ENTREVISTA REALIZADA COM SIMONE OLIVEIRA  DESTAQUE DA BANDA MARCIAL COLÉGIO SALOTTI SÃO PAULO/SP

1a. Como foi o seu primeiro contato no meio de bandas? E qual a corporação? ?

             Há muito tempo, por volta de 1983, e o curioso que foi na mesma corporação que estou atualmente, Colégio Alberto Salotti..

 2a O que fazia nesta primeira corporação? Conte um pouco sobre a época?

             Era uma época de ouro, ainda havia o Campeonato da Rádio Record, onde se reunia as maiores corporações do meio, mas a coisa era mais rígida, pois estávamos bem no regime militar, então no Salotti não tinha “Corpo Coreográfico”, mas pelotão de bandeira. Éramos compostas por mais ou menos 30 meninas e cada uma levava uma bandeira de estado (Rio de Janeiro, Ceará, etc), nos posicionávamos atrás do corpo musical e à frente apenas a guarda de honra que levava a bandeira de São Paulo

           

 3a Você foi da linha de frente do colégio Paralelo como membro do corpo coreográfico e como destaque. Como eram as coreografias da época? Quais as dificuldades? Conte um pouco da sua história? 

             Acho que foi uma segunda fase (se é que podemos separar) nesse mundo. Ingressei no Paralelo em 1985 e estava sendo formada uma linha de frente com 50 meninas, fui selecionada para um dos naipes. Nesse período deu-se início as evoluções coreográficas, não sei exatamente quem começou tudo isso, mas posso dizer que o Paralelo foi um dos pioneiros. Tínhamos liberdade de movimentos, fazíamos muita coreografia cênica e em algumas vezes dançada também. O nível da maioria das linhas de frente da época era muito bom e quase sempre seguiam o mesmo padrão. Acho que a nossa maior dificuldade, era levar para a avenida todo o material e movimentos que exprimisse exatamente o que queríamos passar (uma vez que estávamos em uma avenida não em palco). Imagine hoje levarmos tocha de fogo, peruca de cleópatra, etc. Foi uma fase maravilhosa, porque o maior ganhador disso tudo era o público, que na sua maioria são pessoas carentes que jamais foram a um teatro ou espetáculo, e sem pretensão nenhuma, era de uma forma básica o que mostrávamos.

 4a. Qual o concurso ou apresentação que ficou na sua memória e porque?

             Foram muitos, regados de choro e emoção, mas um em especial guardo com um certo orgulho: Íamos estreiar a coreografia “Reis dos Reis” na cidade de Itaquaquecetuba (aliás este concurso deixou saudades), quem estava julgando era o Sérgio Herrera um dos maiores coreógrafos da época, quando colocamos as peruca de Cleópatra ele estava posicionado exatamente do meu lado e não conseguiu esconder seu espanto e disse jogando a pancheta da sua mão no chão: “Não acredito eles são demais”.

            Aquele comentário e os aplausos do público já bastaram, porque depois de semanas de ensaios exaustivos, conseguimos surpreender e agradar não só alguém de alto gabarito como o Sérgio como também ao público que ainda acho que são a parte mais importante de um espetáculo.

   5a. Qual a comparação que faz entre as bandas e concursos de hoje para antigamente? O que você acredita estar melhor ou pior?

             Sem dúvida nenhuma são as regras impostas. Não acho que tenha que ser exatamente como era na década de 80, mas teria que haver um consenso, acho que essa rigidez de proibir alguns movimentos e materiais, acaba restringindo os coreógrafos ao uso de materiais e muitas vezes em um concurso se vê movimentos/materiais repetitivos, por consequência apresentações cansativas para o público. Um exemplo: Não acho que uma linha de frente que entre fazendo coreografia com um leque tenha que ser caracterizada como cênica, e mais, qual o problema disso, não é espetáculo que o público quer ver, porque temos que impor a eles, bandeiras levantando e abaixando sem nenhuma criatividade?

