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Resenhas de Babel
Aron e a supera��o da geopol�tica Alexandre Gomes "Talvez a racionalidade econ�mica e ideol�gica triunfe sobre os h�bitos do passado e as paix�es de circunst�ncia, mas n�o vence sen�a a longo prazo" (Raymond Aron, Paz e Guerra entre as Na��es) A primeira coisa que transparece no texto do pensador franc�s Raymond Aron � a fluidez de seu estilo, sem fugir do assunto ou deixar a objetividade de lado. Mesmo tratando de �speros temas acad�micos ele � capaz de dar vida aos seus conceitos, fugindo tanto da aspereza cada vez maior dos textos acad�micos ou das literatices que cria um mal maior ao tentar enfrentar a esterilidade acad�mica, privando-a de rigor. Tanto a tradu��o esmerada de S�rgio Bath quanto a esclarecedora nota introdut�ria de Vamireh Chacon auxiliam a manter a eleg�ncia estil�stica e comprrender melhor a obra. Com isto o calhama�o de quase 1000 p�ginas pode ser deglutido com prazer, quando se percebe j� se leu mais de 100 p�ginas quase sem sentir. Aron � sobretudo um desmistificador do pensamento ocidental. Tal como Weber que lhe fornece os paradigmas te�ricos fundamentais, Aron evita as defini��es definitivas e os esquematismos essencialmente mecanicistas. N�o teme utilizar exemplos do cotidiano para expor teorias e modelos complexos, como quando utiliza um jogo de futebol como met�fora de sua teoria das Rela��es Internacionais. Tamb�m percebe a import�ncia da "aproxima��o", das suposi��es feitas a partir de conhecimentos incompletos no que quase parece ser um avan�o da metodologia dos "tipos ideais" de Weber. Aron, por sinal, destaca que uma das especificidades das Rela��es Internacionais � justamente o fato dos seus atores sempre terem de tomar decis�es baseados em probabilidades e suposi��es a partir deste conhecimento parcial, tranformando a incerteza tamb�m em um dado pr�vio. Enquanto outros autores perdem um longo tempo discutindo a autonomia ou n�o das Rela��es Internacionais como um campo pr�prio de estudo, refletindo sobre qual seria afinal o objeto de estudo desta disciplina e debatendo a rela��o dela com outras disciplinas, Aron vai direto ao ponto, demonstra que estas preocupa��es todas n�o s�o t�o relevantes. Mais do que isto, destaca que a maior parte dos casos que se levanta para contestar uma ou outra classifica��o das Rela��es Internacionais s�o apenas casos marginais que n�o tem muita import�ncia. Seguindo as pegadas de outro pensador bastante original, Ralf Dahrendorf, Aron utiliza uma teoria de pap�is para atores em um cen�rio das Rela��es Internacionais, dos quais os mais relevantes seriam o soldado e o diplomata, agentes do relacionamento entre as na��es e objeto das RI na sua teoria. Embora brilhante, a teoria de Dahrendorf de que o objeto da sociologia deveriam ser os pap�is sociais (Homo sociologicus, Tempo Brasileiro, 1969) nunca conseguiu grande express�o. No campo ainda mais indefinido das Rela��es Internacionais, contudo, parece se encaixar como uma luva, at� porque se adapta bem ao car�ter individual da teoria das RI que assimila os Estados ao velho conceito liberal do "Estado de Natureza". Na teoria de Aron todo "fato diplom�tico" tem quatro dimens�es que interagem sem perder a identidade, tr�s delas s�o de natureza conceitual: o te�rico, o sociol�gico e o hist�rico. O quarto � a reflex�o moral e �tica sobre o fato. Para expor a este paradigma Aron utiliza um jogo de futebol. coexistem numa partida de futebol o conjunto de regras, esquemas t�ticos, os planos do t�cnicos, enfim o conjunto que se pdoeria chamar de uma teoria do comportamento eficaz de cada jogador e da equipe, dados os limites impostos pelas regras. Esta seria a dimens�o te�rica do jogo. Mas � evidente que ela n�o � suficiente para explicar o conjunto do jogo. � preciso ent�o analisar como o jogo se desenvolve n�o mais no quadro negro, mas dentro do campo. Ai entram as dimens�es hist�ricas e sociol�gicas. A forma como os jogadores entendem as instru��es e as aplicam, o maior ou menor desempenho dos jogadores, a forma pela qual o conflito se desenvolve dentro do campo, os relfexos da maior ou menor improt�ncia dada ao futebol pelos pa�ses que jogam, o prest�gio do jogador em seu pa�s, o hist�rico de ivalidade entre os dois pa�ses e uma s�rie de fatores semelahntes que ajudam a explicar porque o esquema t�tico utilizado inicialmente transformou-se durante o jogo em algo que em maior ou menor grau � diferente dos planos. Por fim existe a an�lise e o coment�rio a respeito do jogo feito pelo cronista - que na met�fora de Aron � a reflex�o filos�fica - que avalia se um ou outro jogador jogou bem, se o juiz roubou, se as faltas foram justas, se a moral do time estava alta ou baixa. Aron dialoga com sua teoria com praticamente todos os dmeais te�ricos da �rea, mas condena em especial a geopol�tica - "pretensa ci�ncia transformada em ideologia" - e os esquematismos americanos da teoria dos Jogos. E N�a as condena por quest�es morais, mas pela inefici�ncia em dar conta da totalidade da realidade. Os dois modelos, para ele, estariam muito impregnados de uma fixa��o pelos aspectos quantitativos e sincr6onimos da realidade e com isso ignoram a import�ncia dos aspectos diacr�nicos e as idiossincrasias culturais que desempenham um papel fundamental no processo de tomada de decis�o. |
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