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Distopias totalit�rias
Alexandre Gomes "A obedi�ncia n�o basta, a menos que a ordem produza sofrimento, como podes ter certeza de que ele obedece a tua vontade e n�o a dele pr�prio? O Poder reside em infligir dor e humilha��o. O Poder reside em esmigalhar c�rebros humanos a tornar a mont�-lo da forma que se entender" (George Orwell, 1984) 1984 provavelmente � a mais sombria das previs�es de futuro jamais tra�adas pela literatura. Mesmo outros textos amargos como "Admir�vel Mundo Novo" de Huxley ainda guardam o papel de protagonista a um "her�i", mesmo que absolutamente quixotesco e igualmente demente. J� o texto de Orwell � puro horror, pura sombra, degrada��o absoluta que culmina na perpetra��o de um ato cruel pelo pr�prio protagonista na suprema aniquila��o de qualquer tra�o de humanidade. No mundo do Brave New World a esperan�a � remota, mas existe, em 1984 n�o existe alternativa sen�o a humilhante adora��o do Grande Irm�o ao qual deve ser sacrificado at� o mais �ntimo prazer, at� a �ltima c�lula de humanidade. Huxley fala de um futuro no qual o objetivo � consumir, Orwell fala de um futuro onde se tenta evitar o consumo a qualquer custo. Mas nos dois existe o monstruoso e minucioso esfor�o para banir o sentimento de humanidade, em especial o amor e ainda mais o relacionamento baseado no sentimento. Mas os dois textos sobre o futuro, t�o semelhantes e t�o diferentes, tem uma import�ncia para o presente que transcende o mero prazer da leitura. N�o � curiosidade, � quest�o de sobreviv�ncia para todos n�s. Tais mundos s� se tornar�o poss�veis no futuro se no presente n�o erradicarmos as sementes dele que come�am a brotar. Os dois livros foram tidos como anti-comunistas. � bem verdade que Orwell baseou-se longamente na finada Uni�o Sovi�tica Estalinista para criar n�o s� 1984 como Revolu��o dos Bichos (Animal Farm). Mas a obra n�o prescreve pelo fato do totalitarismo sovi�tico ter so�obrado. J� em rela��o a Huxley a acusa��o parece infundada. Os dois cen�rios parecem ter fracassado, ao menos por enquanto, justamente pelo que deveria ser a sua alma: a sutileza da domina��o. Por mais sutis que seja a doutrina��o dos embri�es em BNW ou a sistem�tica reescrita do passado e imposi��o da Novilingua - na qual a rebeli�o sequer poderia ser expressa - em 1984, nenhum dos dois m�todos tem a sutil efici�ncia que tem, j� hoje, o poder da m�dia. Ainda que neste ponto Orwell pare�a ter acertado mais que Huxley, afinal ainda nos prim�rdios da teve do final dos anos 40 pode antever as onipresentes teletelas controlando os homens, Huxley, que publicou seu livro em 1932, parece ter sido mais exato ao prever uma sociedade de consumo desenfreado e in�til, a absoluta futilidade dos sentimentos, largamente compensada por entorpecentes. A mistura dos dois parece terr�vel, uma sociedade na qual as pessoas s�o controladas sem se darem muita conta por uma m�dia que lhes diz a todo instante o que fazer e o que pensar. Uma sociedade onde consumir � tudo e sentir � nada e na qual j� n�o existe espa�o para os relacionamentos de amizade e muito menos de amor. Uma elite c�nica que dirige tudo sem se preocupar de ter de justificar o exerc�cio do poder, que finalmente admite que det�m o poder apenas pelo poder, como meio e n�o como fim (outro ponto de contato entre as duas obras). Os poucos que conseguem enxergar o que ocorre sendo considerados "loucos ou exc�ntricos" porque ousam ser s�os em uma sociedade de loucos ("a loucura � uma quest�o estat�stica", repete-se Winston Smith, protagonista de 1984). O problema � que este cen�rio n�o est� no futuro, n�o se trata de previs�o, trata-se de realidade, de coisas que j� est�o acontecendo. Com a efici�ncia e a sutileza jamais imaginadas por nenhum dos dois autores, a ponto das suas previs�es terem virado pouco mais que curiosidades liter�rias, da maioria das pessoas ser capaz e ler mas N�o de enxergar o quanto daqueles cen�rios j� est�o transpostos para a realidade. S� uma quest�o realmente interessa, ainda haver� tempo de mudar este futuro antes que ele altere nosso passado e torne-se eterno? Alexandre Gomes � editor do Primeira P�gina |
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