Carta de Santo Inácio aoS joveNS de hoje
J. B. Libanio S.J.

ENVIADOS
AO MUNDO
Querido jovem…
Que alegria estar a escrever-lhe apesar da distância de tempo e espaço
que nos separa. Queria conversar com você sobre uma idéia que me apaixonou
desde os anos juvenis. Será que ela mantém ainda tal vigor que fale a você em
outro contexto bem diferente? Senti-me sempre como alguém enviado ao mundo,
metido dentro do mundo, transpirando mundo por todos os poros.
Nos primeiros anos juvenis, o mundo para mim era a corte. Sabe, jovem,
nasci numa família nobre, embora já algo decadente. No entanto, meus sonhos e
desejos não se detinham no nível de meus familiares. No máximo convivi perto de
um duque. Sonhava, sim, casar-me com uma princesa. Nada mais nada menos que a
filha do Imperador. Que ousadia!
Entreguei-me de corpo e alma à vida mundana da corte. Ela me trouxe
muitos prazeres bem terrenos. Eles me seduziram e me retiveram imerso na vida
cortesã. Levaram-me a desregramentos morais. No entanto, conservei sempre o
coração honesto, fiel e de cavalheiro. A nobreza para mim não se resumia a
sangue. Era cultura, espiritualidade, visão de mundo.
Que diferença do seu mundo, não é verdade? Falar de corte remete-o a
algumas cenas televisivas em que você vê algum casamento da família real na Grã
Bretanha ou na Suécia ou mesmo na Bélgica. Quem sabe, as últimas imagens que
impressionaram o mundo foram o funeral da princesa Diana.
O mundo capitalista criou outra corte. A do dinheiro. Ascende à nobreza
quem entra no clube dos mais ricos. O imperador hoje se chama Bill Gates e para
se aproximar dele, devemos entrar na ordem dos bilhões de dólares de renda. Às
vezes, ponho-me a pensar. Vivendo no seu mundo com meu ideal de nobreza, será
que eu me lançaria na aventura da riqueza fácil e abundante? Creio
que não. Eu não era nenhum santo. Até mesmo muito pecador. Mas meu idealismo e
senso de humanidade não me permitiriam reduzir a nobreza de coração ao
dinheiro. Basta um mínimo de grandeza de alma para ver que a cultura do
dinheiro é vazia, fútil. Não, ela não me atrairia. Será que atrai a você?
Estamos assim tão distantes também nos ideais?
Gostaria de conversar com você sobre outro envio ao mundo. Eu mudei e
muito. Tudo veio de um fracasso, de uma dor, de uma operação com longa
convalescença. O fracasso foi uma derrota na batalha contra os franceses. A dor
foi uma ferida na perna por conta de um balaço que a atingiu e a quebrou.
Vieram as operações sem anestesia, ainda animadas pela vaidade de querer
continuar elegante e poder dançar. Depois, longo tempo na cama. Aí, nessa
convalescença forçada vieram as leituras. Não as que queria de cavalaria, de
amores a princesas. Deram-me vidas de santo, vida de Cristo.
Sabe, meu jovem, foi nesse momento que quebrei, não a perna pois já o
fizera, mas a couraça do coração. Abri os olhos para outro mundo. Diria mesmo
para outros mundos no plural. Entrei numa nova escola. Ignorante das filigranas
da ação de Deus no coração humano, comecei a perceber dentro de mim um jogo de
sentimentos.
Entravam-me pelo coração dois mundos. Aquele primeiro de amores
mundanos, danças, cavaleria, conquista de jovens damas. Enchia-me de gozo, de
prazer, mas, depois essas imagens se esvaneciam como bolha de sabão e ficava-me
o gosto amargo do vazio. Em outros momentos, sentia o contrário. São Francisco
fez isto, São Domingos fez aquilo. E eu? Também o quero. E doía-me deixar atrás
de mim aquele mundo anterior. Mas no final do processo interior permanecia um
gosto alegre, leve, diferente.
Fico a pensar: será que isso não lhe ocorreu também a você? Sei que
muitos de vocês nas férias ou mesmo nos finais de semana lançam-se a missões, a
atividades pastorais em lugares difíceis, em contacto com marginalizados e
excluídos da sociedade. Aí vivem experiências diferentes das festas e noitadas
de fim de semana com colegas de farra ou mesmo simplesmente de folguedos. Será
que você já atinou para a diferença entre a alegria e gozo dessas duas experiências?
