Entrevistas

 

Entrevista com Kerry King

 

Fale-nos sobre a primeira tour do Slayer...

A primeira turne aconteceu foi com o Camero do Tom, e havia apenas dois ou tres caras na equipe, nós fazíamos turnos na direção. Quando estávamos em Toronto, eu acho, nós ficamos sem um farol e depois ficamos sem o outro, estava nevando e eu desci pra tentar arrumar. Bati na lanterna uma vez e ela ligou, quando bati de novo, a filha da puta desligou, então continuamos sem luz.

 

Como foi sua primeira experiência fora dos EUA?

Foi a mesma merda. Nós éramos todos garotos com 20 ou 21 anos, e assumimos inocentemente que teria alguém lá para nos levar para cima e para baixo, e esse não foi o caso. Eu lembro que falamos com um cara lá que nos deu umas bostas para tentarmos tirar algum som e uma van, e nos disse: "Peguem as chaves...". Quando perguntamos como ir a algum lugar, ele nos disse: "Tomem este mapa".
Nós tínhamos uma espécie de manager-não oficial, um cara chamado Doug. Quando estávamos em Amsterdan o Doug, que normalmente não fumava, resolveu experimentar, e ficou completamente louco. Eu lembro dele correndo pela avenida e nós gritando: "DOUG!! DOUG!!" e ficamos então sentados esperando ele voltar por horas. Como o tempo passou, nós tivemos que sair fora pois não conseguíamos achá-lo. Andamos por várias ruas e até nas redondezas de onde aconteceria o show, e não encontramos o cara. Eu pensei então, caralho, como vou fazer quando voltar de viagem e dizer à mãe dele: "Olhe, eu perdi o seu filho, me desculpe!", principalmente se ele estivesse morto, entende? Mas na próxima cidade, Rotterdam, eu acho, ele estava lá esperando por nós. Foi uma coisa tipo: Caralho, como o cara chegou aqui??

 

Já ouve algum tumulto em um show do Slayer?

Sim, no FELT FORUM (Nova Iorque, em 1988). O local tinha um ótimo piso de madeira, mas lá atrás tinham assentos também. Durante o show eu vi uma almofada voando e pensei: "MAS QUE MERDA!", porque eu sabia que aquilo iria acontecer, e em questão de minutos haviam assentos voando por todos os lados.
No PALLADIUM (Hollywood,1988) teve um show com ingressos esgotados e muitas pessoas com ingressos não conseguiram entrar (haviam sido vendidos mais ingressos que a capacidade do local). E nós sabemos que fãs do Slayer que não conseguem entrar no show com ingressos na mão não descanssam até ver o local em pedaços. Então começou a rolar toda a merda lá fora, os caras quebraram as portas da frente. A polícia então chegou para acalmar a situção com uma demonstração de força que foi simplesmente ridícula. Um dos membros da gravadora levou umas cassetadas só tentando chegar no seu carro.

 

Você já teve algum show atrapalhados pelos religiosos?

Antigamente... eu lembro de pamfletos que diziam que eu (e não o Slayer) era Anti-Cristo. Eles imprimiram a letra de Hell Awaits e disseram: "Como alguém pode conhecer o inferno tão bem sem nunca ter ido para lá?". É assim que essa esta bosta de religião.

Com qual banda você mais gostou de excursionar?
O Machine Head. Nós nos juntávamos todas as noites pra criar novas bebidas. Eu me lembro de me juntar ao Chris Kontos (batera do Machine Head) e começamos a foder com as bebidas, então aparecemos com uma bebida chamada DOSE DE URINA. Era com o que a bebida se parecia, cara, como um copo de mijo. Nós tocamos com os caras nos EUA e Inglaterra.

 

E que banda você menos gostou de excursionar?

