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Di�rio do Front
Algumas palavras sobre dignidade
Alexandre Gomes

"Todos aqueles que dizem que se pode ser feliz e livre na pobreza s�o mentirosos, loucos ou tolos" (Voltaire)

A Internet � um reposit�rio infinito tanto de sabedoria como de bobagens. Mas �s vezes neste Biblioteca de Babel circulam alguns textos que correm mundo pela for�a das mensagens que trazem, reproduzidos e divulgados com a rapidez ultrass�nica dos boatos. Um destes textos muito simp�ticos chegou a minha caixa postal por estes dias. Reproduzo o texto aqui sem ter muita certeza da autoria assinalada abaixo, afinal a Internet ressuscitou aquele bom costume medieval de n�o se dar import�ncia � autoria, mas � mensagem em si:
"Diante de uma vitrine atrativa, um menino pergunta o pre�o dos filhotes � venda.
-Entre 30 e 50 d�lares, respondeu o dono da loja.
O menino puxou uns trocados do bolso e disse:
-Eu s� tenho 2,37 d�lares, mas eu posso ver os filhotes?"
O dono da loja sorriu e chamou Lady, que veio correndo, seguida de cinco bolinhas de p�lo. Um dos cachorrinhos vinha mais atr�s, mancando de forma vis�vel.
Imediatamente o menino apontou aquele cachorrinho e perguntou:
-O que � que h� com ele?
O dono da loja explicou que o veterin�rio tinha examinado e descoberto que ele tinha um problema na junta do quadril, sempre mancaria e andaria
devagar. O menino se animou e disse:
-Esse � o cachorrinho que eu quero comprar!"
O dono da loja respondeu:
-N�o, voc� n�o vai querer comprar esse. Se voc� realmente quiser ficar com ele, eu lhe dou de presente.
O menino ficou transtornado e, olhando bem na cara do dono da loja, com o seu dedo apontado, disse:
-Eu n�o quero que voc� o d� para mim. Aquele cachorrinho vale tanto quanto qualquer um dos outros e eu vou pagar tudo. Na verdade, eu lhe dou 2,37 d�lares agora e 50 centavos por m�s, at� completar o pre�o total.
O dono da loja contestou:
-Voc� n�o pode querer realmente comprar este cachorrinho. Ele nunca vai poder correr, pular e brincar com voc� e com os outros cachorrinhos.
A�, o menino abaixou e puxou a perna esquerda da cal�a para cima, mostrando a sua perna com um aparelho para andar. Olhou bem para o dono da loja e respondeu:
-Bom, eu tamb�m n�o corro muito bem e o cachorrinho vai precisar de algu�m que entenda isso. (DAN CLARK)"
O texto praticamente fala por si pr�prio e torna qualquer explica��o desnecess�ria e pedante. Mas gostaria de aproveitar a oportunidade para chamar a aten��o para algumas outras coisas relacionadas a ele. O grande impacto do texto, na minha opini�o, � que o garoto n�o poderia "desvalorizar" o cachorinho com problemas sem "desvalorizar" a si mesmo.
Ao atribuir ao c�o o mesmo valor de um cachorro "normal" ele tamb�m est� dizendo que ele tamb�m vale o mesmo que qualquer garoto "normal". Se aceitasse o c�ozinho como um presente, por mais que isto lhe trouxesse uma vantagem, n�o deixaria de estar considerando a si pr�prio como inferior ou rejeitado.
Como para o c�o, a defici�ncia f�sica � um desafio, n�o uma impossibilidade ou uma limita��o que o desvaloriza. N�o se conformar com as pr�prias limita��es, infelizmente, � algo cada vez mais raro no mundo de hoje, dominado pelo ego�smo, pelo materialismo e pela mis�ria.
A quantidade de pessoas que passa a viver da esmola e da caridade � um grande exemplo disto. Evidente que h� momentos de extrema necessidade no qual n�o h� outra alternativa de sobreviv�ncia, ainda mais no imp�rio da mis�ria que vem sendo imposto ao Brasil. Mas h� uma diferen�a imaterial, praticamente moral, entre pedir esmola em desespero de causa e torna-la uma fonte de renda cotidiana.
A mis�ria, a falta de valores s�lidos, a inexist�ncia de auto-estima e a ideologia assistencialista e paternalista faz com que a pessoa n�o considere humilhante viver da caridade p�blica ou privada. Com esta auto-desvaloriza��o joga-se ao lixo qualquer chance, qualquer desafio � pr�pria mis�ria. Pior que isto, incuti-se os mesmos valores distorcidos �s novas gera��es que sequer ter�o de cruzar o limiar do vergonhoso para o natural, para eles ser� sempre natural pedir esmolas.
Do natural se evolui para se considerar que ser sustentado pela caridade p�blica � um direito. E j� � muito comum este tipo de comportamento, t�o incentivado ele foi por m�ltiplos pol�ticos que sem qualquer consist�ncia transformaram esta situa��o extrema em barganha rotineira.
� evidente que num mundo t�o cheio de desigualdades n�o se pode esperar que s� por abrir m�o da esmola todos consigam lutar e conquistar seu lugar ao sol. Esta id�ia � t�o ut�pica como a de uma sociedade perfeitamente igualit�ria. A distor��a se d� justamente porque se pensa a quest�o de forma individual.
A sociedade s� mudar� se as pessoas, cada uma delas, sentir-se valorizada a ponto de estar disposta a lutar pela melhora na vida de todos. Mas isto nunca acontecer� quando se pensa em transformar a esmola em direito e a indig�ncia em profiss�o. Nada de bom poder� surgir de um mundo no qual as pessoas n�o se sentem t�o valorizadas quanto o menino e o cachorrinho da historieta.




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