Cattus Domesticus: Uma Vida Comigo

         

Felis cattus domesticus, digit�grado de unhas retr�teis.

Meus cinco mam�feros carn�voros detentores de sete vidas (5x7=35):

Mimoso era branco, macho grande, bo�mio, vivia metido em rinhas. Seus dois maiores feitos: abateu uma enorme pomba e seguia meu pai at� o trabalho, feito cachorro que segue o dono na rua. Duas quadras adiante, quando chegavam num cruzamento movimentado, o gato desistia e voltava para casa. Anos depois, Mimoso doente incur�vel, meu pai o sacrificou com um tiro na cabe�a. N�o ag�entou ver o sofrimento do companheiro.

Natilda, uma gatinha abandonada e que acabou sendo incorporada � fam�lia. Eu e minha irm� brinc�vamos tanto com a bichana que ela se tornou a primeira gata goleira da hist�ria. E que goleira! Defendia aquele gol com maestria! A bola de meia cruzava com velocidade e a danada da gata catava com firmeza no ar. O �nico problema � que Natilda se tornou pirada por tudo que se mexesse e n�o podia ver uma m�o passar na frente sem agarrar com unhas e dentes. M�os lanhadas, decidimos que era hora da gata mudar de esporte. Tentamos ensinar xadrez, mas ela s� queria derrubar as pe�as. Mais tarde revelou outro talento: abria portas! Alguns de seus filhos fizeram a mesm�ssima proeza.

Mique! Grande Mique! Codinome: Jaguatirica. Tinha uma pelagem estranha e era muito selvagem, arisco. Achamos que era gato do mato, mas depois, pesquisando, vimos que n�o, era gato comum ou fruto de um cruzamento desconhecido. Acendia f�sforo por qualquer coisa, expulsou um segundo gato macho que t�nhamos em casa. Perseguia-o tanto que o pobre rival sumia dias at� que n�o voltou mais. Mique triunfou como um le�o no territ�rio, com a idade foi ficando mais calmo, aceitando carinho.

Amarelo. Esse foi um presente de grego. Uma vizinha apareceu com um gato deitado numa caixa de sapato. Pediu desesperada que fic�ssemos com ele alguns dias, inventando uma hist�ria maluca com a m�e dela. O gato n�o andava. Claro que ficamos com pena e logo j� est�vamos cuidando da criaturinha. Sabe qual era o problema dele? Descalcifica��o. S� davam p�o e �gua pro bicho. Os ossos eram fr�geis e moles como gelatina. Rem�dio: c�lcio, muito c�lcio e uma alimenta��o decente. Recuperou-se, mas ganhou o apelido de buggy porque as patas dianteiras engrossaram e se fortaleceram, mas ficaram curtinhas em rela��o �s traseiras: parecia um buggy rodando na estrada. Tinha o corpo entroncado, lembrando um tigre-dente-de-sabre. Viveu muitos anos, ca�ou uma perdiz e at� papai foi.

Miquela. Chegou adulta, na maior cara-de-pau. Toda sedutora e manhosa, quando vi estava na cozinha pedindo comida, como se a casa fosse sua. Meu pai pegou o fusca e levou a gata embora. Uma semana depois, Miquela estava de volta, ningu�m sabe como. Desta vez ficou. Uma linda gata negra e branca, mascarada. Era muda (todos os filhotes tamb�m), mas sempre soube nos levar na conversa.

Hoje os cinco bichanos (5x7=35) devem estar vivendo suas m�ltiplas vidas em algum outro lugar (uma vida foi comigo).

    

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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