Com o WASP (em 1986) porque os caras sempre queria foder com nosso esquema. E tivemos incidentes também com o BIOHAZARD. Na Australia, tinha um local pequeno para se apresentar e com uma janela que dava pra ver o palco. Quando olhamos pela janela vimos aquele monte de gente com roupas de surfistas que subiam no palco e tal... até a hora que um cara subiu lá e começou a cagar!! E então começou a passar a merda pelo corpo! Os caras do Biohazard dizem que não foi nada, e que estávamos de cara por nada. Mas o cara correu por todo o palco! Então subiu e bateu na nossa porta gritando por uma porra de uma toalha! "AHHHH!!! O HOMEM-FEZES ESTÁ EM NOSSA PORTA!!!!!" Eu não sou do tipo que faz frescuras em turnês, mas eu falei com o manager do Biohazard que não iria tocar num palco cheio de merda e ser infectado por sabe-Deus-o-que... então a equipe do Biohazard limpou todo o palco antes de nós tocarmos. Após isto, Bonny e Danny vieram se desculpar. Bobby ganhou pontos comigo porque teve cara de fazer isto.

 

E alguém fez mais do que escrever cravar Slayer nos braços?

Quando tocamos em Sacramento tinha um cara que fez um Slayer realmente grande nas costas, nem sei se com uma faca, ou caco de vidro. Havia sangue escorrendo pelo cara. Nós tiramos uma foto com o cara e colocamos no mini-cd SERENITY IN MURDER do Japao.

Você já recebeu ameaças de morte?

Na turne do Divine, aconteceu uma que nos deixou cabreiros. Eu não conhecia aqueles lasers, e então quando vi um apontado para o Tom, pensei: "Mas que diabo é isso?" e foi a primeira vez que coisas desse tipo aconteceram... Vocês tem seu barman pessoal na turnê?
Certamente! Temos um cara chamado Aaron (que trabalha em um local chamdo TGI Friday, na California) que nos acomphanou pela Europa, America, Australia e Havaí. Mas eu acabo fazendo a maioria dos drinks.

 

Vocês já destruiram quartos de hotel?

Sim, no começo, quando encontramos os caras do Exodus e ficamos no mesmo hotel, em quartos vizinhos. Nós ficamos lá por três dias. Cara, o local ficou todo fodido! Pintamos a parede com geléia, e jogamos pizza por todo o chão e teto.
Nós estavámos assintindo TV um dia, e tinha umas latas em cima. De repente alguém jogou algo na TV e eu disse: "Você está tentando acertar as latas?? Veja como se faz..." , e então joguei e acertei as latas. Mas eu não sabia que elas estavam meio cheias e a TV queimou. A reação de todos foi como "OBRIGADO, KERRY.", mas éramos muito jovens aquela época. Uma semana depois um detetive particular ligou em minha casa (eu vivia com minha mãe aquela época) e perguntou se eu conhecia o Tom Araya. Eu disse "Não!". Ele encontrou Tom, que disse que nós pagaríamos por todo o prejuízo, mas ele ligou três vezes ao hotel e não obteve resposta.

 

Entrevista com Jeff & Kerry

 

O Slayer é, defitivamente, uma banda especial. Surgida no início dos anos 80 no grande 'boom' thrash da Bay Area de San Francisco ao lado de Exodus, Metallica e Testament, a banda sempre trilhou os caminhos mas porradaria do estilo. A verdade é que a galera do Slayer sempre foi fã de metal extremo e nunca deu a mínima para as modas. A mistura precisa de thrash com hardcore chegou ao seu ápice no álbum "Reigh In Blood", considerado na época um dos mais rápidos e extremos de todos os tempos.

O Slayer cresceu muito, mudou bastante, mas nunca perdeu o pique. Mesmo o entra-e-sai de bateristas não conseguiram alterar a fúria do quarteto californiano. Primeiro, saiu o magnânimo Dave Lombardo para formar seu igualmente ótimo projeto Grip Inc.: para seu lugar, veio temporariamente Tony Scaglione, do Whiplash, mas não esquentou o lugar e quem ficou mesmo foi Paul Bostaph, excelente batera do Forbidden; recentemente mais uma baixa: Bostaph se mandou e foi substituído por John Dette, ex-batera do Evil Dead e do Testament.

No meio da confusão, a banda lançou o tão esperado álbum de covers punks, que mudou de título algumas vezes e saiu como "Undisputed Attitude". Como resistir as versões literalmente atômicas do Slayer para clássicos do GBH, D.R.T., Suicidal Tendencies, Minor Threat, Stooges...? Na verdade, para quem já conseguiu fazer de "In-a-Gadda-da-Vida", do Iron Butterfly, uma porradaria thrashcore na trilha sonora do filme 'Less Than Zero', tudo é possível. Para comentar mais sobre o disco e covers e falar da saída de Bostaph, fomos conversar com os guitarristas Jeff Hanneman e Kerry King.

