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Dois Brasis Virtuais: os backbones que n�o se falam
Silvio Lemos Meira
Acho que todos sabem que o Brasil tem duas grandes infra-estruturas de rede Internet, a MCI/Embratel e a RNP. Na primeira, est�o as empresas (o ".com") e quase todos os provedores de acesso. Na segunda, est�o o ensino, a pesquisa, o governo e as ONGs, desde o Centro de Previs�o de Tempo e Clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE), que tem tudo sobre as chuvas e trovoadas do Brasil, at� o Departamento de Inform�tica da UFPE, onde h�, por exemplo, um curso inteiro sobre Orienta��o a Objetos e Java, que voc� pode at� tentar acompanhar pela rede.
Exatamente pelo fato da Internet ser uma "rede de redes", � preciso que haja conectividade entre as redes que dela fazem parte. A utilidade e gra�a de uma rede "fechada", que s� cobrisse, por exemplo, o Brasil, seria muito menor do que a da rede que temos hoje, ligada ao mundo todo. Da mesma forma, se s� um ou outro estado estivesse na rede, seus parceiros virtuais seriam locais ou internacionais. Se, ao inv�s de ouvir a R�dio Eldorado, em Recife, s� pud�ssemos ter a Virgin Radio, n�o ia ser a mesma coisa...

Pois bem: como o pa�s tem mais de um backbone (ou espinha dorsal de rede), eles t�m que trocar tr�fego em algum lugar, de prefer�ncia em muitos lugares, pois a maior parte da intera��o feita a partir do Brasil � entre pessoas e institui��es brasileiras. As rela��es, ainda que virtuais, t�m um alto grau de localidade, como se pode imaginar. � muito prov�vel que o n�mero de interessados em uma fonte de not�cias de S�o Jos� dos Campos, SP, seja maior l� mesmo do que entre os que moram em Pesqueira, PE.

Isso muda muito se houver algum servi�o de amplo interesse em S�o Jos�, o que � o caso: entre outros, o INPE fica l�. Mas o INPE est� no backbone da RNP e a maior parte dos internautas, inclusive os que gostariam de saber se vai ou n�o chover no interior do Nordeste, onde est� Pesqueira, habita o backbone da MCI/Embratel.

A� � onde est� o problema: testes feitos pelo Centro de Estudos e Sistemas Avan�ados do Recife (CESAR) mostram que, no hor�rio comercial, de segunda a sexta, cerca de 50% de todos os pacotes que saem de um ponto na RNP para outro, na MCI/Embratel, se perdem. Na rede, a informa��o � transmitida em sequ�ncias de bytes (oito d�gitos bin�rios; algo como 01000111) chamadas pacotes: neles est� a informa��o que se transforma em texto, som e imagem nos nossos browsers.

Veja o que isso pode significar para quem est� tentando fazer algo de �til, entre backbones brasileiros, no hor�rio de trabalho: entre 12 16 de abril deste ano, uma dada p�gina, vinda da MCI/Embratel, no Rio, levava menos de 20 segundos para ser mostrada integralmente em Recife, na RNP, �s 3 da manh�. A mesma p�gina, �s 4 da tarde, levava entre 5 e 18 MINUTOS! Uma transa��o qualquer que precisasse de 10 destas p�ginas poderia levar 3 HORAS, ao inv�s de 3 minutos, inviabilizando qualquer tipo de utiliza��o pr�tica da rede entre os dois backbones.

Mas pode ser muito pior: o estudo mostra que Recife est� mais longe do Recife do que dos EUA! Para p�ginas recifenses que est�o na Embratel, quem est� na RNP sofre uma perda de 60 a 80% �s quatro da tarde. Para os EUA, perde-se de 30 a 40%. O mesmo vale para S�o Paulo, Rio, Minas e onde mais voc� estiver. Os dois backbones est�o a�, mas ou n�o se tocam ou trocam muito pouco tr�fego em rela��o � demanda.

A falta de pontos de troca de tr�fego (PTT) devidamente espalhados pelo pa�s cria uma severa dificuldade para a educa��o, a pesquisa e o governo brasileiros conversarem com o resto do pa�s e vice-versa. E todos perdem, e muito. A MCI/Embratel poderia, a custo muito baixo para si pr�pria, resolver o problema sediando PTTs nas suas bases nas principais cidades brasileiras e conect�-los � RNP.

Fazendo isso, a MCI/Embratel criaria mais tr�fego para empresas que est�o no seu backbone e possibilitaria que tudo o que est� na RNP chegasse mais r�pido aos usu�rios ligados a provedores que s�o seus clientes. Seria um servi�o de utilidade p�blica que, de resto, aumentaria a velocidade de crescimento da rede e o faturamento da operadora, monopolista na comunica��o a longa dist�ncia. Por enquanto.



Silvio Lemos Meira, 44 anos , � Professor Titular de Engenharia de Software do Departamento de Inform�tica da UFPE, em Recife, e Presidente da Sociedade Brasileira de Computa��o

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