Amacuru

       

I b i –  T e r r a   do   S o l i m õ e s

Filho de Ibi - a Terra – Pauetê Nanbiquara, que no ancestral idioma significa arara vermelha, mirava no espelho das águas do Rio Solimões. A cabeça rubra, como uma grande juba de mico-leão-dourado ou como uma estranha alga ribeirinha, movia-se suavemente ao sabor do vento; a face medonha de fera exibia grandes dentes pontiagudos. Logo acima, e mais distante no reflexo das águas, estava Jaci, a Lua. Era para Jaci que Nanbiquara tinha olhos.

Súbito, ele se ergueu agilmente e cerrou as pálpebras. Sim, de olhos bem fechados podia ouvir o maravilhoso canto de Jaci. Logo o disco de prata revelaria sua plena beleza e Jaci brilharia no céu, gloriosa. A hora se aproximava.

Deu as costas para o rio e apontou os calcanhares para a floresta.

As pernas de Nanbiquara desciam lisas e regulares até os joelhos, depois simplesmente se invertiam: as panturrilhas figuravam abaixo das rótulas e deslizavam numa curva cheia para encontrar o delgado, mas firme, calcanhar. Havia muito que os curupiras andavam assim sobre a terra de Ibi.

Abriu os olhos e penetrou na densa mata, deixando suas estranhas pegadas para trás.

 

No alto do pico Apoena, ao redor de uma fogueira, estava reunido um pequeno bando irrequieto. O último bando de Ibi. Os pés ao contrário, com seus cinco artelhos, palmilhavam entre as pedras irregulares em perfeito equilíbrio. Nanbiquara, eriçando sua crista-juba de arara, vinha subindo pelo paredão rumo ao topo do Apoena, galgando as rochas com incrível habilidade. Abaixo dele, mil metros de abismo mergulhavam direto até o solo; e no horizonte, até onde a vista podia alcançar, o inferno verde de Anhangüera se estendia, lugar do diabo velho que habitava a imensidão.

Nanbiquara percorreu os últimos metros da parede e alçou seu corpo à plataforma. O bando de curupiras levantou-se em alvoroço e veio rodeá-lo, baixando as jubas volumosas e lambendo o ar em sinal de sujeição. Nanbiquara proclamou, então, que havia ouvido o canto de Jaci. O bando inteiro pôs-se a uivar em uníssono.

 

J a c i –  T e r r a   das   A m a z o n a s

Yara emergiu das profundezas aquecidas e inspirou o ar gelado da caverna. Exalou com ruído. Inspirou novamente, tentando recuperar o fôlego, enquanto nuvens brancas escapavam de seus lábios carmim. Deixou-se flutuar até que o coração acalmasse, escutando os distantes ruídos submarinos, sentindo a umidade morna lavar o corpo, entregue à fluidez de um sentimento oceânico. Depois saiu das águas termais e foi se sentar ao sol, no ponto em que a caverna se abria para um jardim florido.

Juçara veio ajudá-la. Zelosamente penteou os longos cabelos de Yara. Coroou sua cabeça altiva e delicada com a jóia régia. Curvou-se em deferência. Perguntou o que gostaria de vestir e a um sinal seu, trouxe uma túnica de um ombro só, que caía por sobre os seios fartos com majestosa singeleza e cobria as pernas até um palmo antes dos joelhos. Assim que ministrou tais favores, Juçara se retirou em silêncio.

O saguão do templo palaciano se estendia convidativo. Belas piras de fogo ardiam; tapetes da mais fina lã dos Andes revestiam magnificamente o piso de pedra; pinturas coloridas cobriam a abóbada do teto e esculturas de ídolos de ouro e prata, em elegantes formas femininas, enfeitavam por toda parte. Yara entrou no templo, portando seu arco e seu alforje de flechas, ornada pela fina coroa de ouro, e foi entronizada no lugar de honra. Juçara se aproximou e sentou-se aos seus pés. As mulheres estavam silenciosas, aguardando a decisão da soberana. Yara tocou em sua maravilhosa coroa e estendendo o braço, abriu a mão direita.

- Chegou o tempo de acasalar! – anunciou a jovem rainha, depondo o arco e o alforje de flechas no chão.

