Argumentação e
Ética
“O Dever do Diálogo e o Diálogo por Dever”
Sem cair numa abordagem reducionista,
porque a realidade, a vida é sempre muito mais extensa e complexa do que aquilo
que se pode pensar ou dizer em poucas palavras, gostaria no entanto de
sublinhar dois aspectos chave,
-consciência e liberdade - articulá-los entre si e
fazê-los convergir, em termos humanistas,
religiosos, para o tema em debate, se bem que estas realidades, humanista, religioso, na antropologia
cristã, não se podem, completamente, isolar, compartimentar.
Os conceitos a sublinhar, relativos ao tema em
questão, são:
1.
O papel da
Consciência (como principio do reconhecimento
de dignidade humana e inclusão social)
2.
O papel da Liberdade (e consequente ponto de partida para…)
vDiálogo
vResponsabilidade
vAutenticidade
vCompromisso
A Pessoa
Humana, pela sua própria
definição, tem a marca da exigência ética de ‘consciencialização’. Por isso, a
pessoa realiza-se como sujeito, isto é, como pessoa, se vive a sua existência
de uma forma “consciencializada. A
consciência, e consciência conscientemente formada, é
um dever ético de ser pessoa.
Assim, o termo
consciencialização, mesmo que pareça expressar uma realidade estática, não
o é, nunca o é; é sim, um processo, está sempre em processo.
Isto significa (ou implica) tomar consciência
da realidade que nos cerca, do universo que nos
rodeia, ter noção de nós, do Outro, do Mundo. Ora, a pessoa descobre-se a si mesma, em estreita articulação com o que
descobre e estabelece com as coisas e com os demais.
Isto significa que consciencialização é a grande realidade dentro do universo, permite
à pessoa fazer parte do universo, ser capaz de o transformar, ser parte dele, e
uni-lo a si, Mas não o faz sozinha, não pode deixar de o fazer com os demais,
ao lado dos demais, contando com os demais.
Por outro lado, e como consequência de tudo isto,
na medida em que a pessoa se confronta, se relaciona, assume, e transforma o universo
(para melhor, espera-se) vai-se tornando mais consciente das resistências, dos limites,
das possibilidades, das potencialidades, nas relações com o mesmo universo
e com os demais. Esta experiência, este
encontro, está, uma vez mais, na linguagem, por exemplo, de Levinas, ligado às relações com o Outro, o papel central do OUTRO!
Ou, se quisermos recordar a perspectiva de Xavier Zubiri, a pessoa humana é um “animal de realidades” isto é;
a função da pessoa humana é interligar realidades, pondo-as em comunicação, em
relação.
Ora este pôr-se em relação, acontece tanto mais
profundamente, comprometidamente, quanto maior for a vivência da liberdade que faz dos, assim chamados actos do homem (actos involuntários ou
adquiridos) verdadeiros actos humanos
(actos conscientes, esclarecidos, assumidos). Portanto, a liberdade a que me
refiro, não se reduz a ter possibilidade de fazer X ou Y, mas liberdade como atitude interior que me leva
a optar mesmo por aquilo que me custa, mas em consciência julgo ser o melhor.
Ou dando um exemplo de cidadania: não estou ao nível se tenho liberdade ou não para exercer o meu direito de voto; mas
sim, ao nível de tomar uma opção consciente, que me tira da apatia, da
indiferença em relação ao bem comum, mesmo que me custe sair de casa, ou da
praia, se for o caso.
Ora viver em autêntica liberdade humana: dá trabalho, exige
pensar, exige agir, exige responsabilidade, exige uma atitude pessoal de
pertença ao reino da ética.
Isto significa que a pessoa humana é tanto mais livre quanto mais o
exercitar, se fizer livre.
Neste sentido, no exercício da mesma liberdade, são imprescindíveis dois
momentos tais como:
v
“Ser livre de…” (sentido genitivo
de liberdade muito sublinhada em algumas correntes filosóficas).
v
“Ser livre para…” (sentido
dativo, tem tido maior relevo em filosofias de compromisso social).
Não vejo que haja aqui uma oposição, mas sim uma dialéctica que deve ser
harmónica)
Podemos acentuar o “ser livre de…” que é uma dimensão da liberdade na medida em que,
enquanto sinal da real autonomia humana, é uma forma privilegiada da existência
livre. Traduziria este “Ser livre de… “
por “TER LIBERDADE”; mas isso não chega. Há o outro lado
estritamente complementar ao ser livre de, para o “SER LIVRE PARA…”. Esta segunda e complementar componente da
liberdade, mais do que uma “coisa que se tem”, é um
modo de ser e organiza-se em torno das capacidades que a liberdade oferece para
transformar a realidade: o compromisso e a
responsabilidade são das categorias antropológicas que melhor traduzem
adequadamente esta compreensão de liberdade.