Como é que você voltou para casa depois de uma atividade pastoral, talvez
austera e exigente? Que lhe passou pelo coração? E quando regressa dos finais
de semana de bares e bailes? É a mesma coisa?
Confesso-lhe que foi essa percepção que me mudou a vida. Era só o
começo. Ainda não estava maduro espiritualmente. Entreguei-me a exageros de
austeridade, de penitência. Comecei despojando-me das vestes de nobre e
trajando andrajos de um mendigo, com quem troquei de roupa. E assim peregrinei.
No meu tempo, a peregrinação fazia parte do imaginário religioso
popular. Havia muitos lugares célebres para onde as pessoas se dirigiam na
Idade Média e continuam a dirigir-se no meu tempo. O mais conhecido era o
Santuário de São Tiago de Compostela. Eu preferi ir a dois santuários marianos.
Jovem, você não pode imaginar a beleza da experiência de peregrinar. Sei
que agora está, de novo, em moda a peregrinação a São Tiago. Um escritor muito
lido não só no Brasil, mas em muitas partes do mundo, Paulo Coelho escreveu
livro best-seller sobre essa
experiência. Ela conjuga vários sentimentos do coração. Para peregrinar
despojamo-nos. Não dá para caminhar carregando uma mala de burguesia
A peregrinação levou-me também a Terra Santa. Era o horizonte maior de
minha vida. Queria ir para lá, lá trabalhar e lá morrer. Fascinava-me pisar a
terra
Aprendi mais uma vez que o seguimento de Jesus necessita ir além dessa
imitação material, diria física, visual. Escutei dentro de mim um chamado
maior, íntimo. E abriu-se-me uma compreensão diferente do mundo. Sobre ela
desejo conversar com você.
Até então conhecera o mundo das mundanidades, da conversão penitente de
mim mesmo, da peregrinação. Então fiz a descoberta mais importante de minha
vida. Senti forte apelo para meter-me no mundo dos homens, das pessoas,. Não
sozinho mas com companheiros que partilhassem comigo o mesmo ideal de ajudar
quem estivesse à espera de uma palavra para apontar-lhe o caminho da salvação.
Então sim, entendi que minha vida só teria sentido se eu me dedicasse à
salvação das almas. Era assim que se falava no meu tempo.
Hoje, na sua linguagem, soariam as palavras: solidariedade, serviço,
libertação dos pobres e excluídos, cuidado com pessoas famintas de sentido para
viver e até de pão. Senti-me realmente enviado, no fundo da minha consciência,
a toda pessoa que carecesse de alguma ajuda espiritual, material, humana,
especialmente em relação a sua realidade última de criatura chamada por Deus
para uma eternidade de amor e felicidade. Dedicar toda a vida a ajudar os
outros na tarefa mais importante de sua vida. Formulei esse desejo na linguagem
de meu tempo: “servir e amar a Divina Majestade”. Depois o resumi numa frase
pequenina: ”em tudo amar e servir”.
Sabe, meu jovem, essa frasezinha tem feito sucesso. Quantos jovens como
você se entusiasmaram por esse ideal de vida. “Em tudo amar e servir”. Ela
relaciona o amor ao seu serviço e assim define profundamente que coisa seja
amar. Em outro lugar, escrevi que o amor deve pôr-se mais em obras que em
palavras. É fácil dizer que amamos a Deus, a Cristo, a uma pessoa e que
queremos modificar essa realidade de tanta injustiça. Se paramos a pensar, será
que as obras que praticamos manifestam e encarnam as palavras?
Amar consiste, assim percebi na minha vida, na comunicação mútua do que
temos a quem amamos: ciência, honras, riquezas. Se v. olha para seus amigos e
amigas, que é que você tem e que pode comunicar-lhes? Ser enviado é tomar
consciência dessa dupla realidade para servir amando e amar servindo. Muitas
vezes não pensamos que os dons, qualidades, graças, que recebemos tão
generosamente de Deus, podem ser comunicados a outros. Sabe, que tal se você,
ao ler essa carta, se fizesse essa pergunta: que posso partilhar de mim a
outros, sobretudo aos jovens de minha idade?