Num só momento, as fêmeas guerreiras todas depuseram suas armas no chão, e começaram a fazer uma grande ciranda e a dançar alegremente, com graciosos gestos síncronos, acompanhadas por flautas e cantos. Havia sorriso e felicidade em todo o palácio e nenhuma moça deixava de se alegrar. Jaci brilhava plena no firmamento.

Na casa real, porém, havia silêncio. As horas passavam e a festa já dava sinais de findar. A decisão fora tomada. Yara entrou em seu quarto íntimo e principiou a chorar no leito.

- Porque choras, minha rainha? – irrompeu a prestimosa Juçara.

Yara, não resistindo mais a dor de um segredo, revelou o que a afligia. O povo das Amazonas – as temíveis guerreiras – se extinguia rapidamente, o que não era fato desconhecido. Contudo, havia uma triste e terrível nova: os Botos já não apareciam há muito, e por isso, somente por isso, ela, Rainha Yara, não mais pudera anunciar o esperado tempo de acasalamento. Pois com quem haveriam de acasalar-se?

Juçara caminhou de um lado para o outro pelo quarto real, sem nada compreender.

- Minha soberana, mas se os Botos desapareceram, como foi hoje anunciado o tempo de acasalar?

 

I b i – A n h a n g ü e r a

O dia já amanhecia quando Nanbiquara e o bando de curupiras deixaram o pico de Apoena para trás. As jubas vermelhas se encontravam grandemente arrepiadas e os maiores machos disputavam um lugar ao lado de Nanbiquara, o líder. Na senda barrenta e escorregadia, ladeada de mata fechada, andaram por horas, com seu gingar bizarro. Deixando para trás suas pegadas dissimuladas, que sempre indicavam o caminho oposto ao que realmente seguiam.

Inútil estratégia! O único inimigo que sobrara, o temível Anhangüera, teria rido acintosamente - se a antiguidade não houvesse lhe roubado o humor - de tão tacanha e primitiva defesa. Os pés invertidos dos pequenos diabos, não passavam de uma piada esquecida e esgotada, cuja graça da natureza ninguém mais extraía.

Nanbiquara, contudo, guiava seu bando com destemor e ainda luzia em sua mente um pouco do conhecimento mágico dos antepassados. Uma intuitiva sabedoria o tornava mais esperto que os iguais, e em certas circunstâncias favoráveis, apto a enfrentar Anhangüera. O porte majestoso, sua espessa juba de um vermelho vivo, contribuía adicionalmente para sua dominância, mas não qual elemento decisivo, uma vez que haviam outros machos tão ou mais fortes do que ele.

Foi valendo-se de seu saber intuitivo, da sabedoria herdada dos antigos, que a certa altura da jornada, Nanbiquara, o grande arara vermelha, estancou a marcha e calou o bando de curupiras com um só gesto. A disputa entre quatro machos cessou de imediato e no silêncio que se seguiu, Pauetê Nanbiquara cerrou as pálpebras e ouviu o que pôde. Quando voltou a abrir os olhos, todos esperavam nova ordem. Anhangüera, Anhangüera vinha depressa.

O bando esperava ansioso, quase implorando uma ordem, uma ordem! Nanbiquara calmamente escolheu dois dos curupiras mais afastados de si, dois anões, e os instruiu a prosseguirem caminhando pela trilha principal, quais iscas, mas antes os fez molhar os dentes em veneno de xuatê, a cobra. A seguir, ordenou que o grupo se dividisse em duas metades. Cada qual deveria caminhar de costas até a beira do rio, usando trilhas diferentes, e lá chegando, adentrar um pouco o Solimões e depois, sem demora, subir pelos galhos curvados sobre as águas, até encontrar uma grande copa fechada. Nanbiquara esperava despistar Anhangüera com esse artifício. Já que a natureza dos pés contrários de nada mais lhes servia, fez o bando andar de costas, de modo a confundir os olhos peritos do velho diabo, que na sua arrogância irrefletida, já se tinha por senhor dos mundos.

Os curupiras se foram, e sozinho na trilha principal, Nanbiquara examinou as fileiras de pegadas que restavam no barro, suficientemente embaraçadas, suficientemente convincentes. Depois observou cuidadosamente os galhos que pendiam sobre sua cabeça e saltando bem alto, segurou num cipó forte e subiu até uma grande forquilha. Lá, escondido nas alturas, podia ver o Anhangüera passar e vigiar seus movimentos.

