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"Não somos góticos"
ANASTÁCIO NETO (TEXTOS)
Vestido de preto, com um sorriso de criança e um gélido
olhar azul, Ville Valo, o jovem finlandês de 24 anos que é
a imagem dos HIM, confessa-se apaixonado por Elvis. Em entrevista ao COMERCIO,
mostrou-se desejoso de construir uma carreira sólida e duradoura,
vazia de pretensões góticas ou manias de grandeza.
"O Comércio do Porto" - Enquanto compositor, como e
que define e sente a música dos HIM?
Ville Valo - Posso defini-la como rock sentimental. Mas definir é
uma tarefa que depende muito do que ouves. Se ouvires Elvis Presley com
muita atenção vais certamente notar a influência da
sua sonoridade nos nossos discos, mas se passares muito tempo a ouvir
outros estilos de rock também podes fazer alguns paralelismos.
Sinceramente, sinto a música dos HIM de forma muito pessoal. Para
mim a música não é um estado de espirito mas uma
forma e expressão.
CP - A versão do "Wicked Game", de Chris Isaak, foi
o primeiro grande sucesso dos HIM, Escolheram esta música por gostar
dos ambientes soturnos e esquizofrénicos de David Lynch?
VV - Sim, em parte. Ouvi "Wicked Game" pela primeira vez no
filme "Coração Selvagem", em 1995. Sabes que quando
uma banda está a começar não tem muito material próprio,
pelo que é comum fazer versões de outras músicas.
Gosto desta canção em particular por ser muito melódica
e melancólica.
CP - O vosso segundo trabalho, "Razorblade Romance", é
marcadamente mais gótico do que o anterior- as músicas apresentam.
um ambiente de tendências depressivas. As raízes da música
tradicional finlandesa estão de alguma forma presentes no ambiente
desse vosso registo?
VV - Sim definitivamente. A tradição finlandesa é
muito melancólica. Mas, sinceramente, nunca gostei muito que caracterizassem
a nossa música como gótica. Não nos consideramos
uma banda marcadamente gótica.
CP - Prepara-te, pois daqui por umas horas vais certamente encontrar
centenas de jovens góticas no teu concerto-
VV - Sim, mas não me vou surpreender. Existem muitos tipos de pessoas
que gostam da nossa música. Penso que fomos abençoados,
pois nos concertos encontramos amantes de rock vestidos de negro, pessoas
que gostam mais de pop, crianças, adultos e avós.
CP - Se tivesses de seleccionar o teu público quem escolherias?
VV - Crianças de cinco anos.
CP - Tão novos porquê?
VV .Porque as crianças são sinceras e dizem-te sempre quando
é que estão a gostar. Não iriam aos concertos para
estar na moda, para se poderem vestir desta maneira ou daquela ou por
qualquer ideologia que esteja por trás.
CP - Neste último trabalho "Deep Shadows and Brilliant Highlights",
os HIM colocam de lado ambiente gótico e apresentam um rock FM
com texturas glam. Foi por pretenderem conscientemente este tipo de sonoridade
que trocaram o Rockfield Studio de Gales e o produtor John Freyer e regressaram
à Finlândia para gravar com Kevin Shirley (produtor de Bon
Jovi e Aerosmith?
VV - Sim. Nós não somos os AC/DC, não queremos gravar
todos os álbum com a mesma sonoridade. Vamos crescendo e os nossos
estados de espírito mudam. A nossa música é pessoal
- tudo o que me afecta a mim afecta a sonoridade -, mas nada é
premeditado. Quando fizemos o "Razorblade Romance" atravessávamos
alguns problemas (banda esteve quase a desfazer-se). Foi um álbum
muito complicado. Neste último disco a química estava ao
máximo e toda gente sentiu muita alegria em gravar. Mudámos
de produto porque, de facto, pretendíamos um som diferente. No
entanto não ando atrás dum álbum que seja um sucesso
imediato. Estou mais interessado em fazer uma carreira, certamente com
altos e baixos, mas que me possibilite chegar aos 50 ou 60 anos, olhar
para trás e ver que deixei algo feito. Um pouco como o Neil Young.
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