 

GP - Todo mundo sabe que vocês são velhos fãs de hardcore e punk rock. Foi difícil escolher as músicas para entrarem no álbum ?

JEFF HANNEMAN - Antes de entrar no Slayer eu era punk, na década de 70, e sempre "apresentei" o estilo aos meus amigos. Fiz isso com o pessoal do Slayer, que conhece o punk através de mim. Quando decidimos fazer esse álbum de covers, os caras da banda me pediram para escolher as músicas, o que não foi nada fácil, pois há centenas de músicas que adoro. Foi então que Kerry simplesmente me passou dezenas de músicas para que eu dissesse o que achava de cada uma delas. Infelizmente ficaram de fora algumas de minhas bandas favoritas, como Black Flag e Dead Kennedys, mas não havia espaço para todo mundo.

KERRY KING - O fato de já estarmos há muito tempo planejando algo desse tipo ajudou bastante para que iniciássemos o projeto com um grande pique.

 

GP - Vocês preferiram se concentrar nas bandas mais underground ?

JEFF - Começamos com cerca de 18 faixas e baixamos para 16. Algumas foram escolhidas de forma estranha. "Mr. Freeze", do Dr. Know, por exemplo, não era uma de minhas favoritas, mas o Kerry simplesmente ficou alucinado pelo riff de abertura. Inicialmente, nós a gravamos só por diversão, mas o resultado ficou tão bom que resolvemos deixar no disco.

 

GP - Enquanto seleconava as músicas, havia uma preocupação de evitar a linha poppy punk ?

JEFF - Quando escolhemos essas músicas, não foi tanto pelas letras, mas pela raiva e pela atitude. É algo que sempre quisemos fazer. Se você der uma olhada em fotos antigas do Slayer, vei perceber que estávamos sempre vestindo camisetas de bandas punk. Eu cresci nesse meio.

 

GP - O ábum chegou a ter alguns títulos e foi oficializado como "Selected & Exumed". Por que mudaram no último minuto para "Undisputed Attitude" ?

JEFF - Levamos algum tempo para conseguir concordar com o título para esse álbum. Eu trouxe essa idéia de "Selected & Exumed", e como ninguém havia tido nenhuma outra coisa, decidimos colocar esse título. Só que quando começamos a trabalhar na arte da capa, não conseguimos imaginar nada que se ancaixasse com esse título. O máximo que conseguímos imaginar eram alguns cadáveres de pessoas famosas sendo exumados, mas não gostamos muito da idéia. Foi então que encontramos uma foto de um monte de fãs do Slayer em um show que era perfeita para a capa, apesar de não se encaixar no título. Kerry apareceu então com o nome "Undisputed Atittude".

KERRY - Na verdade, não conseguíamos relacionar o antigo título nem com as músicas que estávamos gravando.

 

GP - Muito se falou que Iggy Pop participaria da faixa "I Wanna be Your Dog" (N.: Música do Stooges, antiga banda de Iggy). Porque não rolou?

JEFF - Na verdade, eu não conhecia a versão do Iggy Pop. Nós a fizemos porque adorávamos a versão que Sid Vicious fez para essa música em anguns shows após ter saído do Sex Pistols. Era muito legal, eu adorava ouvir uma fita que eu tinha com essa faixa ! Quando começamos a gravar esta música, Rick Rubin [produtor] disse que Iggy estava na cidade e que poderiamos fazer uma participação. Nós não quisemos. Não que nós detestemos Iggy Pop, apenas que ele não é um de nossos ídolos do passado.

JEFF - Somos muito amgo de Rocky [ guitarrista do Suicidal ], é uma amizade de longa data. Poderíamos ter feito qualquer música daquele primeiro disco, mas foi Kerry que escolheu "Memories Of Tomorrow".

KERRY - Eu não diria que essas bandas nos influenciaram diretamente, mas eles fizeram músicas que gosto bastante. O D.R.I., por exemplo, fazia uns lances muito legais de misturar hardcore, punk e thrash no início de sua carreira.