E Anhangüera veio. Surgiu lá embaixo, na trilha, quando o sol já estava a prumo. Seu imenso corpo era um corpo poderoso, mas de fato não era um corpo, como um corpo de curupira ou mesmo um corpo de Boto, mas apenas um de seus muitos corpos e de suas muitas forças. Ele veio resfolegando e emitindo um ronco surdo apavorante, mas Nanbiquara não se intimidava. Conhecia o poder mortífero do diabo, mas também conhecia os modos de vencê-lo, ainda que uma luta fosse apenas UMA luta.

Anhangüera parou no meio do caminho, escolhendo qual trilha perseguir. De repente o monstro amarelo voltou-se direto para Nanbiquara e começou a rumar decidido em sua direção, arrancando as árvores do caminho com furor, destruindo tudo ao redor. Quando chegou diante do mogno gigante que abrigava Nanbiquara, fez o mesmo gesto hostil, arrebanhou o tronco da árvore secular e a trouxe abaixo num instante. Nanbiquara pulou da copa do mogno e escapuliu com um esplêndido salto para a copa vizinha. Foi então que emitiu um grito infra-sônico que repercutiu pela floresta por quilômetros a fio.

O alarma não foi em vão. Reforços se puseram a caminho.

Os curupiras ouviram o grito do líder com tremor, pois sabiam que tal grito lancinante implicava uma só coisa: combate iminente! Apesar do medo e da ansiedade que perfurava suas almas rudes, o ímpeto, e a coragem de guardiões protetores da selva, falou mais alto, como através dos séculos sempre falara, ainda que pagassem com sangue, o seu próprio sangue.

Em segundos, o bando de curupiras afluiu de suas copas em alvoroço feroz, saltando através das árvores com espetacular maestria. Os dois aguerridos anões, as iscas, puseram-se de volta com todo o ímpeto de suas pernas.  

Nesse ínterim, no meio da floresta, partiam em desabalada carreira, uma vara de porcos selvagens. Os animais, grandes e assustadores, respondiam ao grito do curupira-mor, e vinham em seu socorro.

Em pouco tempo, o campo de batalha estava armado. Anhangüera seguiu consumindo a mata em sua ira cega, enquanto Nanbiquara saltava de um lado para outro, tentando escapar da morte. Quando o bando de curupiras chegou, não demorou mais que um instante para Nanbiquara ordenar um ataque maciço e frontal sobre o corpo manifesto de Anhangüera. Nisso, os primeiros porcos chegavam, oriundos de todos os lados, e se atiravam, cheios de valentia, no terrível combate.

Os dentes, todos, cravavam no corpo do diabo velho, mas ele se fazia duro como pedra e nenhum rasgo de dano era feito. Mas Pauetê Nanbiquara sabia, intuitivamente sabia, que havia um ponto fraco e nem mesmo Anhangüera era inatingível. Mergulhou com um baque violento contra os olhos translúcidos da besta, com coragem inimaginável, e viu então eles se partirem em mil pedaços. Foi só nesse momento que o diabo sangrou. Um sangue tão rubro quanto o deles, tão vermelho quanto suas jubas eriçadas; e o sol se apagou para Anhangüera. Contudo, não para Anhangüera mesmo, mas para aquele corpo amarelo que usara, que agora jazia hirto e desmaiado.

Nanbiquara urrou com selvageria, erguendo sua juba ao ponto máximo, qual imensa crista de arara, e todos os curupiras urraram em uníssono e lamberam o ar em reconhecimento ao líder. Os porcos selvagens rondavam o corpo derrotado de Anhangüera, aplicando-lhe dentadas, ainda atirando-se impetuosamente contra sua carcaça imóvel. Então, emitindo assobios, os curupiras montaram agilmente em seus lombos, sentados ao contrário, voltados para os rabos dos bichos, e seguiram novamente pela trilha principal, agora na mais feliz arruaça.

 

J a c i – O s  B o t o s

No dia seguinte Yara ainda chorava. Não só de saudade dos botos, a quem de repente amava.

