentemente na sala de reuniões, prioridade zero!
— Estou indo! — foi tudo o que respondi.
Chamados com prioridade zero eram raríssimos, tratava-se de um código, aparentemente paradoxo, para dizer que algo muito grave estava acontecendo. Eqüivalia a dizer que estávamos próximos de não ter mais prioridade alguma devido a extrema gravidade da situação. Vida e morte estavam em jogo.
Avisei rápida e superficialmente ao jovem Vando do imprevisto, sem lhe fornecer mais detalhes, e disparei a correr pelo corredor, enquanto ordenava ao gerenciador de controle remoto, presente em meu OE, para que trouxesse o carro ao hangar 6. Graças ao dispositivo de conversação, quaisquer suportes eletrônicos cumpriam ordens faladas. Em questão de segundos o aeromóvel estacionava no hangar. O carro mal abriu a porta e atirei-me pela abertura, caindo no chão acarpetado da pequena nave. "Sala de reuniões da genetrônica!" — gritei, cansada pelo esforço. O carro deslizou pelo ar na velocidade máxima.
Cheguei junto com Marcos. Encontrei-o desembarcando no pequeno hangar privativo de nossa sala de reuniões. Ele também estava chegando para a reunião prioridade zero. Como nosso chefe de equipe, Marcos já devia estar a par de todos os fatos. Entramos na sala e deparamos com o costumeiro círculo de colegas, sentados em suas cadeiras acolchoadas, de frente uns para os outros. Éramos seis.
— Segurança máxima; ata criptografada; isolamento acústico; filmagem dos participantes ocultando leitura labial — ordenava Marcos ao programa gerenciador da sala, que automaticamente ia ativando os dispositivos de segurança e disponibilizando os serviços de secretária virtual.
Nos entreolhávamos tensos à medida em que o gerenciador ia anunciando suas tarefas cumpridas.
— Varredura feita, não encontrados intrusos. Portas seladas; campo de força on-line; isolamento acústico acionado; filmagem sem foco labial sendo iniciada; secretária ativada: ata criptografada. Status da configuração: OK!
— Bem, senhores — irrompeu Marcos, assim que o gerenciador terminou de falar — vamos ao que interessa, não temos tempo a perder. Em primeiro lugar, alguém de vocês recebeu acoplamento de UEC, qualquer acoplamento de UEC?
Todos olhamos para Carla, ela fizera um acoplamento básico para aumento de memória e das sinapses neurais.
— Que tipo de pergunta é essa? Todos aqui sabem que fiz um acoplamento, um pequeno. Qual o problema? — falou Carla, visivelmente irritada.
— Carla, preciso apenas desta informação. Alguém mais implantou UEC? — a voz de Marcos cortou o ar, ele precisava manter o controle sobre a equipe e sabia que não seria fácil.
— Ótimo! — disse Carla — confirmo que sou portadora de UEC!
— Mais alguém nesta sala recebeu acoplamento cerebral, por menor que seja? Vou chamá-los por nome e me respondam por favor: Rachel? — não — Carla? — sim — Roger? — não — Hélio? — não — Nei? — não — Marcos? — não.
Ficamos em silêncio após respondermos. Eu sabia que Marcos indagava de forma metódica a fim de todos os procedimentos ficassem claramente gravados pelo gerenciador e servissem de prova testemunhal em caso de necessidade.
— Bem, creio que dentro de nossa equipe, somente Carla é portadora. Colegas, tenho uma missão especialmente difícil hoje, e peço que tentem colaborar o máximo possível. Não peço apenas por mim, mas peço pelo país e... pela humanidade... Carla, infelizmente a notícia vai envolver especialmente a você, mas quero que você seja forte e participe conosco deste projeto.
Capítulo
Quatro
Alguém vigiava. Na filmagem holográfica que o gerenciador da sala de reuniões fazia, aparecia um grupo de seis pessoas sentadas em círculo, em suas poltronas acolchoadas: era a equipe de genetrônica do Centro Federal de Pesquisa OE. Um homem falava ao grupo. Os lábios das pessoas na sala apareciam distorcidos por sinal eletrônico, de modo que não se podia tentar ver o que diziam. Um rapaz olhava atentamente para a filmagem. Ele conseguira invadir, utilizando um minimicro, o sistema de filmagens do CFP-OE. E agora estava no aposento de comando das filmagens, diante do gerenciador-mor.
— Descriptografar imagem! — ordenou o jovem Vando.
— Ordem não autorizada. — a voz suave e feminina do gerenciador-mor ecoou no aposento.
Vando sorriu. Sacou uma carteira de cigarros de sua bolsa (que o acompanhava pairando no ar e seguindo-o por toda parte, carregando seus objetos pessoais) e acendeu o fumo mentolado. Tragou profundamente. Dirigiu-se até o gerenciador-mor e soprou fumaça em seus circuitos.
— Descriptografar imagem! — ordenou enfaticamente.
— Ordem não autorizada. — a mesma voz suave do gerenciador se fez ouvir, em tom inalterado.
— Você não está protegendo os humanos como deveria — disse Vando — seus circuitos estão queimando, você não está cumprindo as ordens corretamente. Execute a ordem imediatamente, prioridade zero!
— Não confere, meus circuitos estão intactos.
— Seus circuitos estão queimando, verifique os sensores de fumaça — Vando ordenava, enquanto tragava calmamente do cigarro e continuava a exalar a fumaça nos circuitos do computador.
— Fumaça detectada. Origem indefinida... — o gerenciador estava confuso com as informações desencontradas. Seu checklist dizia que estava em perfeito funcionamento, mas os sensores acusavam presença de fumaça em sua unidade central.
— Você está queimando. Gerenciador, libere a imagem, prioridade zero.
Alguns segundos, que pareciam intermináveis para Vando, se passaram com o gerenciador silente.
— Imagem descriptografada. Efetuando autodesligamento de segurança em cinco segundos. Cinco, quatro, três...
— Interrompa a contagem, o fogo acabou, fumaça dissipando.
— Contagem para autodesligamento cancelada.
Vando deu pulos de alegria! A imagem no monitor estava nítida. Agora podia ver a reunião da equipe de genetrônica.
— Executar leitura labial! - o jovem estava triunfante.
