Emoldurada Vastidão

           

Tetraplégica.

Pôs a língua no céu-da-boca e deslizou-a pelo palato. Sentiu a cavidade viva.

Fechou os olhos por um instante. Depois ficou ouvindo o som do mundo, aquele som que emerge do silêncio e que desperta pássaros (milhões de aves canoras atrás do silêncio).

Pesou os limites. O limiar muito além do nomeado.

Sensitiva.

Enxergava minúsculos seres na exata transparência do ar. Aquele espaço branco-gelatinoso entre o vazio e o mundo. Ali habitavam coisinhas celulares, se movendo de um lado para o outro, singrando contra a luz.

Olhava nos olhos dos cães, os que vinham lamber suas mãos e os que devoravam seus dedos.

Conhecia os olhos dos bichos e das gentes.

Afogada.

Nos braços do mar ouvia as profundezas. Ondulava. Fitando o céu ouvia os chamados abissais.

O corpo transversal.

E não havia nomes para o sentir, mas dentro, a vastidão esperava.

 

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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