TESTEMUNHO

"VÓS SEREIS AS MINHAS TESTEMUNHAS" (At 1,8)

O próprio Jesus ensinou -nos a importância de sermos testemunhas vivas de seu Evangelho. Então, aqui é o espaço para missionários, evangelizadores, religiosos deixarem seu exemplo, sua experiência. Mande o seu também para nosso e-mail

AMOR A CRISTO RETRATA MISSÃO DE UM JOVEM

"Bororó, é o nome regularmente dado pela população branca à nação indígena que hoje se encontra disseminada em pequenas aldeias na faixa sul do Mato Grosso e que antigamente dominava grande parte do Centro Oeste brasileiro. A palavra bororo significa pátio, praça, aldeia. A nação indígena, a qual estamos referindo, autodenomina-se também Bororo, aceitando o nome já consagrado na língua nacional e em outras línguas. A nação bororo está dividida em duas metades exogâmicas: os eceral (os fracos) e os tugarege (os fortes). Cada metade conta de quatro clãs, e cada clã de dois ou mais sub-clãs ou famílias. Esta estrutura se reproduz na localização das casas nas aldeias e acampamentos, na colocação das pessoas na casa central e no pátio, na colocação das cestas funerárias no cemitério, assim como em toda maneira de agir e de pensar bororo.
No âmbito de toda a nação bororo os membros de cada um dos oito clãs formam uma fraternidade, pela qual se reconhecem e se aceitam como membros da mesma família, onde quer que se encontrem. Dentro de cada clã, há uma comunhão de bens culturais (nomes, cantos, rituais, pinturas, enfeites, seres da natureza) que só podem ser usados pelos membros desse determinado clã, a não ser que este direito seja participado a outras pessoas em pagamento (mori) por favores recebidos. Os filhos fazem parte do clã da mãe para efeito de nomeação e herança cultural (sistema matrilinear). As relações sociais funcionam na base de troca de pessoas e mútua prestação de serviços basicamente entre as duas metades
exogâmicas. Na tradição bororo, os nomes próprios das pessoas falecidas não costumam ser
pronunciados.Para a nação bororo, o que dá sentido e unidade a toda a história, é Pemo ( Deus). Por isso toda
história do povo bororo deve ser interpretada a luz da fé. Dos quase 100 anos (que completará em 2002)
da presença missionária junto a nação bororo, cito a pessoa do Pe. Gonçalo Ochoa, religioso salesiano, que há 40 anos se faz presente em Meruri (aldeia que residimos). Homem simples e humilde,colombiano, que em todo este tempo se dedica ao estudo da cultura e da língua, ele é testemunha viva da luta do povo bororo pela posse da terra como condição de sobrevivência, externa a verdadeira postura do missionário e tenta evangelizar a cultura bororo a partir dela mesma, possibilitando que a presença de Cristo a torne mais forte, mais vigorosa e o povo, mais identificado com a sua cultura.
Pe. Ochoa é autor de várias publicações, com o auxílio dos próprios bororo padronizou o alfabeto ortográfico, tradutor da Bíblia para a língua bororo,assim como cantos e outros. Hoje, a comunidade religiosa é composta de quatro salesianos: Pe. Francisco Lima (diretor) com 34 anos,Pe. Ochoa (70 anos), Ir. Umberto (72 anos) e eu, André Afonso (23 anos); e quatro salesianas e uma voluntária leiga chamada Agripina que chegou aqui ainda menina há 60 anos atrás e hoje, tem seus 72 anos. A comunidade indígena aqui de Meruri é de mais ou menos 400 bororos. O trabalho dos missionários e missionárias salesianos é no campo pastoral e educacional. Para mim, o trabalho missionário é um novo
desafio. Cheguei a esta comunidade em fevereiro deste ano, estou me adaptando a nova forma de vida. Já conhecia a realidade localpor passar um mês de férias em 1998 e nos anos anteriores, por ter passado rapidamente em passeio. É uma realidade nova como já disse, com pontos positivos e negativos, mas ao mesmo tempo, está sendo uma experiência rica, dotada dos dons do Pai.Recebí a obediência de vir para cá em dezembro do ano passado, não acreditei, não esperava por não ser o meu desejo. Gosto muito de trabalhar em paróquias "normais" com os contatos que a cidade nos oferece e demorei a acreditar que faria parte de uma comunidade missionária, de uma paróquia indígena, tendo que aculturar-me e olhar
para Pemo não como um novo olhar, mas de um novo modo.A história do povo bororo não é mais a mesma
desde o seu início. Passa por transformações. O contato com os Braido (não índio), que não contribuem com sua cultura, os tem levado à bebedeira e a desestruturação familiar e até mesmo à perdado gosto pela origem cultural e sua língua.
Tento fazer também a minha parte para que os costumes culturais continuem vivos e vivenciados,refletindo com os mesmos, a respeito da importância de seu povo e ancestrais, nas minhas aulas, no acompanhamento pedagógico e no contato pessoal com as crianças, adolescentes e jovens bororos."

André Afonso Vilela

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