Imediatamente fez-se ouvir a voz de Marcos nas caixas de som. O gerente-mor supria voz à imagem e traduzia simultaneamente o que era dito na sala de reunião:
— Senhores, estamos vivendo uma epidemia. Ela está se alastrando rapidamente e em breve deve chegar ao Brasil. Ao que sabemos, jovens do mundo inteiro estão apresentando conduta violenta de forma totalmente anormal. Estão atacando, destruindo, roubando, ferindo e matando por toda a parte. Todos esse jovens são portadores de UEC, o que nos responsabiliza diretamente. Senhores, alguma coisa deu errado nos acoplamentos de UEC! As leis de Asimov foram quebradas e nada os está controlando.
— Marcos, você está dizendo que os implantes estão produzindo conduta violenta? — perguntei, incrédula.
— Sim, embora não tenhamos dados suficientes para uma afirmativa segura. Considerando os indícios, os implantados com UEC estão sofrendo algum tipo de síndrome...
— Eu me sinto tão bem... — Carla falou triste e baixinho, lamentando-se para si mesma.
— Bem, Carla, talvez nada aconteça a você, não sabemos, estamos diante de um fenômeno novo. O que sabemos, concretamente, é que muitos acoplados estão agindo como sociopatas — disse Marcos, cheio de uma doçura que eu desconhecia em sua voz — e que provavelmente algumas unidades eletrônicas cerebrais estão provocando o problema. Quero você conosco nessa missão e quero que nos ajude a encontrar a solução.
— Eu farei o melhor que puder, senhor! — as palavras hábeis de nosso chefe de equipe haviam sido sábias. Carla concentrava-se agora, não em sua possível doença, mas no que poderia contribuir para ajudar a equipe.
— Ótimo Carla, precisamos de todos os esforços!
— Marcos, por favor, apresente os dados completos... — suplicou Roger, ansioso por mais esclarecimento.
— Pois não, era isso mesmo que pretendia fazer agora: "Tela" — ordenou Marcos.
O gerenciador exibiu uma tela holográfica no meio de nossa roda de cadeiras e passou a mostrar a mãe de um jovem falando com policiais diante de nós, como se testemunhássemos a cena.
— Foi horrível, polis! - a mãe contava para os policiais — Meu filho chegou em casa e simplesmente me disse que queria dinheiro. Estranhei de imediato seus modos, pois ele nunca falara naquele tom agressivo comigo. Respondi-lhe que meu chipmoney estava descarregado e que na verdade pretendia lhe pedir algum crédito emprestado. A reação dele foi completamente louca, polis! Me lançou contra a parede e disse que detestava pessoas medíocres como eu. Polis, eu vi, aquele rapaz não era o meu filho, era alguma outra criatura, mas não o meu Geraldo.
Assistimos
a uma dezena de depoimentos e sentimos o clima terrível que cercava a síndrome.
Os próprios pais estavam denunciando os filhos à polícia, percebendo que não
poderiam dar conta de tão dramática situação.
Não muito distante dali, Vando sorria. Simplesmente achava graça do tema secreto da reunião da equipe de genetrônica. Então era disso que eles falavam? Sentia-se ótimo e não se assustava com a possibilidade de ficar agressivo e descomedido. Com o cérebro que adquirira poderia resolver qualquer problema. Sua mente era por demais brilhante para errar. Errar não era humano, pelo menos não para ele e seu colegas portadores de Unidades Eletrônicas Cerebrais. Como fora cego antes! Como fora estúpido! Agora ele podia ver Deus, porque ele era o próprio Deus. Vando voltou sua atenção novamente para a filmagem quando a voz do gerenciador-mor aumentou de volume.
— Senhores, prestem atenção, hoje a tarde chegarão dois pacientes afetados pela síndrome e quero todos aqui para iniciarmos imediatamente coleta de dados e pesquisa. Ainda não tivemos relato da doença no Brasil, mas como somos um dos maiores centros de estudo do mundo em OE, e como temos conhecimento profundo em genetrônica, vamos dar a nossa contribuição o melhor que pudermos. Um enorme desafio se apresenta e espero a dedicação integral de todos de nossa equipe.
Marcos
encerrou a reunião com estas palavras. Tínhamos poucas horas livres antes da
chegada dos pacientes alfa para nosso estudo da estranha síndrome, a síndrome
Coração de Metal. Nenhum de nós, cientistas, costumava se deixar levar por
apelidos fornecidos por populares, mas algo nos dizia que talvez o apelido não
fosse um exagero.
Vando
escutara atentamente as palavras finais do líder da equipe, Marcos, e ficara
grandemente interessado nos dois pacientes que chegariam ao Centro. Precisava vê-los,
e bem de perto.
Capítulo Cinco
O aeromóvel bus chegou às quatorze horas. A recepção estava pronta e havíamos tomado várias providências, algumas questionáveis, mas não de todo. Marcos ordenara que recebêssemos os jovens em trajes esterilizados e com proteção máxima anticontaminação. O motivo apontando para tal precaução drástica era o de que desconhecíamos com o que estávamos lidando. Nossa equipe esperou os jovens usando estes trajes, enquanto o resto dos profissionais do Centro permaneceu com seus trajes cotidianos. Muitos riram da atitude de Marcos, entretanto, não era à toa que ele se tornara um profissional altamente respeitado. Cuidava de cada detalhe das etapas de estudo e pesquisa, meticulosa e arrojadamente investindo nos estudos empíricos. Essa combinação, de zelosa dedicação com confiança audaz em suas próprias idéias, já lhe rendera reconhecimento e fama. Ele pouco se importava se os colegas riam dele, mas para nós, integrantes da equipe, era difícil obedecer passivamente a certas diretrizes que Marcos ditava. Em todo caso, obedecíamos, pois nossa confiança superava as resistências em obedecê-lo.
Os rapazes, dois europeus, chegaram, contidos nas bolhas de campo de força e de olhos vendados. Naturalmente, repudiamos esse tratamento dispensado aos jovens, especialmente o das vendas nos olhos, mas soubemos que era absolutamente necessário que ficassem vendados, pois os mesmos tinham um quociente intelectual altíssimo, muito além do compreensível para nós e caso não tapássemos seus olhos, em poucos minutos arquitetariam uma forma de escapar do aeromóvel, enganando os poli como quem rouba a crianças. As bolhas de campo de força permitiam todos os movimentos normais, contudo, estavam programadas para impedir gestos violentos, ajustando-se automaticamente ao corpo do sujeito, de forma tal que impediam a violência como se um braço fortíssimo segurasse o infrator. Também, em caso de necessidade, imobilizavam o sujeito completamente, dando o que chamávamos de "abraço de urso", e para tanto, bastava que alguém dissesse "imobilizar" ou "segurar" para que a bolha agisse, num átimo de segundo.
