Europa Lidera Investimento Mundial
As empresas estão a ser compradas e vendidas a uma escala sem precedentes. As fusões e aquisições internacionais são a forma dominante de investimento directo estrangeiro, que sofreu, contudo, uma quebra de 80 por cento em Portugal. A União Europeia é o maior investidor mundial e os EUA o maior receptor desse fluxo, o que constitui uma das causas da depreciação do euro face ao dólar. África permanece esquecida: recolhe apenas um por cento do total investido no mundo...
O investimento directo estrangeiro (IDE) mundial poderá atingir já em 2000 a barreira do trilião de dólares (227 mil milhões de contos), depois de ter crescido 16 por cento em 1999, registando um volume recorde de 196,3 mil milhões de contos. As fusões e aquisições internacionais são o motor deste fluxo global e a face mais visível da globalização. Este "boom" do IDE concentra-se, contudo, numa dezena de países desenvolvidos e indústrias, sendo liderado pela União Europeia (UE). Os EUA assumem-se como principal destinatário do IDE, devido às mega-fusões e aquisições de multinacionais americanas pelos europeus, razão que concorre para a actual depreciação do euro face ao dólar.
Este fluxo desviou-se, contudo, de Portugal que, pela primeira vez na última década, viu reduzido o valor acumulado das participações estrangeiras duradouras no país. Em 1999, o IDE em Portugal reduziu-se em 78,6 por cento e o volume de investimento nacional no exterior caiu 6,9 por cento, consolidando ainda assim a posição de investidor líquido no estrangeiro alcançada em 1998. Depois das avultadas aquisições dos grupos nacionais no Brasil, Polónia e outros mercados emergentes, protagonizadas pela PT, EDP, CGD, Sonae ou Jerónimo Martins em 1998, as aquisições no estrangeiro registaram uma quebra de 70 por cento em 1999. Em espanha, a queda de captação de IDE foi de 12 por cento.
Estas são as principais conclusões do relatório anual do Investimento Mundial, divulgado ontem pela Conferência das Nações Unidas de Comércio e Desenvolvimento (CNUCED).
Tendo crescido a uma taxa anual de 42 por cento nas duas últimas décadas, diz o relatório que as fusões e aquisições internacionais são hoje responsáveis por mais de quatro quintos do fluxo de investimento mundial. Para defender as posições competitivas no mercado globalizado, esta é a forma mais rápida de uma multinacional adquirir activos no estrangeiro. Enquanto dez países desenvolvidos recolheram, em 1999, 74 por cento do total do investimento das multinacionais, o resto do mundo alheia-se ainda desta tendência, recolhendo fluxos de IDE marginais, ainda sob a modalidade tradicional de investimentos de raiz.
A opção das multinacionais pelas fusões e aquisições em detrimento dos investimentos de raiz prende-se com objectivos estratégicos empresariais - diversificação, novos mercados, sinergias - e alterações estruturais - aumento dos custos em investigação e desenvolvimento, liberalização dos mercados de capitais, desregulamentação comercial e financeira.
Com 45,1 mil milhões de contos, as multinacionais britânicas são as maiores investidoras estrangeiras, seguidas pelas dos EUA. A liderança da UE como maior investidor mundial foi reconfirmada em 1999, com os fluxos para o exterior a crescerem pelo sexto ano consecutivo. Só o Reino Unido garante 39 por cento do investimento da UE, seguido pelas multinacionais francesas, alemãs e holandesas.
Em contrapartida, os EUA recolhem a maioria do IDE. O Reino Unido é o seu principal investidor, financiado a UE quatro em cada cinco fusões e aquisições nos EUA em 1999. Do lado oposto está o continente africano, que absorveu apenas um por cento do IDE mundial.
Sectorialmente, as aquisições e fusões verificam-se maioritariamente na indústria química, electricidade, equipamento electrónico, produtos petrolíferos e construção automóvel. No sector terciário, privilegia-se as telecomunicações e o sector financeiro.
Para atenuar os riscos nas economias nacionais da nova forma predominante de IDE - perda de soberania, fraco investimento tecnológico, concentração monopolista -, o relatório anual da CNUCED termina com uma advertência: as crescentes fusões e aquisições das multinacionais exigem uma idêntica internacionalização das políticas de concorrência