Era essa pergunta que me fazia quando estudava na Sorbonne. E consegui
fazer-me amigo de Francisco Xavier, Pedro Fabro que se tornaram depois grandes
santos. Quem sabe que sua amizade e partilha com os colegas não os enriqueça
muito além do que v. imagina!
Percebi, no meu tempo, que a Igreja católica passava por grande crise
interna. Recém convertido e ardendo de fervor, doía-me ouvir que o Papa
celebrara o casamento de sua filha no próprio Vaticano, que a Cúria romana,
cardeais e bispos, se entregavam a uma vida mundana, sem zelo apostólico. E apesar
disso, pensei numa Ordem religiosa posta à disposição do Papa por julgar que
ele, pelo cargo que exercia, tinha maior visão dos problemas da Igreja e era
para tal ajudado pelo Espírito de Deus. Movia-me a fé. Imagino que para você
também a situação da Igreja e a do seu país em muitos aspectos gerem desânimo,
descrédito e até mesmo indignação. Tanta injustiça social, tanta riqueza ao
lado de multidões imensas de pobres, famintos. Em seu país há segmentos sociais
que são discriminados por causa da raça, da pobreza, da falta de educação
escolar e preparação para o trabalho hoje cada vez mais exigente. E que fazer?
A Ordem que fundei recebeu de mim uma inspiração na linha do “serviço da
fé e da promoção da justiça”, como escreveram os meus filhos numa de suas
Congregações Gerais. Fé e justiça são causas que merecem a vida de qualquer
pessoa com um mínimo de idealismo. Quando penso na fé, sonho com você
aprofundando a espiritualidade, participando de encontros e retiros,
comprometendo-se na pastoral catequética da paróquia. A espiritualidade dos
Exercícios Espirituais, que escrevi e que traduzem meu itinerário espiritual,
põe no centro da fé o seguimento de Jesus. Como Ele foi enviado ao mundo, assim
o cristão o é nas pegadas dele. V. conseguirá isso à medida que freqüentar na
oração, na contemplação, na leitura meditada do Evangelho a pessoa de Jesus. A
relação com a pessoa de Jesus robustece-nos a fé.
E a promoção da justiça? Como v. a pensa no seu país? Não saberia
responder-lhe de maneira concreta. Isso lhe toca a você que conhece sua
realidade. Mas posso passar-lhe a minha experiência. Vivi num momento que tem
semelhança com o seu. Lembre-se que no século XVI a Igreja sofreu a ruptura da
Reforma de Lutero. Como responder a esse desafio de evangelização na Europa e
fora dela? Descobriam-se as Américas. Talvez fosse mais exato dizer que se
colonizavam terras já habitadas por tribos indígenas de milhares de anos de
existência. Os meus companheiros não tinham a consciência que v. tem hoje da
originalidade, da importância das culturas autóctones e menos ainda de uma
presença salvífica de Deus nelas. Imaginavam que a traziam de fora. E o fizeram
com muito zelo. Assim entenderam o envio ao mundo. V. hoje sabe como Deus atua
em todas as culturas e até mesmo no humanismo ateu. Sua missão presente perdeu
aquele frescor e heroísmo de grande conquistador e evangelizador para ser um
trabalho, não menos bonito, de formiguinha que, com pequenas picadas, desperta
os colegas para uma Transcendência presente, mas não percebida.
Veja, meu jovem, cultivei com muito empenho a prática espiritual do
discernimento na missão apostólica. No caso concreto de sua vida, ela implica
de sua parte especial cuidado em descobrir os pontos luminosos presentes na
noite mais escura da vida. É questão de atenção às pequenas iluminações que
Deus, por meio de acontecimentos, pessoas, leituras, e quem sabe, até mesmo
dessa simples carta, lhe concede para ver e perceber o atuar da graça.
Saboreando essa gota de claridade, v. percebe melhor como ajudar o colega a
descobri-la. Se v. a viu, talvez também ele consiga fazê-lo com um toque
discreto de sua parte.