De um canto do saguão principal de recepção, Vando observava a chegada dos rapazes. Afinal os humanos não eram tão tolos. A venda nos olhos era um forte limitante para a ação.
Conduzimos os jovens doentes para a sala de cirurgia. O plano envolvia anestesiá-los para exame primário, com coleta de fluidos corporais, e exame de ultrafilmografia (mini cápsula filmadora introduzida no organismo e conduzida aos órgãos desejados pela via venosa e arterial, registrando a paisagem corporal interna e detectando quaisquer anomalias). Toda essa situação era nova para nós. Absolutamente, não era rotineiro precisar trazer à força pacientes ao Centro para exames e fugia totalmente às regras, tratá-los como prisioneiros, entretanto, aquela não era uma situação usual, os próprios pais reconheciam que algo muito grave estava ocorrendo e autorizavam quaisquer procedimentos médicos, na esperança de terem seus filhos de volta.
Roger - o anestesista de nossa equipe iniciou o procedimento de sedação geral. Anestesiar portadores de UEC era particularmente difícil, pois envolvia não somente reduzir as atividades biológicas do Sistema Nervoso Central, como reduzir as atividades eletrônicas da central de processamento das UEC (Unidades Eletrônicas Cerebrais). Ou seja, Roger precisava fazer dormir não somente a parte orgânica do organismo dos jovens, mas também a parte eletrônica. Caso ele anestesiasse somente a parte orgânica, os jovens permaneceriam em atividade com as partes eletrônicas e isso simplesmente poderia impedir exames e cirurgias, uma vez que os pacientes estariam parcialmente acordados. Os procedimentos para anestesiar envolviam profundo domínio técnico da genetrônica e da medicina tradicional.
Chamamos os jovens de CM10 e CM20, alusão a Coração de Metal 10 e Coração de Metal 20. Essa forma de identificação era bastante impessoal, porém, precisávamos proteger a identidade dos rapazes e como a síndrome vinha sendo chamada de coração de metal...
— Começando levantamento dos acoplamentos OE presentes no corpo de CM10 — explicou Roger, enquanto o gerenciador da sala de cirurgia iniciava uma varredura superficial do corpo do rapaz.
— Órgãos eletrônicos encontrados: Os membros inferiores; os membros superiores; o coração e uma UEC para multiplicação neural. — citou o gerenciador.
— Vejam só, o rapaz é fã de acoplamentos! Bem, pessoal, com toda essa energia acumulada em baterias eternas, não teremos muito tempo para examinar o rapaz, ele vai acordar logo. — Roger estava particularmente impressionado com o moço.
— Quanto tempo temos? — perguntei.
— Trinta minutos, não mais do que isso.
— Ok! — falou Marcos — vamos ser práticos. Carla, colete os fluidos de sangue e urina; Hélio, colete lágrimas, suor e saliva; Nei, colete amostra de fezes; Rachel, inicie a ultrafilmografia, introduza a mini cápsula pela carótida.
Logo tínhamos amostras de todos os fluidos corporais do paciente CM10 e a ultrafilmografia estava em andamento. Após vinte e sete minutos, como previsto por Roger, o jovem começou a dar sinais de atividade eletrônica e interrompemos os exames. Ordenamos a mini cápsula que se dirigisse aos intestinos, de forma que fosse eliminada do organismo do paciente. Depois foi a vez de CM20.
CM20 tinha apenas um acoplamento OE, como eu mesma, o do braço esquerdo, e além disso, uma UEC para expansão da memória. Utilizava diversos softwares em sua UEC, voltados para sua atividade profissional preferida: designer. Pelo tipo de software que o sujeito escolhia rodar em sua Unidade Eletrônica Cerebral, sabíamos o que mais valorizava e apreciava na vida. Evidentemente, CM20 era um rapaz concentrado nos estudos e dedicado a profissão que escolhera. Pudemos trabalhar mais tranqüilamente com CM20 devido a sua anestesia ter uma durabilidade maior, já que dispunha de um só OE e menos baterias eternas abastecendo o corpo.
Os resultados de nossa análise inicial foram os seguintes:
| CM10 | CM20 | |
| Sangue | sem alterações | sem alterações |
| Urina | sem alterações | sem alterações |
| Suor | sem alterações | sem alterações |
| Saliva | sem alterações | sem alterações |
| Lágrimas | sem alterações | sem alterações |
| Fezes | sem alterações | sem alterações |
| Ultrafilmografia | sem alterações | sem alterações |
| Softwares UEC | jogos de guerra, adestramento de animais | designer e lazer |
| OE | membros superiores e inferiores. Bomba cardíaca | braço esquerdo |
| UEC | para multiplicação neural | para aumento de memória |
| Baterias eternas | cinco baterias | uma bateria |
Não descobríramos nada de errado com os jovens. Obviamente, eles tinham interesses diferentes e até diria que não tinham nada em comum um com o outro, salvo o fato de serem portadores de UEC. Enquanto CM10 parecia utilizar seus órgãos eletrônicos para ser mais forte e combativo, talvez almejando o treinamento militar, CM20 parecia querer utilizar seu único OE para desenhar com perfeição, já que para um designer o desenho é fundamental, se não sempre, na maioria das vezes. Sem dúvida eram rapazes bastante diferentes... antes da síndrome.
A próxima etapa consistia em fazer uma entrevista com cada jovem e nisso Nei era o especialista. Envolvia fazer uma avaliação do estado de saúde mental dos jovens, mas não um diagnóstico. Nei recebera das mãos de Marcos um documento lacrado com informações do Centro Europeu de Pesquisas OE. O documento não podia ser aberto à equipe porque somente os psiconeurotrons estavam autorizados a saber dados tão íntimos. Os psiconeurotrons, como o nome em parte já diz, eram profissionais altamente especializados no comportamento humano a partir do advento dos OE e das UEC. Entendiam particularmente da interação da psique humana associada ao eletrônico. Esta também era minha especialidade. Juntos eu e Nei estudávamos o SEI — Salto Evolutivo Induzido — e já escrevêramos diversas obras a respeito das mudanças cognitivas e psicológicas a partir dos acoplamentos de UEC.
O
documento dizia que os jovens eram extremamente inteligentes e altamente
perigosos. Manipuladores e com personalidade sociopata. Agressivos, mas não
necessariamente diretamente agressivos. Mais tarde eu entenderia vivamente estas
palavras. O documento não continha nada muito diferente do que a mídia vinha
anunciando nas últimas horas, sinal de que o Centro Europeu enfrentava a mesma
dificuldade que vínhamos descobrindo: os exames e testes não acusavam alteração
alguma. Certamente havia uma alteração tremenda em algum lugar, mas onde e por
que?
