Flora N

 

O monitor estava como sempre: imóvel, colorido, exibindo sua tela fria e nítida. Mas no alto do tampo, saindo pelos orifícios de ventilação, despontava uma planta de pequenas folhas verde-lustrosas. Fiquei surpreso e encantado. Uma semente ali se infiltrara e em meio aos circuitos e placas de silício brotara. Espiei para dentro do monitor com uma lanterna, tentando enxergar de onde provinha o caule. Vislumbrei algumas raízes brancas, que se estendiam por sobre os chips, delicadas como dedos finos e transparentes.

A planta se tornou meu passatempo favorito. Continuava crescendo dia a dia, viçosa, se estendendo na lisura do plástico, buscando enroscar-se nas menores reentrâncias, nos botões. Deixei que vigorasse plenamente, pois chamar a assistência técnica para que extirpassem o já estimado vegetal, certamente sairia caro e eu mesmo não quis me arriscar a abrir o monitor por conta própria. Além do que, o equipamento estava a funcionar perfeitamente, havendo ainda menos motivos para que me preocupasse com intervenções antiecológicas.

A planta cresceu e se tornou uma bela folhagem trepadeira. Acostumei-me com sua presença "natural", que só fazia descansar meus olhos e serenar minha alma. Para os amigos ela tornou-se atração especial. Todos ficavam maravilhados com sua exuberância e vitalidade, enquanto eu, orgulhosamente, acessava a internet e respondia a e-mails sob o seu verde frescor.

A fonte nutridora de suas raízes permanecia um mistério. Verdadeiros fóruns familiares começaram em torno desta questão. Discutia-se toda sorte de palpites. Uns diziam que ela se alimentava da umidade do ar e da poeira que assentava dentro do monitor; outros afirmavam que era a luz solar que lhe garantia o sustento e alguns opinavam que eram os componentes químicos, presentes nas soldas e materiais, que lhe permitiam viver e se desenvolver. Um subgrupo restrito, de tios maternos, defendia que reações químicas desconhecidas haviam gerado uma planta mutante, capaz de sobreviver num meio aparentemente hostil, como o interior bruto de uma máquina, que além de árido, é ora muito quente, ora frio. A nenhuma conclusão definitiva se chegou. Os mais moderados não tardaram em tentar conciliar as idéias, fazendo uma junção de hipóteses explicativas do fenômeno. Alheio aos debates, apenas aproveitava o entrevero para me distrair e vaidosamente ostentar a posse da rara planta, que afinal escolhera o meu computador pessoal para embelezar.

Não sei precisar quando foi que notei o ícone brilhando na tela principal do Windows. Um ícone diferente, lembrando broto de feijão retorcido. Tentei acioná-lo, mas nada ocorreu. Perguntei as crianças se haviam mexido no micro, se haviam instalado algum programa. Diante de suas negativas veementes, acabei me esquecendo do ícone e por um longo tempo ignorei sua existência. Nesse ínterim, a trepadeira já dava voltas no monitor e suas raízes brancas entremeavam delicadamente os vãos do teclado, circundando cada tecla, como veias circundam nosso corpo. O mais impressionante é que em momento algum o computador deixou de estar operando. Nenhum defeito, nenhuma mensagem de erro, nenhum clique não correspondido. Ao contrário, parecia cada vez melhor. Acessava a internet com velocidade inesperada. Atribuí essa melhor performance à contínua atualização de software e hardware dos provedores. Notei que nem sequer precisava afastar a planta da tela do monitor, pois ela crescia de forma a nunca encobri-la. O mesmo se dando em relação às portas dos drives e a quaisquer dos botões.

Então, certa manhã, liguei a máquina, ainda sonolento, xícara de café na mão. Esperei a carga do sistema operacional e vi o que não podia imaginar. A trepadeira havia surgido, da noite para o dia, qual papel de parede na tela do Windows. Tal como aparecera, inesperadamente, enredada no monitor, se estendendo pelo teclado, descendo pelo gabinete mini-torre, aparecia agora na tela, entrelaçando graciosamente ícones, como se filmada no cinema. A máquina e a planta estavam interligadas desde o princípio.

Foi somente então que reparei, muito minuciosamente, na composição da trepadeira. Arranquei-lhe uma folha, coisa que jamais havia feito, e com o auxílio de uma lupa constatei a verdade: não pertencia ao reino dos vegetais que conhecemos. Assustado, resolvi por fim ao estranho fenômeno, que vim a chamar de Flora N (em alusão às N possibilidades matemáticas, comumente de multiplicação infinita ou indefinida). Corri, pois, mais que depressa, estendendo a mão para sacar o cabo de força da tomada, mas antes que eu piscasse os olhos já me encontrava embrenhado numa selva de folhas. Estou andando há dias e não encontro a saída. Para cada talho de planta que corto, centenas se revelam. A princípio achei que conseguiria chegar até a porta de meu escritório, mas agora sei que já percorri distância muito superior aos poucos metros que me separavam dela. Também desisti de procurar a tomada. Não sei quanto tempo mais vou agüentar.

***

Às 15:21h, uma das crianças entrou no escritório do pai. Notou, curiosa, a cadeira vazia e o dinâmico novo papel de parede do Windows: um homenzinho, perdido numa floresta de trepadeiras, tentava achar a saída.

 

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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