 6a. Como destaque atualmente e mãe, o que pensa dos mais jovens com a sua experiência? Como vê os jovens de hoje dentro das corporações?

             Apesar da empolgação que a maioria demonstra, há muito pouco comprometimento com a sua corporação, com o trabalho, sinto as vezes que vão mais pela forma de estar entre diversas pessoas, conhecendo lugares diversos, mas o respeito mesmo, amor naquilo que faz, isso eu sinto que ficou um pouco lá para trás, vejo muito hoje a questão do orgulho individual, quando alguém entra numa discussão percebo que a preocupação é consigo própria, não coletiva.

 7a. Sempre teve facilidade em pegar as coreografias? Que dicas daria aos demais componentes para uma ótima performance no seu ponto de vista?

             Sempre tive, mas confesso a você que ultimamente a minha memória não anda tão boa ... Acho que a fórmula mágica continua sendo dedicação e gostar do que faz, o resto é consequência.

 8a. O que acredita ser mais difícil dentro do movimento das bandas para continuar a sua caminhada no meio?

             Acho que a questão financeira, acredito que todas as corporações tenham essa dificuldade, mesmo as entidades particulares. Deveríamos fazer uma comissão e pedir a secretaria da cultura mais apoio e verba, afinal de contas nosso trabalho tem contribuído muito na formação de jovens.

 9a Já vi você acompanhar os desfiles com barrigão de mamãe, e vejo muitas meninas do meio continuar mesmo após da gravidez, O que acha? conte um pouco desta trajetória?

             Acho que nessa hora o que fala mais alto é o amor pelo que faz, um dia desses vi uma entrevista do Romário no Fantástico dizendo que está sendo muito difícil parar, me identifiquei muito com ele, porque é assim que me sinto. Quando engravidei, disse que não voltaria mais, tive uma gestação bastante difícil, mas mesmo assim ia na maioria dos concursos, tentei manter a minha palavra de não mais voltar, mas quando meu filho nasceu e veio o convite, não resisti e aqui estou, dois anos depois estou tentando parar de novo, pretendo ficar até o final deste ano. Mas não porque tive um filho, mas pela minha trajetória e idade, já tenho 38 anos. Um conselho as meninas que têm filhos, se conseguirem conciliar, continuem.

 10a. O que você acha deste novo movimento da WANSB no Brasil? Acredita que muita coisa irá mudar? O que acha desta mudança? 

             Sinceramente, não acho que muita coisa irá mudar, não tenho uma real opinião formada sobre isso, mas estou curiosa ...

 11a. Como é estar trabalhando em uma corporação com dois coreógrafos tão exigentes e capazes?

             Me sinto privilegiada, porque estamos falando de duas pessoas que foram responsáveis pela minha formação, tudo que aprendi devo a eles e ao Sérgio Herrera. Mas não é muito fácil não, porque todo dia temos algo a aprender, e eles continuam mais exigentes do que nunca.

 12a Como vê seus colegas de corporação? Todos falam em uma família, seus contatos são somente no meio ou fora dele?

             Não, hoje tenho bons amigos fora dos ensaios. Saímos para falar de banda, trabalho, família. Um exemplo disso, meu grande amigo Vanderlei que também é meu coreógrafo, nos falamos quase todos os dias, inclusive sobre problemas pessoais. Sem falar nos amigos da época do Paralelo que continuamos a falar constantemente.

 13a. Enfim, conte um pouco com as suas palavras o que é um desfile de banda para você?, qual o sentimento de todos estes anos de avenida?

             É um momento mágico, onde esqueço por alguns momentos quem sou eu, problemas do dia a dia. Quando coloco o meu uniforme me transformo num personagem e vivo intensamente ele. Quando o locutor diz; “em julgamento ...” a emoção é a mesma da primeira vez e aí me sinto a pessoa mais importante daquele espetáculo ...

 

 

 

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