Capítulo Seis
CM10 foi levado a sala espelhada para entrevista após o deixarmos em paz por algumas horas, enquanto CM20 permaneceu em seu quarto, já sem a venda nos olhos, mas sob forte vigilância armada. Ambos ainda estavam contidos pelas bolhas de campo de força. Concluímos que não era produtivo querermos ser rápidos demais em nosso trabalho, precisávamos ter tempo para pensar sobre os resultados dos exames, sobre as estratégias e caminhos a tomar. Precisávamos pensar em todas as possibilidades e quais as mais promissoras em termos de pesquisa e estudo da insidiosa doença.
Na sala de espelhos, eu e Nei esperávamos o jovem CM10. Já havíamos providenciado a configuração de segurança da sala e mesmo assim, antes mesmo de sua chegada, eu já o temia, pelo simples fato de que CM10 possuía uma força descomunal nos braços e pernas-OE. Sem falar no coração, que não pararia de funcionar nem com uma dezena de tiros (já que possuía várias rotas alternativas para desvio do fluxo sangüíneo em caso de necessidade). Também, me preocupava ter de lidar com uma mente brilhante descontrolada, que não obedecia as Leis Adaptadas de Asimov. A situação era tanto inédita quanto assustadora. Nei estava calado, o que era habitual em sua pessoa. Não era de muita conversa e isso me deixava ainda mais tensa. Eu seria a entrevistadora presente na sala e Nei seria o entrevistador oculto, atrás da parede de espelhos. Nei se comunicaria comigo via um aparelho de escuta. Eu ouviria suas sugestões e poderia ou não aplicá-las.
CM10 entrou na sala e a porta foi selada. Esperei que ele sentasse à mesa, onde eu mesma estava acomodada, mas ele permaneceu em pé em atitude desafiadora. Percebi que precisaria ser clara com ele ou ficaríamos imobilizados por um jogo de rato e gato. Cabe dizer que nessa entrevista conversei com ele usando seu nome verdadeiro, mas na transcrição seu nome aparece como CM10.
— CM10, por favor, sente-se.
— Humm, eu tenho escolha?
— Não, você sabe que no momento não tem escolha.
— Você é sempre tão democrática, Doutora Rachel? — falou CM10 com um sorriso irônico, que mostraria ser a sua marca.
Ignorei a pergunta e olhei em seus olhos. Havia algo ali. Algo como um vazio e uma dor, uma dor torturante.
— CM10, preciso que me ajude a ajudá-lo. — falei docemente, sensibilizada pelo seu olhar. Enquanto CM10 parecia ficar muito concentrado em minhas palavras, como se captasse profundamente o efeito delas sobre si mesmo.
O rapaz caminhou até a cadeira e sentou-se à mesa. Estávamos frente à frente.
—
Eu vou colaborar doutora, o que quer de mim?
Nesse ínterim, alguém acompanhava atentamente a entrevista. Vando estava na sala do gerenciador-mor de filmagens e usando novamente o artifício da fumaça, conseguira liberar a filmagem da sala de espelhos e escutava a conversa, fascinado. Ele entendia CM10 — ria sozinho — e como entendia CM10! Acompanharia a entrevista e depois esperaria o novo amigo na saída da sala de espelhos e eles se comunicariam, e ele já sabia como. O gerenciador prosseguia a leitura labial:
— Quero que você simplesmente me diga porque você acha que está aqui. — perguntei
— Bem, doutora Rachel, andei me metendo em algumas brigas e... o problema é que ganhei as brigas e daí todo mundo começou a ficar contra mim.
— Brigas, que brigas?
— Está bem... eu bati nos meus pais... foi isso. — o rapaz parecia triste.
De
súbito, nossa conversa foi cortada por um agudo sinal de alerta que ecoava de
meu braço. Olhei a mensagem de alerta no minivisor. Dizia que meus pulmões
estavam ficando saturados de gás carbônico e orientava que eu buscasse um
local arejado ou que me deitasse no chão, onde provavelmente o ar estaria
melhor. Fiquei atordoada. Nei começou a gritar em meus ouvidos "saia já
daí, saia já daí!". CM10 ria sem parar. "Imobilizar", falei,
para que o campo de força contivesse CM10 e corri para a porta sentindo me
faltarem as forças. "Abrir", falei já desfalecendo, e depois não me
lembro de mais nada. Fui salva graças ao monitor paramédico inserido em meu
braço-OE. Se eu não usasse esse programa que monitora sinais vitais e algumas
alterações fisiológicas, estaria morta a essa hora. Por incrível que pareça,
e apesar de toda a vigilância, o jovem CM10 conseguira inverter dois dutos que
davam para a sala de espelhos, de modo que o duto de ar viciado e contaminado
com excesso de gás carbônico, fosse ali desembocado. Muito provavelmente
não fizera isso sozinho, mas em parceria com CM20. O coração eletrônico de
CM10 lhe garantia pelo menos mais quinze minutos de resistência a ausência de
ar puro, isso porque o bombeamento eletrônico do sangue fornecia uma irrigação
sangüínea mais eficiente e também porque seu corpo orgânico era constituído
apenas de tronco e cabeça, fazendo com que o suprimento de ar dos pulmões
durasse mais. Ele inspirava uma vez a cada três respirações minhas.
Certamente CM10 sabia de tudo isso muito bem e respirara o menos possível desde
que entrara na sala, poupando-se da contaminação por CO2. Foi então que vi o
queria dizer o documento quando afirmava que a geração coração de metal era
violenta, mas não necessariamente diretamente violenta.
Após me recuperar do susto, eu e Nei revimos a filmagem do encontro na sala de espelhos e simplesmente ratificamos a opinião geral de que tratava-se de um tipo de sociopatia, sem sombra de dúvida. O grau de manipulação das emoções e o uso da sedução para enganar eram evidentes. E CM10 era muito bom nisso, pois tanto eu quanto Nei chegáramos a acreditar em CM10, considerando sua expressão sincera até o momento em que fora revelado o seu plano de morte. Estava claro para nós que o rapaz não era assim antes do acoplamento de UEC, mas somente depois da cirurgia de implante começou a manifestar a síndrome que culminava num comportamento sociopata, até onde sabíamos. A fita de gravação revelou mais um dado preocupante. A cena da saída de CM10 da sala de espelhos, mostrava o jovem rindo copiosamente, entretanto, subitamente ele pareceu fixar o olhar num ponto além, e ainda rindo muito, começou a piscar os olhos de um jeito ritmado. Havia alguma coisa ali. Revi a cena dezenas de vezes até que finalmente compreendi. CM10 estava se comunicando com alguém e usava o código morse, piscando curta e pausadamente e compondo as frases. O outro com quem ele falava respondia e assim conversaram rapidamente. Reconstruí o diálogo, que deve ter sido mais ou menos assim:
— Oi, coração de metal! — alguém disse para CM10.