 

GP - O Minor Threat, de que vocês se confessaram admiradores, tem uma filosofia tipo "vida saudável", inclusive seguindo os princípios do straight-edge [N.: não fumam, bebem e nem tomam drogas]. Vocês têm alguma simpatia por essa filosofia ou só gostam mesmo do som e da energia da banda ?

KERRY - Sinceramente, eu nem levo esse lado em consideração. Sei que tem muita gente que gosta e segue a filosofia deles, principalmente na Europa, mas não é o nosso caso. Apenas gostamos muito da música que eles fazem.

 

GP - A imprensa tem noticiado pequenos ataques que vocês têm feito a essa onda poppy punk californiana. "Undisputed Attitude" é uma espécie de "resposta" ao poppy punk tipo MTV?

JEFF - Tudo tem seu lado positivo, e o dessa onda aí é que a música está ficando mais pesada, apesar do pique pop. Outro dia eu estava ouvindo uma dessas bandas de punk pop e achei até que interessante e pesado, apesar de ter um peso do Slayer ou das velhas bandas punk. Outro lance interesante são as letras: São cheias de sermões, politicamante corretas demais. As letras punk antigas queriam deixar a sociedade puta, e não dizendo "Oh, como eles são politicamente corretos!"...Eles parecem a mãe da gente dizendo qual é a coisa certa para se fazer ! Eu não quero ouvir um disco em que alguém me diz o que devo fazer com minha vida ! Quero ler letras sobre coisas que nunca faço, como matar pessoas. Eu vejo as letras como se fossem um filme: não tenho muito saco para encarar uma história de amor com final açucarado; quero ver ação, matança, pois isso que é entretenimento ! Detesto que venham me dar sermões como se fossem minha mãe ! Eu já tenho uma !! [risos]

KERRY - Muita gente acha que o fato de estarmos lançando um disco hardcore justamente no meio da onda punk da Califórnia não é uma coicidência. Pois eu garanto que é ! Até porque o que eles fazem não é punk, é pop !!!

 

GP - Vocês também lançaram o video "Live Intrusion" quase ao mesmo tempo que o álbum. Há alguma ligação ?

JEFF - Esse vídeo é outra coisa que queríamos fazer há muito tempo. Aliás, há muito tempo que estamos dizendo que queríamos fazer esse vídeo há muito tempo ! [risos] Depois que fizemos aquele clip com Ice T [ N.: "Disorder", medley do Exployted para a trilha sonora do filme "Judgment Night" ], resolvemos concretizar o projeto. Mas não teve nenhuma ligação direta com o álbum de covers.

KERRY - Não que eu saiba. Afinal, censura é algo estúpido demais que não pode continuar existindo !

 

GP - Qual foi o verdadeiro motivo da saída de Paul Bostaph ?

JEFF - A gente não conseguia acreditar mas, desde o começo, mesmo antes de fazer os primeiros shows ou gravar com o Slayer, Paul queria montar seu próprio projeto [ N.: batizado Truth About Seafood ]. Só que imaginávamos que se ele entrasse no Slayer iria sossegar... o que não aconteceu. Não houve nenhum problema pessoal envolvido, nós empre nos demos muito bem. O fato é que ele queria montar esse projeto paralelo.

 

GP - Muita gente disse que ele estava cansado de tocar metal...

KERRY - Na verdade, Paul realmente nos disse que não estava mais a fim de tocar metal, por isso partiu para esse projeto paralelo.

 

GP - Quando vocês ainda estavam selecionando um novo batera, falou-se muito em Gene Hoglan [ que andou pelo Dark Angel e Death] e Glenn Evans. Como chegaram até a escolha de John Dette ?

JEFF - Chegamos a tentar com seis ou sete pessoas diferentes, mas sentimos que John seria o escolhido logo de cara. Tentamos com Hoglan, que é muito bom, mas quando John apareceu a procura acabou!

KERRY - Fizemos testes por uma semana inteira com outros bateras, mas John era definitivamente o melhor.

 

GP - John chegou a gravar algo em "Undisputed Attitude" ?

KERRY - Não, Paul é quem gravou tudo. Nós só começamoas a fazer testes para um novo batera com o disco já estava todo gravado.

 

FONTE: Revista Rock Brigade (Brasil)

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