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Di�rio do Front
A literatura do assombro de Borges Alexandre Gomes Agosto certamente ser� um m�s no qual todo mundo vai ouvir, e muito, falar de Borges j� que o m�s marca o centen�rio do nascimento do autor. Infelizmente Borges � daquele tipo de autor cujo n�mero de leitores � inversamente proporcional ao de comentadores. Tamb�m � um autor muito imitado, mas daquele tipo de imita��o grosseira que mais se assemelha a uma caricatura. Tudo que em Borges � natural e original soa como pedante e "deja-vu" nos outros, e falo sem remorsos porque incluo muito do que escrevi nesta categoria caricata. A imensa erudi��o de Borges, que nos seus textos � algo suave a ponto de parecer casual, soa nos outros como um texto tirado de enciclop�dia antiga. O estilo rico em inova��es de Borges se transforma, quando caricaturado por outros, em desculpas para esconder a ignor�ncia das regras do bom texto. As hist�rias assombrosas de labirinticas de Borges v�em-se transmutadas, quando copiadas sem os devidos m�ritos, em argumentos para uem � incapaz de contar uma simples hist�ria. Mas o mais grave de todas estas mudan�as � o pseudo-hermetismo - eterna desculpa para quem n�o � incpaaz de atrair p�blico - que os leitores r�pidos e superficiais criam nas pr�prias obras. Por mais que se diga o cotnr�rio, Borges jamais escreveu apenas para uma meia d�zia de iluminados. Ainda que a erudi��o ajude muito a entender melhor Borges, mesmo as suas fantasisas mais metaf�sicas s�o acess�veis ao leitor comum. Ao assombro que Borges disse que a Literatura n�o podia prescindir o autor ajuntou uma coer�ncia e clareza que torna o objeto mais inusitado ganhar realidade, mesmo sem grandes e exaustivas descri��es. As refer�ncias ap�crifas e camufladas ao longo do texto existem e dificilmente algu�m seria capaz de identificar todas. Mas mesmo sem as conehcer � poss�vel apreciar o texto proque ele tem valor por si mesmo. Nas m�os dos imitadores in�beis este processo de refer�ncias transformou-se em pouco mais de uma colagem grotesca, uma desculpa para transformar tesoura e cola em ferramentas liter�rias que no extremo faria com que dentro de duas ou tr�s d�cadas a literatura desaparecesse. Borges, por qualquer motivo inexplic�vel, tamb�m tornou-se um dos �cones da med�ocre gera��o de iconoclastas da literatura atual. A associa��a � certamente inusitada, at� proque ao contr�rio de qualquer outra gera��o de iconoclastas anteriores - que conehciam bem os �cones eu destruiam - os atuais tntam acabar com os cl�ssicos para n�o terem de fazer o dever de casa. � a ignor�ncia, n�o o desejo de inovar, que move boa parte das novas safras de escritores do mundo. Curioso que digam se espelhar em Borges j� que t�o poucos chegaram a se debru�ar sobre os cl�ssicos empoeirados quanto o autor argentino. Borges certamente foi um dos �ltimos grandes escritores que o mundo viu, ainda que seu estilo vibrante e intenso jamais tenha lhe permitido escrever mais do que contos de algumas p�ginas. � que cada uma destas poucas p�ginas � t�o intensa que o esfor�o de escrever algo mais longo seria monstruoso demais. Certamente pela mente dele passavam tantas id�ias que seria incapaz que ele se concentrasse em algumas delas por mais tempo do que o necess�rio para escrever um pequeno texto. Tal como os grandes homens que viveram pouco por preferirem uma vida curta e intensa a uma longa e tediosa, as obras de Borges concentram em poucas linhas a intensidade do eterno e do infinito, como se cada uma fosse um aleph a concentrar todo o universo em um �nico ponto. Alexandre Gomes � editor do PRIMEIRA P�GINA |
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