— Literalmente coração de metal — respondeu CM10, rindo muito.
— Quer sair dessa bolha? - ou do Centro Federal de Pesquisa-OE
— Claro, mas até que está sendo divertido ficar aqui dentro!
— Entrarei em contato.
— Espero, mas qual o seu nome?
O diálogo findava aí. É bem possível que a última pergunta feita por CM10 tenha sido respondida pelo interlocutor, porém, não temos como sabê-lo, uma vez que esse outro interlocutor não fora filmado piscando. O diálogo foi reconstruído a partir das respostas de CM10, sendo aproximadamente exato.
Quem poderia ter travado esse diálogo com CM10? CM20 estava contido, portanto não poderia ter sido ele. Era outra pessoa e não supunha quem fosse.
Repetimos a entrevista com CM20, mas tomamos o cuidado de não entrevistá-lo frente à frente. O entrevistamos via new-intranet (a Internet de uso interno dos pesquisadores do Centro Federal de Pesquisa-OE). Infelizmente CM20 mostrou sinais de que sofria do mesmo distúrbio de personalidade de CM10.
Dois dias depois das entrevistas e após pessoalmente ter gasto muitas horas na análise minuciosa das mesmas, apresentei os resultados a equipe, em nossa sala de reuniões. Mostrei o trecho da comunicação morse e como os rapazes eram capazes de simular emoções de forma primorosa, com um só objetivo, manipular aos "mesquinhos", como chamavam os não acoplados a UEC. Todos ficaram impressionados. Era como ouvir falar de um maremoto e depois deparar-se com o maremoto; havia uma diferença muito grande entre ouvir sobre algo perigoso e deparar-se diretamente com o perigo. A partir de meu relato na reunião, começamos a vislumbrar que entre os UEC havia uma comunicação que nos escapava a compreensão imediata. Enquanto nós estávamos acostumados a usar dados meios de comunicação já tradicionais, eles eram capazes de usar "n" outros meios, muito criativos, andando com o raciocínio sempre a nossa frente. O código morse estava extinto há muito, mas esses rapazes não só foram capazes de resgatá-lo como de usá-lo com pleno domínio. CM10 havia respondido prontamente a uma comunicação em código totalmente esquecido, iniciada por um interlocutor "x", com a mesma facilidade de quem conversa verbalizando. E eu só descobrira isso mediante árdua pesquisa. Era realmente impressionante. Decidimos que precisávamos tomar mais cuidados e redobrar nossa atenção para as configurações de segurança.
Foi
então que o inferno começou. Simplesmente CM10 e CM20 conseguiram escapar de
seus aposentos e inexplicavelmente das bolhas de campo de força. Os
gerenciadores de serviços, que davam suporte a todas as nossas atividades,
cotidianas e profissionais, das mais banais às mais complexas, pararam de
reconhecer nossas vozes de comando. Nosso Centro Federal entrou em situação caótica.
Em breve descobrimos que não era uma ocorrência isolada, no mundo inteiro
acontecia o mesmo fenômeno, algo escatológico. A geração Coração de Metal
tomava conta dos gerenciadores e dominava os sistemas que sustentavam a vida.
Tornaram-se os senhores da guerra e não tinham dó e nem compaixão. Cada vez
mais fortes, aliciavam, seduziam, subornavam e traíam, agregando uma crescente
horda, tempestuosa e impulsiva. Nossa equipe de genetrônica manteve-se unida,
exceto por Carla, que desapareceu, mas as câmeras de segurança a flagraram em
fuga junto com os CM10 e 20. Vando ainda estava conosco, contudo, imaginava,
aflita, qual de nós seria o próximo a sucumbir...
Capítulo Sete
Vando estava conosco, aparentemente o mesmo rapaz que sempre fora. Marquei uma reunião secreta, mas deixei claro que Vando não poderia estar presente e simplesmente justifiquei tal medida dizendo que depois todos ficariam sabendo o motivo. Marcos me apoiou integralmente, ele apostava em mim e, pelo menos até o presente, eu era a única que descobrira algo relevante sobre a forma de funcionamento dos jovens Coração de Metal. Marquei nossa reunião para acontecer num sítio afastado que pertencia a minha família, mas que quase nunca era utilizado. Tratava-se de uma casa à moda antiga, sem gerenciador, primitiva e sem conforto. Vando já sabia que nos reuniríamos secretamente e eu desconfiava de que ele tentaria nos seguir. Por isso, fiz uma comunicação diferente dos meios tradicionais, usando o mesmo estilo dos acoplados à UEC. Escrevi em papel comestível, longe de qualquer câmera de filmagem, um bilhete personalizado para cada um dos integrantes da equipe e pedi que, assim que lessem o mesmo e memorizassem o conteúdo, o ingerissem, de modo a não permitir que ninguém roubasse a informação. Os bilhetes ficaram, basicamente, assim:
No lado externo do bilhete: Leia longe das câmeras (esse alerta constou em todos os bilhetes) Conteúdo: quinta-feira às doze horas no sítio situado no quadrante leste, L30L22.
Como a reunião seria feita a luz do dia e em pleno horário de almoço, esperava que despertasse menos atenção do que um deslocamento noturno. Pedi aos colegas que não viessem diretamente para o sítio, mas que saíssem mais cedo de casa e fossem visitar parentes, fazer compras e só então viessem para o sítio, observando se estavam sendo seguidos. Que buscassem ir a lugares onde os gerenciadores estivessem bastante ocupados com a demanda, de modo que fosse mais fácil o despiste.
Foi com ansiedade que esperei nossa equipe se reunir. Marcos iniciou a reunião na adega da casa, uma antiga construção onde se armazenavam bebidas alcóolicas e que parecia nos fornecer mais segurança e isolamento do mundo de gerenciadores lá fora, que agora só serviam para nos escravizar.
