Persona
Entrei na loja. L� estavam os rostos � venda, coloridos, com laivos deslizando suavemente; os penetrantes olhos id�nticos, as bocas morenas.
Rostos art�sticos, lisos e perfeitos. Apenas sombreados pela maciez das aquarelas. �Voc� � algu�m com um rosto desses!� (o slogan dan�ava na vitrine). Verdade. Acessos se abriam, gestos meigos refletiam no brilho das m�scaras. O rosto da moda; a moda da vida.
Algumas c�psulas e a face emergia na carne. T�o nova e real como um rosto de crian�a. Pl�cida, isenta de vasinhos rubros, cravos oleosos, espinhas infectadas, nervuras e carquilhas. Fresca e l�mpida! Impec�vel; perpetuamente serena ao longo das adversidades. Maculada somente pela arte dos mestres.
Obra �nica. Tela viva.
A a��o � t�o simples � se repetia: o cliente entrava na loja, cumprimentava a vendedora que exibia sua fisionomia alegre (fisionomia exclusiva, patrocinada), e depois ia mirar os rostos expostos, demorando-se na escolha de um. Ent�o, apaixonava-se pelo semblante de tons diletos, apaixonava-se pelo Outro, aquele que logo seria o Eu. O outro que nasceria em seu corpo como um peda�o do para�so.
- Bela escolha! � dizia a vendedora - Este � um rosto Kandinsky, os laivos t�m o estilo inconfund�vel do pintor!
Sim, inconfund�vel. As c�lulas brotariam seu rosto Kandinsky; ou o rosto Mir�; talvez o espantoso rosto Dal�. O rosto gritante de Picasso.
O cliente seguraria as c�psulas com m�os inst�veis, tomando a promessa e a garantia de que teria o rosto escolhido. Rigorosamente. O rosto da moda. E desfilaria com a face �mpar, com os laivos ao estilo Miguel �ngelo ou Ingres. Os laivos �nicos, inconfund�veis, atestando autenticidade...
Vi
uma d�zia deles sa�rem da loja com suas c�psulas derretendo. Foi nesse
instante que resolvi falar com a vendedora.
Sim, queria ver os rostos. Sim, queria comprar. O consumo da g�nese do
corpo. Descart�vel e m�ltiplo corpo. A mulher piscou os olhos exatos para mim
e pediu que eu confirmasse o pedido. Confirmei. �Voc� � algu�m com um rosto
desses!�. Verdade. Verdade.
Sa� da loja com as pernas bambas, engoli as c�psulas e sumi na multid�o.
Marta
Rolim