Meu Golem

 

Os campos de Marte estão plantados, vida transgênica. É quase primavera ou o que chamei de primavera. Meu urso ronda, posso sentir seu cheiro.

A estúpida Goletron poderia tê-lo feito mais agradavelmente perfumado. Mas disso as máquinas não prestam conta.

O dono da bodega, na zona sul de Porto Alegre, é que deveria arcar com os prejuízos. No mínimo, devia ter suas narinas entupidas com esse odor todo. Porto Alegre: a cidade que agora mais parece ilusão minha. Ele, o dono da bodega, era um homem alto e muito magro, com jeito de doente. Conseguiu a Goletron pirata. Fui conferir a novidade antes da viagem para Marte. Fiz uma aposta. Pedi um animal parecido com um urso. Um urso era digno das pradarias de Marte. Andaríamos eu e meu urso pelos campos de pedra.

Então, consultando as notas que caprichosamente tracei, disse tudo: temperaturas médias, composição do ar, do solo, níveis de radiação solar, tempestades de areia, possíveis e escassos nutrientes, prováveis fontes de água... A máquina zuniu como uma turbina e uma voz agradável pronunciou, “por favor, aguarde!”. Os minutos prolongaram-se com o “por favor, aguarde” repetindo-se a intervalos, até que o veredicto emergiu no gráfico: “Viável! Projeto viável!”. Passaram-se mais alguns instantes e finalmente uma caixinha saiu do interior da maquineta. Na ânsia de segurá-la por pouco não a deixei se espatifar no chão. Abri o compartimento com cuidado. Havia um ovo assentado num vão de textura macia. 

Meu golem.

Conta a mitologia que o Golem era uma criatura de barro, moldada no barro por mãos humanas, e que vinha a adquirir vida depois de ser inserido o nome de Deus em sua boca. Bastava grafar o nome de Deus num papel, seguir um certo ritual e então o Golem se tornava vivo. Mas o segredo de como fazer um Golem era conhecido somente pelos rabinos mais sábios e com o passar das épocas esse conhecimento foi ficando cada vez mais circunscrito a um número reduzido de líderes, até que, por fim, extinguiu-se. Talvez a lenda não seja bem essa, as palavras vão sendo carcomidas pelo tempo. Talvez aquele conhecimento dos antigos tenha realmente se perdido para sempre, mas o fato é que Carlos Bourg reinventou o modo de batizar criaturas. Criou uma máquina e deu-lhe o nome de Goletron e agora a Goletron funcionava a todo vapor, tornando-se uma febre entre os camponeses de Marte.

Quem vai para Marte quer levar junto seu Golem, isso é certo. As chances de sobrevivência aumentam, dizem.

A coisa funcionava assim: a máquina fazia uma infinidade de cálculos, jogava as combinações dos genes de várias espécies, compondo uma criatura orgânica de configuração estável e que, teoricamente, tinha chances de sobreviver no meio desejado. Para isso é que se informava sobre o ar que respiraria; sobre o solo; temperaturas médias, etc. Então, a máquina compunha uma criatura que poderia sobreviver, combinando os genes de inúmeras espécies. Primeiro calculava um mapa genético até que achasse uma configuração viável, depois, se o jogador confirmasse a aposta, passava a manipular os DNA´s. Se tudo fosse executado conforme previsto, um ovo contendo vida era criado. O ovo que guardava o embrião da criatura e que no devido tempo permitiria seu nascimento para o mundo. Junto com o ovo, o jogador recebia um manual com instruções de como tratar o ovo e a criatura.

Eu segurava meu ovo com verdadeira fé, agora vejo. Examinei o objeto roliço contra a luz. Um pequenino urso dormia em posição fetal, imerso em fluido cristalino.

Não era de todo surpreendente que tal criatura, semelhante a um urso, estivesse num ovo, pois que um útero não é de todo distinto de um ovo na sua função de guarnecer o nascituro. Ademais, supus que meu Golem não seria um mamífero e que a maquineta tivesse presumido que não haveria uma mãe para alimentá-lo.  

Estava lançada a sorte. Somente o teste da realidade poderia dizer o quão bem meu Golem havia sido produzido. Naturalmente, não havia garantia de sobrevivência do pequenino Golem. A máquina se limitava a fazer os cálculos e entregar a vida gestada à seleção natural.

Pus meu Golem no bolso, protegido no interior da caixinha e o trouxe para Marte.


Lá vem ele. O cheiro do urso interrompe minhas lembranças. Lá vem ele, fuçando as rochas e comendo ferro. Digere ferro, o maldito. Aproveitava os minérios todos! Um processo de digestão que envolve a oxidação dos metais, entre outras químicas brabas. O cheiro fétido vem de uma leve oleosidade que emerge de seus pêlos e que lhe protege da intensa radiação solar. Vou saber que mistura dos genes a Goletron fez? Não tenho idéia. O fato é que o pseudourso sobreviveu e parece estar aqui desde sempre. 