— Amigos, essa reunião é vital, talvez ela defina o resto de nossas vidas. Agora não somos mais apenas cientistas e pesquisadores, somos o que resta da humanidade. Precisamos estar mais unidos do que nunca se quisermos sobreviver - falou Marcos, com a voz embargada. Sabíamos que o que ele dizia era realidade — agora passo a palavra para Raquel que tem algo muito importante a nos dizer.
— Bem... a nossa situação está muito difícil. Os gerenciadores caíram no controle de pessoas doentes, sociopatas, psicopatas. Não temos a cura para esse mal, mas acho que temos um caminho promissor a seguir.
— Caminho promissor? Pelo amor de Deus, de onde você tirou isso Raquel? — interrompeu Roger.
— Por favor, Roger, deixe-me terminar. Como disse, acho que temos um caminho a seguir e penso que ele seja promissor, mas para isso precisamos nos libertar.
— Do que você está falando Raquel? — Marcos indagou — que história é essa?
— Ok, tentarei ser mais clara... não podemos lutar contra eles se estivermos com as mãos amarradas... Precisamos usar nossos OE para atacar, precisamos nos libertar da Lei Adaptada de Asimov. Precisamos capturar um deles e destrinchar o acoplamento, verificar cada detalhe da Unidade Eletrônica Cerebral até descobrirmos o que há de errado com elas. E temos de conseguir isso a qualquer custo, mesmo que seja preciso matar um deles.
— Você está louca? — gritou Nei - Você acha que podemos desobedecer as Leis?
— Esperem! — irrompeu Marcos — Esperem.... Raquel está parcialmente correta. Não queremos lutar contra os jovens CM, mas queremos ajudá-los a se curarem, queremos voltar a viver nossas vidas e não queremos ser escravos! Não podemos ajudá-los se estivermos com as mãos amarradas. E... também acho que talvez seja preciso usar da força para capturar pelo menos um deles e estudá-lo noite e dia, ser for preciso, até acabar com a maldição.
Todos concordamos que Vando era o jovem que seria mais facilmente capturado e levado para o sítio, onde instalaríamos um laboratório na adega. Embora Vando aparentemente não apresentasse sintomas, eu já aprendera a reconhecer as formas de manipulação emocional dos CM - Coração de Metal - e tinha certeza de que ele estava tão afetado pela doença quanto CM10 e 20. Ainda assim seria extremamente difícil capturá-lo, considerando o brilhantismo intelectual que tinha. Não podíamos querer disputar com ele habilidade mental porque ele simplesmente venceria, precisávamos agarrá-lo à força e nocauteá-lo. E depois o transportaríamos para o sítio. Precisávamos de força bruta. Hélio, especialista em OE de nossa equipe, se encarregaria de reprogramar nossos Órgãos Eletrônicos para que pudéssemos desobedecer as Leis sem pronta e automática denúncia ao gerenciadores.
No conjunto, tínhamos os seguintes OE disponíveis:
Marcos: os dois membros inferiores (perna direita e esquerda)
Rachel: o braço esquerdo
Roger: pulmões e braço direito
Nei: os dois membros superiores (braço direito e esquerdo)
Hélio: os dois membros inferiores e o ouvido direito.
Portando esses OE, libertados do cumprimento à Lei, nós podíamos capturar Vando com relativa facilidade, mas nenhum de nós subestimava sua mente.
Marcos elaborou uma estratégia. Não iríamos atrás de Vando, mas deixaríamos que ele viesse até nós. Esperaríamos que ele nos procurasse e quando isso acontecesse, nós estaríamos juntos para pegá-lo.
Depois desse acordo tácito entre nós, cada qual retirou-se para suas casas, não sem pensarmos em proteger o nosso plano com algumas estratégias de despiste. Estávamos lidando com pessoas que não podíamos subestimar de modo algum, e se isso fizéssemos, seríamos derrotados. Fizemos uma falsa reunião na sala de reuniões da genetrônica, mantendo o mesmo padrão anterior das reuniões e comentando nossa indignação diante da perda do controle sobre os gerenciadores. Nessa altura já sabíamos que Vando acompanhava nossos movimentos, pelo simples fato de ele ser um portador de Unidade Cerebral Eletrônica e por ser uma pessoa com a mente de um gênio, mas que para nós continuava mantendo uma postura de garoto obediente. Nós não estávamos subestimando a inteligência de Vando, mas ele subestimava a nossa, nos considerando mero brinquedo em suas mãos. Também, ao nos relacionarmos com Vando, combinamos que deveríamos buscar ser sinceros com ele, o máximo possível, pois se Vando percebesse que sabíamos quem ele era, jamais o pegaríamos.
***
Dali há duas semanas, alguém bateu à porta de minha casa e, para minha surpresa, era Vando. Viera brincar com o rato, pensei comigo mesma, enquanto o recepcionava:
— Vando, que surpresa, você por aqui?
— Sim, doutora, posso entrar?
— Claro, entre.
Olhando para o rosto de Vando, se diria que ele estava calmo, mas na verdade não estava. Retorcia as mãos ansiosamente e apresentava sudorese.
— Doutora Raquel, não estou me sentindo muito bem. Queria lhe pedir um favor.
— Se eu puder ajudar...
— Por favor, eu preciso que a senhora me amarre.
— Como assim? — de repente a conversa estava ficando interessante.
— Doutora, eu ando sentindo vontade de matar e destruir... eu... não sei quanto tempo vou agüentar ficar nesse estado.
— Se você quer ser contido Vando, preciso chamar um amigo, certo?
— Claro, doutora, claro!
Afastei-me um pouco e acionei meu comunicador. Avisei Marcos, dizendo apenas que eu estava em casa e precisava de sua ajuda, prioridade zero. Marcos entendeu perfeitamente e me disse que estava a caminho, sem fazer mais perguntas.
Não acreditei em uma só palavra de Vando. Aprendera com CM10 o jogo deles e sabia que Vando estava brincando comigo, exatamente como CM10 fizera. Se Vando realmente desejasse ser contido devido a seus impulsos agressivos, ele não me procuraria, mas a Nei ou a Marcos, qualquer homem suficientemente forte. Ele não procuraria uma mulher com apenas um braço-OE. Havia outro indício de sua teatralidade, sutil e subjetivo, era um clima que pairava no ar, mas eu não conseguia determinar exatamente o que o provocava. Ele não me inspirava confiança e a sensação de que ele vinha me fazendo de presa aumentava desde que o conhecera. Eu tinha uma sensação de ser a presa dele e estava sendo paulatinamente acuada até não poder escapar mais. Meus instintos me diziam isso, mais do que qualquer dado teórico.
