Mon�logo do NATAL
P/Aldemar Paiva

N�o gosto de voc� Papai Noel.
Tamb�m n�o gosto desse seu papel de vender ilus�es � burguesia.
Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu �dio � humildade, jogavam pedra nessa fantasia.
Voc� talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa, me tornei rapaz, sem esquecer, no entanto, o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente e, � noite inteira, eu esperei contente.
Chegou o sol e voc� n�o chegou.
Dias depois, meu pobre pai cansado trouxe um trenzinho feio, empoeirado,que me entregou com certa excita��o.
Fechou os olhos e balbuciou: "� pra voc�, Papai Noel mandou".
E se esquivou, contendo a emo��o.
Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete com atraso,chegara �s suas m�os, no fim do m�s.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu dando muitas voltas.
Meu pai me sorriu e me abra�ou pela �ltima vez.
O resto eu s� pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a seco: "Onde � que est� aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro, na cidade".
Dei-lhe o trenzinho quase a solu�ar, e como quem n�o quer abandonar um mimo que nos deu quem  nos quer bem, disse medroso: "O senhor vai trocar ele?
Eu n�o quero outro brinquedo, eu quero aquele.
E por favor, n�o v� levar meu trem".
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que eu ainda creio, tanto e santo, s� Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ru�do, mam�e gritou; ele n�o deu ouvidos. Saiu correndo e nunca mais voltou.
Voc� Papai Noel, me transformou num homem que a inf�ncia arruinou. Sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, n�o h� um que sobre para a riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com o Natal.
Meu pobre pai doente, mal vestido, para n�o me ver assim desiludido, comprou por qualquer pre�o uma ilus�o e, num gesto nobre, humano e decisivo, foi longe pra trazer-me um lenitivo, roubando o trem do filho do patr�o.
Pensei que viajara, no entanto, depois de grande, minha m�e, em prantos, contou-me que f�ra preso.
E como r�u, ningu�m a absolv�-lo se atrevia.
Foi definhando, at� que Deus um dia entrou na cela e o libertou pro c�u.


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