 

Os ruídos da bodega, súbito, emergem. Estava movimentada aquela noite! Rapazes e moças sacudiam seus ovos enquanto brindavam fartamente com bebida inebriante. Que mau começo para os pobres embriões, serem sacudidos daquele modo! Provavelmente, até o final da noitada, houve dúzias de ovos partidos no chão. E a vida foi tolhida antes mesmo de se pisar em Marte, o planeta para o qual a maioria se destinava.

Sorte deles, não terão herdado um fedor desses! Após apostar na Goletron, consultei as horas e decidi que era melhor dar o fora da baiúca antes que a polícia resolvesse bater à porta, não só prendendo a todos como providenciando a destruição completa da máquina pirata e dos ovos ilegais.



*** *** ***

É diferente ver esse horizonte sem fim ao vivo, não mais através da propaganda maquiada do governo. Um oceano de horizonte. Um mundo vermelho e duro. Sangue e ferro. Um observador distante da superfície do planeta julgaria ver imensas lisuras no relevo, no entanto, nada mais falso. Pouca coisa é polida em Marte. Há os leitos secos de rios e mares, cheios de pontas escarpadas, fósseis de ondas; as fissuras e entranhas que se precipitam no solo; as crateras; os platôs se erguendo abruptamente; as pedras diversas; as geleiras irregulares, camadas alvas e afiadas. 

O que me deixa mais feliz é ver que as plantas brotaram. As plantas modificadas que trouxemos. Cada camponês no seu lote. Hão de tornar o ar dessa joça mais puro, nos livrar do excesso de monóxido de carbono.

 

Quando o ônibus cruzou o céu marciano, a maioria de nós se aglomerou nas escotilhas, tentando dar uma espiada neste chão que haveríamos de pisar. Foi quando conheci o senhor Carlos Canela, o bom China e sua mulher, Gilda.
Conversamos, o desafio da missão injetando adrenalina nos verbos.  Um lote a perder de vista para cada um. Uma única obrigação: plantar árvores, as primeiras árvores. Transgênicas. Observar o desenvolvimento de cada uma, anotar cada detalhe, enviar um relatório semanal à base. Voltar para casa quando assim fosse ordenado.

 

Simples. Generoso pagamento pelo serviço. Talvez uma futura medalha de honra, a ser entregue pelo governo. Nós, os camponeses de Marte, os homens e mulheres que ajudaram a elevar esse planeta à condição de habitável.

Uma missão exata. Ir. Executar. Voltar. 

Desembarquei e conferi meu Golem no bolso. O bichinho estava lá. Vida latente, esperando a hora certa para nascer.

O ar a cada dia parecia mais puro. Talvez a visão das árvores já estivesse a nos beneficiar, ainda que só na disposição mental. O ar parecia mais puro. E agora a água também descia do pólo em dutos aquecidos e podia hidratar os campos em doses milimétricas. Somente o programado para cada planta. Quase se podia respirar sozinho, mas o velho Oxi garantia o oxigênio, delicadamente acoplado às cabeças.

Tudo pronto. Trabalhamos feito artesãos, lidando com máquinas lentas e frágeis. Não havia como trazer da Terra um equipamento de verdade. Muito pesado, disseram. Nos deram robozinhos leves e inúteis. Quebravam assim que topam de frente com uma pedra e isso acontecia a toda hora. Cavamos com as mãos. Transplantamos as mudinhas e as enfiamos no solo ferruginoso, acomodando as raízes, como nos ensinaram.

Os campos de Marte estão cultivados. É quase primavera. Ou o que chamei de primavera.

Meu urso ronda sempre, posso sentir seu cheiro.

A Terra é um milagre daqui. E as memórias são como sonhos. Estará Porto Alegre ainda de pé? E que pingo de verdade pode acalmar meus pesadelos nessa lonjura?

Marte é uma incógnita. Uma pergunta feita de rocha.

Será o futuro ou o passado este lugar onde piso? Aqui os milhões contam as horas e as verdades desaparecem. Ou melhor, as verdades são as pedras, as pedras em que tropeço todo dia.

O bicho me ronda. Não gosta das árvores, às vezes destrói um campo. Ouvi dizer que andou arruinando plantações. Mas uma arma comum não o mata, já escapou das caçadas, tornou-se arisco. Evita os perigos. Deve estar atrás de um declive, enfiado em alguma brecha.

Outro dia foi encontrado o corpo do senhor Carlos Canela. Inteiro, só o abdômen aberto, as vísceras derramando-se. Pouco sangue. Suspeito que o urso tomou do sangue do coitado, chupou as entranhas apenas para sorver o fluido quente que vertia. Sangue tem ferro.