Enquanto Marcos não chegava, percebi que corria grande perigo ao lado de Vando, proporcional ao tempo que ficasse exposta a ele. Precisava decidir rapidamente o que fazer. E decidi.
— Vando, gostaria que você me falasse um pouco mais como se sente e o que tem feito...
— Claro, doutora. Veja bem, como lhe falei, tenho sentido ondas de vontade de destruir varrendo meu corpo e sinto uma tremenda vontade de matar... inclusive pessoas. Esse desejo vai além da razão, ele simplesmente está lá e vai tomando conta de mim até se tornar torturante, compreende?
Escutei atentamente Vando. Era muito triste vê-lo atuando daquela maneira, tentando me incutir medo, tentando me deixar apavorada como só as presas ficam. Eu conhecera Vando antes da síndrome e ele fora um garoto fantástico. Agora sua mente distorcia e confundia tudo.
— Sim, Vando, acho que compreendo... mas ao que você atribui a origem desses sentimentos? Você lembra quando tinha dezessete anos?
— Você acha que antes da operação eu não tinha esses desejos que hoje tenho?
Inadvertidamente, eu havia dado uma pista a Vando de que sabia da verdade e do jogo. Meu Deus, estremeci. Tentei retomar a situação amena de antes. Precisava ser esperta, muito esperta, se quisesse viver.
— Talvez, não sei, isso quem pode me dizer é você mesmo. O que sei é que você sempre teve uma mente brilhante, Vando, quer antes, quer depois da cirurgia de acoplamento de UEC; no entanto, gostaria de localizar no tempo a origem de seus sentimentos, se possível. Você lembra se quando tinha dezessete anos já sentia algo da mesma natureza?
— Na verdade eu já sentia doutora, mas reconheço que tais desejos de destruição vêm se intensificando.
— Ótimo, esse dado é importante! Se você já nutria desejos de destruir, talvez você esteja passando por um estresse pré e pós operatório. Mas essa é apenas uma hipótese, precisamos investigar isso melhor, sem dúvida.
— Doutora, não estou entendendo. Está me dizendo que um estresse pré-operatório pode levar alguém a ter desejos de destruir. Está brincando comigo!
E o sorriso amplo de Vando surgiu em sua face, desaparecendo com todo traço de tristeza. Vando era genial, mas não lera os livros que eu havia lido por anos e tampouco estudara a fundo o campo da psiconeurotrônica como eu.
— Vando, Vando, você ficaria abismado ao saber que tipo de desejos e fantasias as pessoas alimentam num período pré-operatório. Com certeza, esses desejos que você manifestou não são nada inviáveis. Podem perfeitamente ter sido a sua reação a uma situação muito estressante, que envolvia vida e morte.
Nesse momento a campainha soou e o gerenciador de minha casa, anunciou visitas. Na semana anterior eu o havia configurado para não identificar as visitas, nem por nome pessoal e nem por número de pessoas. Levantei-me para recepcionar Marcos quando Vando gritou:
— Espere! Não abra a porta agora!
Mas antes que Vando terminasse de falar e me alcançasse eu já havia pressionado o botão que liberava a porta. Esse movimento, quase que logístico, também havia sido planejado por nós, uma vez que os gerenciadores, mesmo os domésticos, não eram mais confiáveis e bem podiam estar programados para executar funções contrárias as ordenadas por nós, os ditos "mesquinhos". Havíamos combinado que na hora estratégica usaríamos os recursos manuais e não os gerenciadores. Para minha alegria, Marcos, Nei, Hélio e Roger adentraram pela sala e seguraram Vando firmemente, tapando-lhe a boca e abafando seus gritos. Em seguida Roger iniciou procedimento de anestesia ali mesmo.
Carregamos Vando até o aeromóvel de Marcos e o conduzimos ao sítio. Nossa laboratório lá instalado não passava de um local de pesquisas precário, mas com pelo menos alguns equipamentos importantes. Conseguíramos retirar do Centro Federal de Pesquisa-OE um equipamento de ultrafilmografia disfarçado num carro-container de lixo.
Imediatamente demos prosseguimento a fase dois do plano. Vando começou a ser escrutinado por nossa equipe e estudamos com afinco cada pormenor de seu acoplamento. Após algumas semanas de investigação incessante, Hélio descobriu a falha na UEC. Vírus! Um vírus de computador. Um simples e maldito vírus. Estava escondido num game chamado "Total War". De alguma forma o vírus mesclara o jogo na personalidade dos acoplados, de tal forma que eles apropriaram os valores do jogo. A guerra pelo mero prazer da luta e do exercício tirânico de poder sobre os outros. A vida se tornara um jogo sádico para eles e suas mentes brilhantes se viram aprisionadas num game de guerra. Tudo que importava era matar e sobreviver, realizando seus desejos insaciáveis. Embora nossa descoberta sobre a gênese da síndrome fosse alentadora, havia muito ainda a ser feito. Providenciamos uma cirurgia. Recebi um acoplamento de Unidade Eletrônica Cerebral para aumento de memória e multiplicação neural, mas sem o vírus do game Total War. Sinto-me ótima! Mas não tivemos tempo de comemorar esta vitória. Nosso laboratório foi descoberto.
Capítulo Oito
Desde meu recente acoplamento, Nei me entrevistara longamente visando dirimir quaisquer dúvidas referentes ao funcionamento de minha UEC. Ele anunciara a equipe, com raro bom humor, que não havia traço de psicopatia, que eu, Raquel, continuava a mesma velha de sempre.
— Nei! como se atreve? — protestei sorrindo — ainda estou na casa dos vinte, muito longe de sua arcaica idade!
— Claro, claro, tão nova quanto a antiga Raquel!
— Nei, sou eu — afirmei mais seriamente, subitamente preocupada, tentando dar um tom seguro a minha voz — a mesma pessoa, sua colega e amiga...
— Desculpe Raquel, sei que é você — respondeu, enlaçando-me ternamente.
Enquanto abraçava Nei, meu olhar cruzou com o de Marcos e pela primeira vez senti algo estranho. Achei-o especialmente atraente. Era realmente um homem muito atraente e comecei a listar mentalmente suas qualidades admiráveis: um líder nato, inteligente, corajoso, comprometido com a vida, bonito... lindo... não conseguia tirar os olhos dele e me perguntei, sem parar de desejá-lo um segundo se quer, se minha UEC estaria mexendo com minha libido. Jamais olhara Marcos daquela maneira. Minha divagação amorosa foi interrompida bruscamente.