O ver é um primeiro passo. Fundamental, inicial. Os olhos se ligam à
razão e essa ao núcleo do nosso ser. Entendemos que Deus está aí presente, interpelando,
acordando-nos para o serviço. Deus é só amor. E quer unicamente o bem de cada
um de nós. Essa compreensão alivia-nos de complexos de culpa, de sentimentos de
inferioridade, de remorsos azedos. Ela nos impulsiona para um outro momento,
para dentro do coração, da afetividade, para um sentimento interior profundo.
Uma outra expressão que usei – sentire res interne – sentir a realidade
internamente – fez escola. Dessa fonte do afeto brota um agir em vista de
transformar a realidade que pode ser o seu minúsculo mundo interior ou
estruturas maiores na escola, no trabalho, na universidade, no lazer, nas
amizades.
Esse exercício espiritual supõe de você um duplo movimento. Sempre
gostei de pequenas expressões didáticas para catalisar experiências profundas.
Aqui vai outra. Contemplativo na ação. No atual mundo secular em decomposição,
mesclado e imbuído, ao mesmo tempo, de uma chuva religiosa de ritos, canções,
meditações transcendentais, gestuália carismática, não é fácil, em primeiro
lugar, a ação comprometida. Facilmente
as pessoas se perdem ou no descrédito total ou na maré religiosa sem exigência
além da satisfação emocional. Há executivos de grandes empresas, que no
cotidiano vivem o esquema neoliberal de acumulação de riquezas, mas que se
entregam a contemplações de corte oriental ou carismático, justapostas à ação,
que raramente repercutem em sua prática social. Antes cumprem o papel de
sonífero espiritual, expondo-se à crueza crítica de Marx a respeito da Religião
como ópio do povo.
Sonhei com uma relação bem diferente entre contemplação e ação, mantendo
tanto a contemplação como a práxis libertadora, como vocês a chamam hoje na
América Latina. Na clássica meditação do Reino, introduzo o exercitante por
meio da parábola do chamado de um rei terrestre. Claro, você deve entender que
eu vivia no mundo em que a figura do Rei nos enchia a fantasia, o imaginário.
Contra o chamado do Rei temporal se pinta o verdadeiro chamado de Cristo que eu
senti e que a meditação se propõe como apelo ao exercitante, a você a quem
escrevo. Duas coisas pensei muito, vivi intensamente e proponho com entusiasmo.
Imagine você se se apresentasse um líder político com a proposta de uma luta
séria e empenhativa para a libertação dos pobres, o qual, ao olhar-lhe nos
olhos, lhe dissesse: topa assumir comigo esse programa de vida? Ele prometia
que participaria das dificuldades e perigos de todos vocês: prisão, torturas e
até a morte violenta. Certamente você se recorda dos anos terríveis dos regimes
militares em que muitos jovens da sua idade foram tragados mortalmente pela
repressão. Eles não tiveram nenhum chefe disposto a morrer com eles. Mesmo
assim, sem tal consciência, muitos foram até o extremo do dom de sua vida,
sonhando com a libertação do povo. Com muito mais razão v. é provocado a
dedicar-se hoje a causa semelhante, se algum líder se colocar a seu lado para o
que der e vier. E agora, vem a virada. E se esse líder é o próprio Cristo que o
convida para uma entrega de vida à
missão de evangelização?! Ele que já lhe mostrou até onde seu amor chegou.
Deixo-lhe essa última pergunta.
Sei que a cultura que o cerca erigiu o prazer como valor máximo. E
prazer não pode ser contra o projeto de Deus. Foi ele que nos criou com as
cinco janelas dos sentidos, abertas para o prazer. Como poderá querer que as
fechemos? Santo Agostinho, que líamos muito na Sorbonne, escreveu um pequeno
livro, lindo, uma pérola, sobre “A vida
feliz”. Mas a questão consiste em saber qual é a felicidade que nos plenifica
para além do gozo e prazer imediato. Eu conheci bem os dois lados da
“felicidade”, imersão num mundo de prazeres sensíveis, e empenho de vida para
ajudar os outros a encontrarem o caminho da salvação. Essa segunda experiência
me encheu a alma. Se quiser, experimente dedicar-se ao bem dos outros e
vivenciará o próprio bem e felicidade.
Com muita esperança em você, jovem, que desperta para ideais maiores na
América Latina, fica meu abraço de velho marinheiro de guerra,
Inácio de Loyola