Gostosuras 

         

Andava voando no seu triciclo. Tupy, o cachorro de estima��o, e eventual delator, a seguia. Na cestinha pendurada no guid�o da bicicleta, uma velha pasta escolar guardando os seus segredos. Estacionou o veloc�pede e foi abrir a pasta: canetas coloridas, rolo de cord�o, caixinhas de f�sforos, linha de nylon, velas, peda�os de jornal, tachas, um caderno pequeno, um vidrinho com �lcool, vidrinhos vazios, um bodoque, um pano, uma lanterna, duas bergamotas. Quando a noite ca�sse iria brincar de esconde-esconde com os primos no quintal repleto de capim alto. E ent�o faria suas travessuras e daria boas risadas.

Uma vela acessa atr�s das moitas de cana de a��car, tremeluzindo na escurid�o. Um bilhete:

- Oi seus trouxas, eu n�o estou aqui! � escrevia com cuidado, desenhava as letras para que ficassem bem leg�veis. Divertia-se muito antevendo o encontro do bilhete, o alvoro�o que provocaria.

Deixou tudo pronto e foi subir numa �rvore n�o muito distante, tomando o cuidado de esticar um fio de nylon no meio do mato, rente ao ch�o. Nylon invis�vel � noite e que faria os primos trope�arem. Mais risadas. Espantava Tupy, o traidor, e ent�o esperava. Era sempre a �ltima a bater, anunciando o fim do jogo. Mas isso depois de hora ou mais. Teriam que procur�-la muito. Adorava aquilo!

A vela acesa tremeluzia e da� a pouco algu�m gritava.

- Olha, tem uma luz nas canas!

A crian�ada corria para as canas e encontrava o bilhete desaforado de Heleonora debaixo da vela. Nesse �nterim, a menina j� descia da �rvore e tratava de mudar de lugar antes que dessem conta. Ia para o por�o do chal� de madeira. Tupy aparecia e era arrastado junto antes que latisse na hora errada. L� no por�o escutava as vozes chamando. Um a um iam saindo dos esconderijos e vinham somar esfor�os para encontrar a pequena Heleonora. J� era uma das �ltimas. Logo n�o restaria nenhum a ser encontrado, exceto ela. No por�o esperava, mas n�o ficava nas partes claras, onde a maioria se escondia, mas ia at� os tem�veis cantos estreitos e escuros. Enfrentava os medos, a lanterna acesa, com a luz vazando entre os dedos para que n�o iluminasse demais. E l� no rec�ndito escuro esperava o momento prop�cio de sair e ir para outro lugar ou bater de vez na parede:

-          Um, dois, tr�s, Heleonora!

Quando a brincadeira terminava, a m�e chamava a turma inteira para um lanche. Vitamina de banana e bolo de laranja. 

 Heleonora, rosto afogueado de tanta correria, riso f�cil, carregava a pasta dos segredos na m�o e recebia os cumprimentos dos primos.

 - Onde se escondeu? Onde � o teu esconderijo secreto?

 E a menina nada dizia, sorria ainda mais, enquanto saboreava um peda�o de bolo. Que gostosura!

 

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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