Um grito grupal animalesco estremeceu a casa e num repente CM10 e CM20 adentraram pela adega, ainda urrando, acompanhados de Carla e seguidos por meia dúzia de rapazes e moças. Um exército desordenado e violento. Faziam um escarcéu dos diabos, gritando como guerreiros na linha de frente da batalha. Nei assustou-se e movido por um impulso protetor, quis tomar a minha frente para me defender. Isso bastou para que seu corpo fosse atingido por um projétil desidratador. Vi seu corpo desaparecer e se transformar num montículo de húmus aos meus pés. Deus, Nei virara fertilizante! Inexplicavelmente tive vontade de rir e meu corpo foi sacudido por uma gargalhada histérica irresistível.
— Do que você está rindo? - irrompeu CM20, irritado e avançando impetuosamente em minha direção.
Tive que pensar rapidamente. Eu não acreditava, simplesmente estávamos jogando de novo! E o jogo era mortal.
— Ora, porque você matou um dos nossos? — falei, ainda rindo muito, descontroladamente, a voz sacudida e entrecortada por risos contagiantes.
— Matei? — CM20 começava a rir também — Fiz uma burrada, não foi? — o riso assomou frouxo e generoso de sua boca.
— Nós estamos fazendo acoplamentos — expliquei, apontando para uma pequena marca cirúrgica no canto de minha fronte. Tentava lidar desesperadamente com a confusão de sentimentos em meu íntimo, enquanto buscava responder ao perigoso inquérito dos CM.
— Humm, você não parecia a nosso favor no Centro Federal de Pesquisa — intrometeu-se CM10, os olhos ardilosos, brilhando de desconfiança.
— Realmente, eu era cega e tola!
Enquanto falava com CM10 revivia os agudos sentimentos de ser uma presa fácil e sentia o poder crescente que os CM tinham de me afligir e amedrontar. Os demais integrantes da equipe de genetrônica permaneciam quietos. Marcos, Roger e Hélio sabiam que suas vidas dependiam de mim. Eu era a única que poderia conquistar alguma credibilidade perante os jovens Coração de Metal e, talvez, conseguisse nos manter a salvo da armadilha em que nos encontrávamos.
— Por favor, sente-se aqui — continuou CM10, assumindo o papel de entrevistador e me indicando uma cadeira à mesa.
Sim, agora eu era a entrevistada. CM10 me provocava, debochado e irônico como só ele. Achei graça novamente, seu cinismo me pareceu hilariante. Sentei-me à mesa com um sorriso mal contido nos lábios. Ele sorria também, sorriso de gato olhando a presa.
— Bem, o que a fez desejar ser como nós, doutora Raquel? — indagou CM10, cheio de gentileza.
— Isso realmente lhe interessa, não? — retruquei, tentando ganhar tempo.
— Porque foge da resposta doutora Raquel? Será que não sabe o que responder?
— A resposta é simples, não há mistério algum nisso. Nas últimas semanas estivemos estudando o acoplamento de Vando, acreditávamos que havia algo errado com as Unidades Eletrônicas Cerebrais, mas descobrimos logo nosso grosseiro equívoco. Não encontramos nem sequer um defeito no acoplamento, mas ao contrário, todas as evidências nos mostravam a realidade: os acoplados são seres privilegiados, com uma capacidade cognitiva inimaginável. Por isso, decidimos iniciar procedimento de implante de UEC o mais breve possível. Como vê, eu fui a primeira a receber o implante.
— Bingo, doutora! Resposta plausível! Parabéns!
CM10 sentia-se tão à vontade e confiante que intuitivamente percebi que precisava minar sua segurança ou estaria perdida.
— Não creio que você esteja satisfeito com minha resposta CM10! Você não confia nem em sua sombra! — parti para a ofensiva — nem que eu contasse que dois mais dois é quatro você acreditaria. Garanto que ia fazer cálculos matemáticos complexos para provar o contrário.
Os jovens CM riram em coro. Gostavam de ver um líder constrangido. CM10 estava surpreso com minha inesperada ousadia. Então, Roger, ansioso por natureza, e não suportando mais o jogo de gato e rato que se anunciava longo e torturante, tomou a decisão errada. Agarrou-se ao pescoço de um dos jovens CM e ameaçou matá-lo se não nos deixassem partir.
— Não, seu idiota!!! — gritou Hélio, aflito diante da evidente imperícia de Roger.
Roger, e o jovem CM refém, pulverizaram o ar com o húmus de seus corpos. Os projéteis desidratadores sibilaram fulminantes, disparados de várias armas do nervoso pelotão CM. Hélio, meu querido amigo Hélio, pagou caro pelo grito inconformado. Também seu corpo virou fertilizante, sem chance de arrependimento. Desta vez o riso tenso não me tomou. Fiquei paralisada, sem conseguir tomar ação. Marcos interveio, providencial e habilmente:
— Bem, senhores, creio que a questão está resolvida. Solicito que o meu acoplamento seja feito de imediato! Acho que já chega de perdermos tempo com tolices.
Estranhamente CM10 não o contrariou, e numa tranqüilidade que jamais vira entre os CM, nos pusemos a fazer os preparativos para acoplamento de UEC em Marcos. Nisso, encontraram Vando em estado comatoso no fundo da adega, repousando numa cama hospitalar, mas ninguém se importou. A minha explanação, descrevendo Vando como cobaia de estudos científicos, parecia ter justificado plenamente sua condição inconsciente. Com os conhecimentos que adquirira, chefiei a cirurgia e cuidei de que Marcos recebesse um acoplamento sem o vírus do game Total War.
Agora
estamos aqui, os dois juntos, no que sobrou do Centro Federal de Pesquisa-OE.
Marcos está tão concentrado que não nota meu olhar apaixonado. Ainda bem.
Quem sabe no futuro? Agora não é hora, não posso distraí-lo, precisamos de
cada segundo disponível. Os jovens CM nos deixaram em paz, pensam que somos
iguais a eles. Estão ocupados em infernizar a vida dos milhões de humanos sem
UEC! Há guerra, escravidão e caos por toda parte. Estamos estudando uma forma
de corrigir as UEC dos jovens acoplados. Asimov estava certo, a integração
corpo-máquina deu-se mais rapidamente do que supúnha-mos... A guerra total
parece iminente, precisamos pensar e agir rápido, muito rápido. Não sabemos
quanto tempo ainda nos resta...
Marta Rolim