Tempo de Maria

 

Quem se importa com Maria morta? Maria, a mulher de barriga vazia, de ventre infértil, de pensamentos pequenos como fungos moles. Ela passou na roleta do  metrô e ficou reduzida a um número. Jogou na roleta russa e o tiro não saiu, não porque tivesse sorte, mas porque o tambor estava vazio. O tambor de sua  cabeça oca de sentido. Na rodada seguinte um estampido rasgou o ar e o osso  frontal.

Morreu.

Maria foi sepultada com inesperadas homenagens. Época de eleição. Disseram  que sua "hissstóooria" serviria com símbolo inenarrável da condição feminina oprimida e escravizada pelas ideologias dominantes. A risada mecânica das  hienas, espreitando a presa abatida. Maria mexeu-se no caixão de madeira de LEI. Seria a madeira do Senhor Juiz? — teria perguntado.

O padre ou pastor — quem haveria de saber que representante mor do Senhor  estava ali presente? — tirou uma lista de qualidades e bondades do bolso.  Alguns daqueles adjetivos deveriam ser perfeitamente atribuíveis a pobre  morta. Santa, amiga, corajosa... Corajosa não, afinal tinha terminado como  tinha terminado. Quem sabe guerreira das causas perdidas? Guerreira dos sem  futuro. Guerreira dos labirintos-sem-fim. Bela, a beleza dos esmaecidos e  calmos, depois dos tantos gritos de dor.

De repente Maria era uma alma reconhecida, é bem verdade que já de maneira  irreconhecível. Os seus haviam passado pelo funeral e foram adiante,  procurar outra cova; uma rasa e sem rosas. Maria não estaria ali, cercada de  ternos e gravatas, de mantos e cruzes douradas, de casacos longos e anéis  brilhantes, coroas de cravo, discursos e marcha solene. Estava,  estava.  Deitada, rosto sob o véu e o céu, corpo de flores, rescindindo mogno.

Quando soou "Funeral Music for Queen Mary" alguns choraram. Todas as Marias do mundo foram invocadas de seus memoriais e ungidas rainhas, ainda que  apenas por um minuto e trinta e nove segundos.

Uma sensitiva que passava por ali, arrepiou-se toda. Intuiu que aquele era  um caso de desencarne difícil, daqueles que a vida prega peças. Resolveu  logo afastar-se, pois a experiência lhe dizia que era melhor não interferir  em absolutamente nada, com destino selado não se brinca. Apressou o passo e  sumiu entre os mausoléus.

Sábia decisão. Não se passaram dois minutos e Maria tossiu. Houve quem,  nesse primeiro momento, buscasse o rosto da mendiga e arregalasse os olhos  em  horror, mas a maioria dos ausentes, digo, presentes, preferiu ignorar  qualquer possibilidade de tamanha insensatez e segui lançando pétalas de  despedida, murmurando fervorosos "Vai com Deus". E tudo estaria bem se Maria  não tossisse uma segunda, uma terceira vez. Não havia mais como negar:

— Maria Vive! — alguém exclamou alto

Foi um aturdimento geral. Bocas abertas, assombro nas faces esticadas. Damas e cavalheiros acotovelando-se para ganhar distância da alma velada. O que era aquilo?

Maria abriu os olhos e viu o azul tranqüilo do céu. Sentiu um gostoso formigamento no corpo, girou os pés; as juntas macias. Tossiu mais uma vez e ao levar a mão à boca, esparramou margaridas no chão. Viu pétalas caindo. O pólen das flores espalhou-se, grudando em sua língua. Sentou-se cuspindo, tossindo mais ainda. Viu o que nunca pensou ver: ela e toda aquela gente rica ao redor.

Ninguém se aproximou do féretro. Havia um horror indizível pairando, sufocando, como doença contagiosa em quarto fechado. Maria estava viva, mas não a viram viva, a viram morta: uma morta estendendo dedos pegajosos; tecidos pútridos manchados, exalando ar nefasto.

Sua figura sentada dentro da caixa escura, me meio às flores desarrumadas; sua figura comprida e cinza, magra, de braços amarelados; sua tossida rouca, puxada do fundo do peito; o rombo na testa, disfarçado com maquilagem; os olhos pardos: tudo conspirava para que Maria não fosse viva, embora viva estivesse. Mal sabia ela que calada, em seu confuso leito, alimentava dramaticamente a angústia coletiva.

Nesse instante, na fração de punhados de terra caindo à cova, o ministro de Deus adiantou-se um passo, imbuído de um sentimento de anticristo, e baixou o pesado crucifixo na cabeça de Maria. Maria tombou. Ficou tal e qual estava antes: inerte. Mas um grosso fio de sangue escorria agora. As testemunhas todas mudas: os rostos petrificados. Um pacto silente, um acordo sem ressalvas: o mal tinha que ser findo.

— Reflexu post morte! - anunciou o ministro com voz grave, espalmando as mãos

Pássaros negros, em seus longos casacões, rápida e firmemente atarraxaram os  parafusos à tampa do ataúde. Alguém começou a desfiar uma "Ave Maria" e as  vozes tímidas foram assomando, até se tornarem uma só súplica. Lançaram as  cordas em torno do caixão e iniciaram sua decida ao eterno côncavo; jogaram rosas; apertaram-se as mãos numa ciranda ardente. Choraram novamente. A laje de concreto finalmente sentou, pesada, selando em definitivo. Coveiros derramaram a terra e postaram a grama.

Antes que tudo findasse, solenemente, com mãos erguidas, o ministro de Deus pediu a palavra:

— Está escrito: "Para tudo há um tempo determinado, sim, há um tempo para todo assunto debaixo dos céus; tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para desarraigar o que se plantou; tempo para matar e tempo para curar... (Eclesiástes 3:1-3)

Ouviu-se um burburinho e o delicado farfalhar das folhas de seda do livro divino. Liam os versículos. Ávidos.

Depois, não ouviu-se mais voz. Maria, a mendiga maltrapilha, estava por demais presente para que alguém ousasse contestar seu destino, e os estranhos desígnios de Deus pareciam imperiosos.

"Tempo de morrer... tempo de matar..."

No profundo da terra um ruído insistente. O tambor de sua cabeça oca de sentido, rescindindo mogno, madeira de LEI.

  

Marta Rolim

 


    
                                                                         

 

 

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