Como um povo de guerreiras - que se fechara ao convívio com os homens, compondo sua própria confraria - não desejavam alianças duradouras ao copularem, queriam apenas uma noite de luxúria e prazer, além das filhas que gestassem. Os meninos destinavam às aldeias, que ficavam muito distantes, para se tornarem bravos índios Kaiapó. Yara chorava, acima de tudo, porque os curupiras estavam a caminho.

Apesar de seus esforços, Juçara não conseguira arrancar mais nenhuma palavra da boca da rainha.

Revelava a tradição, que os botos rosa habitavam as águas profundas do Solimões, sendo raramente vistos. À noite, contudo, se transfiguravam em belos e atraentes varões, que eram, além da formosura física, exímios dançarinos, natos apreciadores dos bailes, das conversas divertidas e animadas, da boa mesa e da boa bebida. Fiéis aos encontros amorosos e à arte da sedução, jamais entediavam uma mulher, porém, ao fim da noite, partiam para o rio e não mais voltavam. Na vez seguinte, lá vinham os fascinantes botos, mas com outros rostos.

Por incontáveis gerações, os botos respondiam ao chamado de Jaci, a Lua Cheia, e vinham se juntar às Amazonas e com elas acasalar. Por incontáveis gerações, os filhos dos botos enriqueceram de filhas a nação amazonense e as tribos indígenas de guerreiros. Mas agora, os botos não mais vinham e nem atendiam aos apelos incansáveis de Jaci.

Yara adormeceu exausta. Quando acordasse, invocaria Boitatá.

 

I b i – A  P o n t e  S e c r e t a

A manada de porcos vinha avançando destemida pelas trilhas da floresta. Em seus lombos duros e ásperos, os curupiras vinham galopando, ainda em algazarra e desordem. A vitória sobre Anhangüera os deixara mais agitados do que de costume e a perspectiva de atravessar a ponte e entrar no vale de Jaci, terra das Amazonas, também contribuía para os ânimos excitados.

À frente de todos, o grande arara Nanbiquara liderava o bando, montado num enorme porco, de aspecto brutal. Ao seu lado, galopando em velocidade irregular, um grupo de curupiras disputavam espaço, pois somente os mais poderosos machos, possíveis sucessores de Pauetê Nanbiquara, conseguiam se manter próximos dele. Os machos que perdiam sucessivas lutas acabavam por se submeter aos últimos lugares da cadeia hierárquica, ocupando realmente as posições mais distantes do macho dominante. Além disso, havia pelo menos mais dois fatores cruciais para que o bando de machos curupiras desejasse ocupar as posições próximas do líder. Somente os machos próximos de Nanbiquara tinham alguma chance de procriar com as fêmeas de sua propriedade. E, adicionalmente, eram os últimos machos do bando, e da hierarquia, os primeiros a serem sacrificados, porém, mesmo o último dos curupiras não deixava de ser um lutador nato.

Pois a costumeira disputa prosseguia, num empurra-empurra acirrado e barulhento, quando Nanbiquara fez sinal e o bando parou abruptamente. Nanbiquara cerrou as pálpebras e escutou o que pôde. Sim, o canto da cachoeira soava. Podia ouvir ao fundo o rumor das águas. Elevou sua juba, desceu do porco num salto e começou a adentrar a mata fechada, afastando os galhos. Os curupiras logo se puseram a segui-lo em alvoroço. Depois o grande arara emitiu um silvo alto e os porcos debandaram em retirada, voltando à vida selvagem.

O clamor das águas crescia no meio da floresta e logo o som se tornava ensurdecedor, até que, finalmente, uma nuvem de água se revelou numa clareira, encimada por um impressionante arco-íris. Olhando-se para o alto, os curupiras podiam vislumbrar a poderosa cascata descendo do céu. Uma parte do fluxo d’água se precipitava num contínuo, formando um véu que se estendia liso até se chocar contras as pedras. Outra parte do fluxo d’água jamais tocava o solo, transformando-se em milhares de gotículas que formavam vaporosas nuvens ao redor da cascata. Sob o comando de Pauetê, os curupiras começaram a entrar na piscina natural, que se formava aos pés da poderosa cachoeira, e nadaram vinte braçadas até um caminho de pedras que ficava logo abaixo do véu de águas. Chegando às pedras, os curupiras iam saindo da água, cruzando o caminho, atravessando a cachoeira e desaparecendo completamente de vista.

