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As geladeiras v�o acabar na Internet

Silvio Lemos Meira

Apesar dos problemas de curto prazo que a Internet tem, particularmente no Brasil, resta pouca d�vida que, em breve, tudo vai estar na rede. Quando digo tudo, quero dizer tudo mesmo e n�o s� todos: al�m de gente usando computadores, vamos ter - obviamente - r�dios e TVs; mas tamb�m telefones fixos e celulares, carros, casas, aparelhos de ar-condicionado e, certamente, geladeiras. Uma rede �nica de redes de todas as coisas.
A tecnologia vai tornar isso poss�vel est� come�ando a aparecer, como Java e Jini. Java possibilita que programas se "movam" dos servidores para seu micro, em casa, de forma transparente, sem precisar de sua interven��o para "ir atr�s" do programa. Jini � um ambiente que faz com que dispositivos (como sua nova impressora) n�o precisem de software adicional para se conectar com outros dispositivos, j� existentes na sua configura��o.
A inform�tica vai acabar se trivializando ao ponto de podermos comprar PCs e scanners em qualquer barraca de feira. Mas a esta facilidade tem que corresponder uma simplifica��o gigantesca dos processos associados a, por exemplo, instalar uma nova placa de v�deo na sua m�quina. �s vezes, � melhor nem tentar, tal a complexidade e primitivismo do processo. Jini � sobre isso: dispositivos que "rodam" Jini "sabem" achar seus programas de suporte (drivers, em ingl�s) e estabelecer conex�es com o ambiente que os cerca. Voc� liga e pronto.
Tomara que funcione mesmo. Se e quando funcionar em larga escala, a geladeira de Dona Zuila vai se ligar � Internet. Como, e pra qu�? Primeiro, assuma que as casas v�o ter redes internas baseadas na fia��o el�trica, como est� sendo instalado na Inglaterra, por exemplo. Fazer a rede de comunica��o usar a rede el�trica economiza fio e simplifica muito a hist�ria: para ligar a geladeira na rede, � s� lig�-la na tomada. Como cada casa vai acabar tendo um endere�o eletr�nico, a geladeira de Dona Zuila, ao ser ligada na tomada, "entra" na rede e, a seguir, em contato com seu fabricante, dizendo quem � (seu endere�o eletr�nico!) e onde est� (o endere�o eletr�nico da casa de Dona Zuila...).
Depois deste pequeno di�logo inicial, a geladeira poder� responder perguntas sobre a temperatura (sua e do local onde est� instalada), sobre a qualidade da energia el�trica que a est� alimentando e, digamos, sobre o funcionamento do seu compressor, passando ao fabricante dados vitais como temperatura e press�o do g�s refrigerante que, vamos esperar, ser� livre de CFC, aquele que destr�i a camada de oz�nio.
Para a geladeira fazer isso � bom que Dona Zuila n�o tenha que deixar de lado suas preocupa��es de m�e para ter que instalar um "driver" ou procurar vers�es que seriam compat�veis com a revis�o 5.03.187a do sistema operacional de sua casa. Se for assim, nunca vai funcionar.
Ali�s, a casa n�o deve ter um sistema operacional: ela deve funcionar na base do "� s� ligar que eu estou funcionando". Uma casa Jini, inteligente.
Se a geladeira, ou qualquer outro eletrodom�stico, conseguir fazer o milagre de falar com a sua f�brica ou assist�ncia t�cnica sem que tenhamos que intervir, os micros instalados na dita e a f�brica poder�o tratar de tudo o que estiver associado � sua manuten��o. A geladeira poder�, no caso de detec��o, pelos seus sensores, de possibilidade de pane no compressor, solicitar a presen�a de um t�cnico, que j� viria com boa parte do diagn�stico pronto e, �bvio, com as pe�as de reposi��o.
Mas ele (o t�cnico) n�o ia simplesmente chegar assim sem mais nem menos na casa de Dona Zuila: antes disso, ela ia receber, por email, telefone ou o meio de comunica��o que escolhesse, o aviso de que h� algo errado na sua geladeira e que algu�m est� a caminho para consert�-la, dependendo de sua autoriza��o. Mas isso � parte da hist�ria: imagine as possibilidades da sua geladeira vir a fazer compras por voc�, diretamente nos supermercados, usando agentes inteligentes para descobrir os melhores produtos e os menores pre�os... E vamos ver isso acontecer, estou certo.
Parece f�cil, n�o? Mas vai ser muito dif�cil fazer se a inform�tica n�o conseguir simplificar, radicalmente, os m�todos e t�cnicas hoje usados para ligar coisas quaisquer e fazer com que elas se comuniquem. Java e Jini s�o somente o come�o da solu��o.

Silvio Lemos Meira, 44 anos , � Professor Titular de Engenharia de Software do Departamento de Inform�tica da UFPE, em Recife, e Presidente da Sociedade Brasileira de Computa��o





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