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Resenhas de Babel
Existe uma filosofia isl�mica? Alexandre Gomes "O impulso desta reconquista [dos temas da filosofia peripat�tica pela filosofia isl�mica], por�m n�o se limita a retomar e retransmitir - o que por si s� n�o seria um pequeno m�rito, essa retomada � tamb�m prolongamento, elucida��o, cria��o" (Fernand Braudel, Gram�tica das Civiliza��es) Albert Hourani, no seu "Uma Hist�ria dos Povos �rabes" destaca que: "As especula��es dos fil�sofos eram encaradas com desconfian�a por algumas escolas religiosas e alguns soberanos, mas outras formas de usar a raz�o para elucidar a natureza das coisas despertavam menos suspeitas e tinham usos pr�ticos". Tanto que de todos os fil�sofos propriamente ditos, o �nico que gozar� de vasto prest�gio e aceita��o apesar da ousadia de suas id�ias ser� ibn Sina, n�o tanto por sua filosofia, mas pelo seu papel fundamental como m�dico e cientista. A pr�pria refer�ncia de Dante a ele, embora colocada dentro da "filosofica famiglia" (Canto IV, 120 a 148), parece estar se referindo mais a sua atua��o como m�dico, j� que o coloca junto com Galeno e Hip�crates. Mas se for deixando de lado este uso estrito da classifica��o de fil�sofo limitada ao pensamento dito especulativo, a lista de fil�sofos mu�ulmanos cresce muito. Um dos grandes pontos de diverg�ncia entre aqueles que enaltecem ao extremo a import�ncia da filosofia isl�mica e aqueles que lhe atribuem no m�ximo a fun��o de transmiss�o do conhecimento grego parece ser derivado justamente desta incompreens�o sobre qual o uso que est� se dando ao termo "filosofia". H� tamb�m um importante elemento, t�pico da estrutura social isl�mica "cl�ssica", que n�o pode ser desprezado nesta an�lise. N�o h� uma "profiss�o" filos�fica entre os mu�ulmanos, ou uma situa��o tal que os permita se dedicarem exclusivamente � filosofia. Sem exce��o os pensadores mu�ulmanos s�o juristas (faqh) ou te�logos ('alim), alguns ocupam as importantes fun��es de juiz (c�di) ou jurisconsulto (mufti), quase sempre atuam como conselheiros ou diplomatas das cortes e n�o s�o raros os que tem atividades comerciais. Os pensadores isl�micos s�o em geral membros da elite comercial (Hourani chega a usar o termo "burguesa") e herdeiros de uma longa tradi��o familiar de erudi��o e cargos. Tem todos eles uma educa��o esmerada, mas geralmente tradicional e voltada sobretudo para a forma��o religiosa. Esta educa��o � em geral um meio termo entre o estilo da Academia e do Liceu gregos e as universidades da Renascen�a, baseia-se sobretudo no estudo de textos e exerc�cio do debate dial�tico junto a um mestre - primeiro junto as colunas das mesquitas, depois em institui��es espec�ficas voltadas para a educa��o, as madrassas. De certa forma o pensamento isl�mico do per�odo tamb�m est� passando por uma transi��o, iniciada j� na fase helen�stica, na qual a filosofia come�a a dar forma �s ci�ncias particulares e a incorporar-se � t�cnica, processo que culminaria, no ocidente, com a revolu��o cient�fica da Idade moderna e contempor�nea e para a qual a Filosofia Isl�mica deu uma contribui��o significativa ainda pouco reconhecida. O Fil�sofo mu�ulmano � tamb�m um cientista e em alguns momentos mesmo um t�cnico - como o m�dico ibn Sina. Ele, com raras exce��es n�o est� preocupado s� com filosofia, mas tamb�m com a matem�tica - campo no qual as contribui��es �rabes como a �lgebra e a trigonometria s�o ineg�veis -, astronomia, medicina, farm�cia, geografia, qu�mica, �tica, engenharia, arquitetura e muitas outras �reas nas quais as contribui��es originais ou de s�ntese dos mu�ulmanos � extremamente significativa. � tamb�m um s�bio religioso, conhecedor da teologia, exegeta do Alcor�o, int�rprete da jurisprud�ncia isl�mica (shari'ah) e n�o raro um m�stico (sufi), preocupado com as dimens�es esot�ricas do conhecimento religioso e praticante da �xtase m�stica. � igualmente n�o raro poeta e pol�tico, homem de Estado que ao contr�rio dos gregos intrometem-se nas disputas intestinas das cortes que, tamb�m ao contr�rio dos gregos, n�o s�o assembl�ias democr�ticas mas ambientes onde impera uma autoridade absoluta. Em geral as obras desses s�bios s�o enciclop�dicas, como retrata bem a Muqqadimmat de Khaldun cujas mais de mil p�ginas n�o s�o sen�o um "pref�cio" a um texto infinitamente maior. Vivem eles ent�o um conflito entre um conhecimento que come�a a se diferenciar e se partir e a pretens�o de abarc�-lo todo, dilema que por si s� limita os s�bios reconhecidos a uma certa dose de genialidade para ser capaz de ostentarem tal t�tulo. H� contudo uma especificidade que d� interesse especial � filosofia isl�mica estritamente falando, lhe define o contorno, o objeto e os m�todos, uma caracter�stica que permite a Louis Grandet e Fernand Braudel responderem afirmativa � quest�o: "Existe uma filosofia isl�mica?". E essa especificidade pode ser obtida sobretudo naquela filosofia especulativa, � a tentativa de conciliar o legado peripat�tico grego a uma cosmovis�o, uma "Weltanschauung" fortemente monote�smo. �, enfim, este esfor�o de reconstruir o pensamento grego para que ele "coubesse" dentro do Islam, se harmonizasse com a Verdade Revelada, que dar� a ess�ncia do car�ter da filosofia grega. � em fun��o desta tem�tica que se limitou a sele��o dos autores que ser�o analisados na sequ�ncia. |
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