Nanbiquara foi o último a passar, vigiando de olhos fechados, cuidando para que nenhum intruso tomasse conhecimento do que faziam. Ao cruzar a cascata, todos os curupiras o esperavam num amplo salão de rocha. Uma caverna se descortinava, escondida atrás do véu de águas. Então Nanbiquara tomou a frente do bando novamente, enquanto as vozes dissonantes dos curupiras assomavam com redobrada intensidade no interior da caverna, somente abafadas pelo rugido estrondoso da cachoeira.

Seguindo o grande arara vermelha, o bando mergulhou na escuridão profunda da cavidade rochosa e tudo que se via dos curupiras eram seus olhos chamejantes, capazes de enxergar na mais negra das noites. A ponte estava próxima.

 

J a c i – B o i t a t á

Yara despertou revigorada. Ainda havia uma esperança. Chamou por Juçara, que veio logo atendê-la. Precisavam invocar a Boitatá, a serpente de fogo, para que ela contasse o que sucedera aos Botos. A única forma de atrair Boitatá consistia em atear fogo a um pedaço de campo ou mato e esperar que ela viesse protegê-los. A missão era arriscada, pois talvez não houvesse tempo de explicar a Boitatá as boas intenções por trás do gesto insensato. Mas, ouvindo ela ao pedido de ajuda, não negaria socorro. Juçara foi encarregada de organizar o ritual do fogo e de invocação a Boitatá, porém Yara recomendou-lhe que não arriscasse sua vida, delegando a missão às guerreiras mais valentes.

Nesse ínterim, Yara convocou as Amazonas para uma assembléia no templo palaciano. Os fatos seriam revelados. Não tardou para que a nação de mulheres estivesse reunida. Os cochichos e palpites a respeito do que a rainha falaria andavam a solta, alimentando boatos.

- Não vim falar de boatos, mas de botos! – proclamou Yara com ênfase.

As amazonas riram, felizes, congratulando-se pela proximidade do acasalamento. Yara lamentou ter de mudar o tom do pronunciamento e com voz sentida e séria pôs-se a narrar o trágico desaparecimento dos botos e o grande perigo de extinção a que estavam expostas. A nação, nitidamente, assumiu ares de luto, a medida em que Yara ia contando os fatos tais como eram. O pior momento foi quando Yara, se enchendo de coragem, referiu que os curupiras estavam a caminho, atendendo aos chamados de Jaci, a Lua Cheia. E que receber ao bando com receptividade era sua única chance de ao menos continuar existindo, ainda que compondo uma nova raça, nomeada de os Amacuru. Os curupiras também já não eram numerosos e os tempos de bonança vinham minguando rapidamente. Havia uma promessa boa: os Amacuru haveriam de herdar a valentia e a disposição guerreira dos machos curupiras, tão apreciada pelas mulheres amazonas; haveriam de herdar o gosto pela arte das amazonas, sua capacidade de tecer e criar o belo; e haveriam de herdar o espírito leal e franco dos curupiras.

Ao Yara findar seu pronunciamento, a nação estava transtornada. Por mais que a descrição dos Amacuru – filhos futuros de seus ventres e dos curupiras – mostrasse ser boa, as mulheres sentiam asco pelos curupiras, que em nada se comparavam aos magníficos botos.

Foi nesse instante que Boitatá irrompeu na assembléia, serpenteando com seu corpo em labaredas. Não estava furiosa. Vinha como quem traz grande responsabilidade. Yara imediatamente concedeu a palavra a Boitatá.

- Osss botosss... não exisssstem maisss... – falou Boitatá num lamento.

Um rumor violento percorreu a nação de fêmeas, reduzida a uma pequena multidão. Era uma convulsão de dor e revolta que contaminava os sentimentos de todas. Boitatá explicou que os Botos haviam sido exterminados pelas hordas de corpos de Anhangüera, que o perseguira incansavelmente. E mais, Boitatá temia que o mesmo destino estava reservado aos curupiras e as Amazonas, num futuro próximo.