Hipóteses. O urso não me incomoda, esse Golem filho da máquina. Jogatina nunca deu em boa coisa.

Amanhã quero ver se visito o China e a Gilda. Vou aproveitar enquanto o transporte funciona, que depois sabe-se lá quando vão consertar.

 

*** *** ***

Tirei o ovo do bolso e peguei o manual. “Quando quiser completar o período de desenvolvimento fetal, que já está quase a termo, basta colocar o ovo sob o sol,
apoiado e protegido por pedras de, aproximadamente, 20x20cm”.

- Ok! Colocar o ovo entre as pedras, sob o sol.

Meu ursinho haveria de nascer num ninho de pedras. O manual prosseguia as instruções, orientando-me a aguardar 24 horas terrestres e depois ir ter com o urso. Deveria ajudá-lo a romper a casca e então acariciá-lo no focinho e no lombo, tal como uma mãe o lamberia. O animal, convencido de minha função materna, imediatamente me seguiria aonde quer que eu fosse. Assim se deu. Mas é preciso dizer que a criatura logo demonstrou ser extremamente forte, de uma vitalidade excepcional. Não só rompeu a casca sozinha assim que pressentiu minha proximidade, como afastou sem esforço as pesadas pedras que a circundavam.

No início era tão pequeno quanto um gatinho, mas seu crescimento foi explosivo. A Goletron deve ter refreado seu crescimento no ovo, deixando tudo pronto para que houvesse uma compensação metabólica assim que o bicho nascesse, de modo que seu desenvolvimento foi notável, algo que nunca vi.

Hoje desconfio que o procedimento de acariciar o recém nascido era muito mais para me proteger do que o contrário. Era para que ele soubesse que eu era o
amigo.

De fato, nunca tentou me comer. Devora pedras de ferro. Devora o solo vermelho e tudo que nele possa haver. Mói os minérios.

Terá descoberto que corre ferro nas veias? Em dois meses era um gigante de 1.80 metros de altura. E aos seis meses alcançou a estatura máxima: cerca de 4 metros de altura. Essa é a medida dele em pé, firmado sobre as patas traseiras. Mas não se enganem, a baixa gravidade o ajuda. Apesar do gigantismo, é ágil e rápido, flexível, pode velozmente parecer uma bola de pelos marrons-avermelhados a se fundir ao mar do solo, cuja tonalidade é a mesmíssima sua.

Parece estar aqui desde sempre.


*** *** ***

Fui visitar o China. Tinha cumprido a quota, as plantas todas brotando conforme o calendário. Tinha o rosto severo, falava de um jeito pensado. Perguntou se eu não tinha visto algum Golem à solta. Um predador.

- Um bicho fedorento?

Não sentira o odor. Vai ver que já tinha se dissipado.

- Vi sim, de quem será? A praga anda destruindo os campos. 

- Matou a minha mulher.

 

Matou a mulher, assassinou a Gilda. Fiquei mudo, mal me movi. Lentamente pus a mão no ombro do China, o abracei e chorei. Porém, ainda nutria uma réstia de dúvida. Teria sido meu Golem o matador? Não havia testemunhas do acontecido. Nem evidências conclusivas. A mulher fora encontrada no mesmo estado de Carlos
Canela. Só.

Havia outros Golens em Marte, não havia? Acaso não poderia ter sido um deles? O meu comia ferro.


*** *** ***

O bicho me ronda. Não gosta das árvores, às vezes destrói um campo. Arma comum não o mata, já escapou de caçadas. Tornou-se arisco. Evita os perigos. Deve estar atrás de um declive, enfiado em algum buraco.  

Pediram socorro para a Base. Quem pode viver de ferro sempre? Há de se querer um pouco de fluido morno, da maciez de um caldo nas entranhas.

Vou dormir com a faca embaixo do travesseiro esta noite. O cheiro nauseabundo me deixa zonzo. A estúpida Goletron poderia tê-lo feito mais bem perfumado. Mas
disso as máquinas não prestam conta. Quem pode viver de ferrugem para sempre? A Terra, daqui, parece um sonho.

 

Acordo com gosto de ferro doce na boca. O ninho de pedras está logo ali. O urso gigante me olha. A mim não faz mal esse urso, sou sua mãe, não sou?

O ovo partido está entre as pedras; me trouxe para o ninho, o fedido. Não muito distante, o China, recostado a um penedo, observa a tudo de ventre lacerado. Com a ponta da faca carrego o ovo e o deposito na palma da mão.

É diferente ver esse horizonte sem fim ao vivo, não mais através da propaganda maquiada do governo. Aqui as verdades desaparecem. Jogatina nunca deu em coisa boa.


               

Marta Rolim

 


    
                                                                         

 

 

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