Nós
muitas vezes regozijamo-nos por nos termos emancipado, Ser livre de: na vida social, politica, familiar. Mas nem
sempre se dá o salto para o Ser Livre
Para…
Neste sentido, uma educação libertadora, isto é,
uma educação para a consciencialização, para o espírito crítico saudável,
esclarecido, participativo, deveria orientar o processo educacional.
Dever-nos-ia por em questão, a assim chamada educação utilitarista, a qual acentua o saber fazer, sem a proporcional atenção ao aprender a ser; ou que ensina o
saber como, e não tanto o para quê!
Estes traços permitem viver uma ética de atitudes
humanas e de autenticidade. Ora uma pessoa autêntica é, o que verdadeira e radicalmente é, quando não está alienada, quando
não “consome” o que lhe vem de fora sem espírito crítico, sem adesão pessoal.
A liberdade para a responsabilidade tem o registo
da criatividade, da relação humana, do respeito pelos outros, pela natureza,
pelo que nos rodeia.
Retomando a ideia da tomada de
consciência:
A tomada de consciência converte-se em
consciencialização, mas ninguém
consciencializa ninguém, nem se consciencializa sozinho, a pessoa só é
capaz de se consciencializar na relação, na reciprocidade, na comunicação, no diálogo.
A liberdade para a autenticidade pede esta relação
dialógica, isto é, diálogo, e este implica aceitar,
fazer as pazes, assumir, integrar as nossas histórias pessoais, familiares,
colectivas. Aceitar, neste caso, não significa passividade… mas sim impulsos
saudáveis de criatividade, em que o Outro
conta, o Outro é considerado.
Ora este DEVER
do diálogo ou diálogo por DEVER, ou se transformam em algo pessoal, em que,
como princípio, reconheço ao Outro
um espaço de acção, afirmação no mínimo igual ao meu, ou isto é assumido e
consciencializado, ou a ética do dever de dialogar se fica por uma espécie
“dever” exterior, extrínseco à pessoa
e consequentemente o diálogo corre o risco de não resultar, não ter
proveito.
Thomas Kuhn, filósofo dos
paradigmas, problematiza a comensurabilidade dos mesmos, em certos casos. Isto
é: até que ponto é que existem pontos em
comum, ou, no nosso caso, a (im) possibilidade de
os encontramos no diálogo, na comunicação, no exercício da cidadania em vista
ao bem comum.
Quero crer que por muito diferentes que sejamos,
mesmo na vivência da própria ética, não há paradigmas absolutamente
incomensuráveis; há uma humanidade que nos une.
Por isso:
1-Quando LIBERTOS
de ideologias que nos partem e repartem; 2-quando LIBERTOS de uma concepção religiosa totalitária, não
tanto na sua concepção, como proposta
universal; mas na sua expressão, vivência cultural e étnica, ou mesmo no
modo de a transmitir sem deixar margens para caminhos alternativos; 3-quando LIBERTOS de ideologias
totalitárias; 4-quando LIBERTOS
de uma ânsia pelo poder, sem atender ao que o justifica que é servir a
comunidade humana; 5-quando LIBERTOS
de um permissivismo que se impõe em nome de uma
liberdade em que só o Eu é que
conta; 6-quando, ou se assim libertos,
a ética do diálogo será possível, alternativamente estaremos perante as
consequências selvagens de relação humana sem probabilidades de diálogo
frutuoso.
Resumidamente:
Na medida em que a consciência humana se encontra
em processo de formação; formação para o exercício da liberdade pessoal;
aferida pelo sentido de responsabilidade e autenticidade, estão criados alguns
passos para a relação, para o diálogo, para a comunicação, para o compromisso. Isto prepara terreno para que os
sentimentos se tornem humanos, os pensamentos traduzam convicções, e as
vontades expressem decisões.
Neste processo, por exemplo, a mais valia, o capital social da Igreja, da religião
é de uma importância impar, não só para a salvação das almas mas para a vida
dos corpos, não só para vida que nos espera mas para o já, aqui e agora.
Contrariamente a tudo que foi acabado de expor,
não temos alternativa, a não ser a de Sartre ao afirmar: “O Outro é o Inferno”. Já vimos, estamos ainda a ver e a assistir,
que esta alternativa não é boa porque não faz bem; nem me parece que seja uma
fatalidade.
De facto, com a consciencialização do dever de dialogar e o dialogo por dever,
não como um dever positivo, mas querido, assumido, nessa medida o Outro deixará de ser o inferno, mas
passará a ser a possibilidade de viver em liberdade, em comunicação, em
relação, em comunidade,
Francisco
Rodrigues, s.j.
Covilhã,
Escola Campos de Melo, 23 de Abril 2007