Quando mais jovem, e as poesias simplesmente eu lia, (e ficava admirando) tentava
imaginar o que se passava na cabeça de um poeta ao escrever tão belas "construções".
Mergulhava dentro de mim e também centro de cada livro, de cada folha, de cada poesia,
tentando sentir algo que hoje eu sei nunca poderia e nunca poderei sentir.
Não digo pois que não haja o que ser sentido em uma poesia. Há sim e muito. O que digo
então é que quem deve sentir não é o poeta e sim o seu leitor. Uma poesia pode ter milhões
de entendimentos, de sentimentos. Cada um a verá de um jeito e sentirá as mais diversas
sensações. Devemos sentir, contemplar a poesia, porém não devemos tentar entender o seu
criador, o Poeta.
Ele é inintendível, abstrato aos nossos sentimentos.
O Poeta cria o seu mundo e o mantém inviolável pois todos precisamos de privacidade,
precisamos até mesmo (nem que seja pouco e intermitente) de ficarmos sozinhos. O Poeta é
sozinho, solitário. O mundo do Poeta é completamente diverso do mundo do seu "eu"
realista, do seu "eu" humano. O Poeta vive na solidão e é nesta solidão que ele escreve o
mundo, que ele convive com milhares de pessoas, que ele é quem ele quer ser. E querendo
ele se transforma, vira rio, montanha e mar; fica sozinho, acompanhado e até esquecido;
faz-se feliz, triste e também indiferente; odioso, natural e apaixonado. No mundo do Poeta
tudo é permitido.
Tudo??? Não nem tudo. No mundo do Poeta, onde é simples mudar a paisagem, o
sentimento, nem tudo é permitido. No mundo do Poeta, não se pode ser humano.
Porque não? Porque o ser humano não sabe viver, porque o ser humano é incapaz de
preservar o próprio mundo.