 

I b i – O  V a l e  das  A m a z o n a s

O rio vermelho estava à frente, um rio no âmago da caverna, borbulhando lava incandescente. A ponte pendia sobre ele. Embora não fosse um obstáculo difícil para um curupira, a travessia exigia calma e organização, duas das qualidades menos destacadas nos pés invertidos. O bando se pôs a fazer a travessia em disparada, disputando espaço no estreito vão do passadiço, provocando a queda de pelo menos dois ou três curupiras no lago fervente. Nanbiquara ordenou calma, mas quando já era tarde demais. Mal a travessia da ponte terminou e o bando arremetia energicamente contra a rocha final, que vedava a derradeira entrada para o vale de Jaci, Terra das Amazonas. Nanbiquara precisou emitir um grito infra-sônico para que, finalmente, o bando se contivesse e trabalhasse em conjunto sob seu estrito comando. A pedra finalmente rolou e o maravilhoso vale anunciou a luz do sol.

 

J a c i – O  E n c o n t r o

Quando os curupiras chegaram, as amazonas os esperavam, com cerimônia gentil e hospitaleira, mas de modo algum dispostas a ceder aos chamados imperiosos de Jaci. Preferiam a morte, a extinção total. Boitatá, cumprida sua missão de ajuda, partira, e agora eram apenas os dois povos, de costumes e modos tão distintos, a se confrontar. Nanbiquara vinha à frente dos curupiras, liderando o bando com extrema dignidade, alçando sua juba ao máximo, dada a importância do momento. Yara também se postava à frente da nação de mulheres, belamente trajada, se sentindo absolutamente insegura de como o bando reagiria ao tomar conhecimento de suas sérias decisões.

Então, quando Nanbiquara ficou diante de Yara, esperando que a fêmea líder se pronunciasse, tudo que lhe ocorreu foi ficar muda, perturbada que estava. O grande arara empertigou o peito, exibindo o porte avantajado, o que não deixava de ser um movimento ridículo, uma vez que as amazonas eram muito mais altas e incrivelmente belas, contrastando em tudo com as criaturas grotescas que eles eram. No entanto, paradoxalmente, havia uma beleza selvagem nos curupiras. Como certas espécies de animais da floresta, eles também portavam uma suntuosa juba, de um colorido fabuloso, e eram fortes e ágeis como poucos. Suas faces, e especialmente os olhos chamejantes, lembravam em muito a face do Jaguar, a onça. Mas Yara não tinha olhos para isso, tudo que ansiava era começar logo a falar sobre a decisão das amazonas, mas lhe faltava coragem diante dos curupiras. Num sussurro, arriscando a sorte, pediu para conversar em particular com Nanbiquara, o que provocou de imediato um violento eriçar de jubas no bando inteiro das pequenas bestas. Os olhos de Pauetê Nanbiquara brilharam intensamente, acedendo ao convite com um sinal de aprovação. Assim, Nanbiquara e Yara se afastaram de todos e foram ter conversa numa sala do palácio. Mas antes que Nanbiquara deixasse seu bando a sós, ditou uma ordem infra-sônica, deixando claro que nenhum desrespeito seria perdoado, que eles deveriam esperar sem sair do lugar.

Na sala do palácio, Yara andava de um lado para o outro, nervosa, enquanto Pauetê a consumia de desejo com seus olhos de fera. Cansado de esperar, ele tentou chegar perto de Yara, mas ela o repeliu imediatamente, tomada de pânico. Então, o grande arara percebeu o que era evidente. Ela não o queria! Não o queria! Pauetê fechou os olhos e captou o asco de Yara. Asco! Ela sentia asco! Como podia sentir repugnância? Nanbiquara foi invadido por um amargo desapontamento. A soberba crista de sua juba murchou rapidamente e os olhos assumiram um tom escuro nunca antes visto. Derrotado e magoado, ele se sentou num banco, cabisbaixo, e apoiando a cabeça entre as mãos, chorou.

Nanbiquara podia enfrentar o maligno Anhangüera, podia ver os seus se perderem no rio de lava, podia percorrer milhas de distância e sentir os pés feridos de cansaço, mas não podia lutar contra o canto de Jaci e muito menos se ver rejeitado pela fêmea mais desejável que já vira. Se chorava em silêncio era porque ainda lhe restava coragem para isso, coragem para se expor na dor e na derrota. Era o choro de um bravo que ousava amar, ainda que tal amor fosse como o dos animais brutos.

Não sabendo o que fazer, mas impressionada pela manifestação dos sentimentos de Nanbiquara, Yara buscou se aproximar dele.

