O Elevador

         

Pelo visto o despachante se mudara. Aproveitei para espiar pela janela empoeirada do vig�simo andar: dava para outro pr�dio velho enfiado na mesma quadra abandonada do sub�rbio. O elevador estava demorando, mas da� a pouco o tilintar alto da campainha anunciou sua chegada. A porta de madeira abriu com um tranco seco. Dentro, um ret�ngulo estreito e mal iluminado. Sobravam marcas de canivete nas paredes gastas. O piso antigo cheio de manchas. Fiquei tentado a descer pelas escadas, mas acabei entrando no cub�culo. Apertei no grande bot�o preto com um T vermelho.

 Ao inv�s de descer a geringon�a come�ou a subir. Eu podia ouvir o barulho dos cabos enquanto o elevador balan�ava e rangia, subindo sem parar. A porta escancarou no vig�simo sexto e deparei com um andar �s escuras. De repente a luzinha fraca do elevador parecia a �nica luz do pr�dio inteiro. �Droooga!� � resmunguei nervoso. Ent�o alguma coisa se mexeu naquela escurid�o de concreto armado e come�ou a correr. Eu ouvia a coisa correndo no escuro, vindo direto para mim. Apertei no T repetidas vezes e puxei a porta para que fechasse logo. A porcaria do mecanismo deveria estar num antiqu�rio e parecia que n�o ia fechar. O que quer que estivesse correndo no escuro derrapou ruidosamente e logo (como que saltando) explodia com um murro na porta que acabava de fechar. Tive sorte! O elevador deslizou para baixo como um velho ranzinza.

 Respirei fundo e exalei. �T�rreo!� Estava indo para o t�rreo agora. Confirmei o destino afundando o T  uma segunda vez, por�m o balan�o come�ou a diminuir e senti que o maldito ia parar de novo. Desta vez me preparei, fiquei segurando a porta, impedindo que ela abrisse. T�tica errada, o elevador ficou parado e percebi que enquanto eu n�o soltasse a porta ele ficaria no mesmo lugar. Tive que solt�-la.

 Grudei na parede do fundo e deixei que o mecanismo cumprisse sua est�pida rotina. A porta escancarou e depois de lentos segundos come�ou a fechar. De repente uma garra comprida e fina for�ou passagem pela fresta que restava e avan�ou sobre mim. Mal posso acreditar, mas a tira de carne que me falta no bra�o n�o d� margem para d�vidas.

 Quando a porta completou seu ritual e terminou de fechar mais uma vez, meu sangue manchava tudo. 

 O elevador descia.

 N�o demorou e come�ou a sacudir violentamente, ganhando velocidade. O ru�do dos cabos se tornou um zumbido inst�vel. Despencava! O caixote de madeira perdia os cabos nas alturas e mergulhava para o fosso. �h Deus, meu est�mago queria sair pela boca.      

 ***

 Acordei com o elevador parado, aparentemente num andar abaixo do t�rreo. As paredes est�o trincadas e o painel quebrou (o T espatifou-se!). Meu corpo inteiro d�i.  A luz fraca ainda est� acesa e bichos rondam na escurid�o l� fora, esperando me pegar (o T espatifou-se!).    

  

 

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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