- Porque choras Rei dos Curupiras? – indagou ela, suavemente.

Seria esperar demais que o líder dos curupiras confessasse suas dores à fêmea, mas ele a tocou no braço e fez fluir sua consciência através de Yara, de modo que sem mais palavras ela pôde saber o que ele sentia e conhecia. Foi então que Yara, lábios doces, enternecida pela infeliz sorte de seu povo e dos curupiras, acariciou a juba vermelha de Nanbiquara, movida por intensa compaixão, e beijou sua fronte. Nesse instante a noite já principiava e o canto belíssimo de Jaci começou a soar. Yara, por obra de Jaci, se viu transportada pela Lua Cheia para o alto do pico Apoena.

Por um momento Yara sentiu frio e medo. Estava colada rente à parede da assustadora senda vertical. Seu corpo esguio e harmonioso, a um só tempo forte e delicado, começou a elevar-se através das rochas com graça e beleza. Pauetê Nanbiquara, o Curupira-Rei, a seguia. Ele sentia sua grande excitação aumentar à medida que se aproximava mais e mais da fêmea. Yara alcançou o pico do monte e num instante sumiu da vista de Nanbiquara. Ele continuou escalando, ansioso, com cuidado redobrado, empregando ao máximo a precisão de sua densa massa de músculos.

O curupira se aproximava lentamente da magnífica guerreira. Ele venceria o paredão com extrema agilidade, se assim o quisesse, mas conhecedor do temperamento arisco das Amazonas, vigiava para que nenhum grão de pedra o impedisse de alcançá-la. Havia um só objetivo ardendo em sua mente: Procriar! Procriar com Yara, a Rainha!

Yara, chegando ao pico, inspirou profundamente e abriu os braços, expandindo sua consciência, deixando-se invadir por um maravilhoso sentimento oceânico, de à natureza pertencer e dela fazer parte. Quando Nanbiquara apontou na laje de pedra, ela ainda estava de olhos fechados, mas antes que ele pudesse tocá-la, descerrou as pálpebras lentamente e não ofereceu resistência alguma.  

- Pauetê... – chamou Yara, voz lânguida.

O Rei dos curupiras estava surpreso, como poucas vezes estivera na vida, mas não levou mais do que alguns instantes para voltar a si e iniciar o rito amoroso em toda a sua plenitude. O amor de um Curupira e de uma Amazona desabrochava no alto do Apoena, sob a benção de Jaci.

Se Pauetê Nanbiquara era fogo e sede, Yara era fonte e desejo. E o pequeno Curupira em tudo satisfez à graciosa Yara. E Yara em tudo soube agradá-lo. Nada faltou.

 

I b i  &  J a c i –  A   E s p e r a

O bando de curupiras já dava sinais de franca rebeldia. A demora do retorno do líder anunciava o nascimento de um novo Rei, que se insurgia, ameaçando os mais fracos e vencendo os oponentes. Porém, quando Nanbiquara voltou acompanhado de Yara, todos souberam o que havia acontecido entre os dois e os ânimos rebeldes sossegaram. O curupira-Rei não era mais o mesmo. De olhar transcendente, era agora Senhor de uma sabedoria ancestral ainda mais influente, e Yara, da mesma forma, não era mais a mesma mulher. Senhora de um olhar radiante e de uma compreensão além das fronteiras; sorria em paz. Embora ainda fossem um par destoante, ele fera e intuição selvagem, ela elegância e doçura, uma nova nação estava a caminho e o filho da junção de Ibi e Jaci nasceria. Uma nação unificada! Nove meses de espera para o surgimento do primeiro rebento de uma nova raça, um novo povo para semear e se multiplicar: os Amacuru!

Tendo a Rainha cedido ao canto de Jaci e tendo se permitido amar a Pauetê Nanbiquara, o Rei dos curupiras, não foi difícil de outras amazonas experimentarem o amor. A união dos opostos não foi em vão, e o amadurecimento e a concórdia floresceram no vale oculto. Os ventres fecundos aninhavam os rebentos e a nação aguardava com grande expectativa os primeiros nascimentos, como sementes renovadas de um povo quase extinto. Anhangüera ainda rondava, aterrorizando e procurando a quem destruir, mas agora havia mais pelo que esperar.

 

Marta Rolim
    
                                                                         

 

 

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