�A Cheia Diluvial do Rio Guadiana de 1876�
�No anno de mil oitocentos e setenta e seis, depois de copios�ssimas e incessantes aguas pluviaes, especialmente desde o dia onze de Novembro, teve logar uma execranda e nunca cogitavel enchente do Guadiana, que nos dias seis e sete de Dezembro foi assustadora, tomando na noite d�este ultimo dia, a horas adiantadas, propor��es immensas, e aspecto diluvial,
e zombando da eminencia dos muros de M�rtola, ousadamente os sobrepujou desde a torre do relogio para sul da rua do muro at� �s proximidades do largo da Misericordia, cuja egreja, bem como os predios fronteiros, for�o inundados at� � altura d�um metro e noventa centimetros pelas aguas entradas pela porta do rio e pelas janellas da sacristia. O arrojo por�m do rapido assalto do diluvio �s alcantiladas muralhas da villa foi ainda mais avante.
As aguas tomando progressivo incremento invadir�o os pa�os do concelho pela pra�a, aonde bem podiam navegar barcos de grande lote, e pelas janellas fronteiras ao rio, elevando-se � altura de tres metros da parede do edificio. A inunda��o dos edificios t�rreos da rua do muro tomou a altura de dois metros e setenta centimetros, e os moradores dos pavimentos superiores pavorosos, n�o s� porque fossem aggredidos pelo diluvio, para o que pouco faltou, mas tambem porque desmoronando as muralhas, unico apoio e salva��o da villa,
consequentemente desabassem os edificios, tiver�o tumultuariamente que evadir-se, salvando porem as suas vidas e quanto possui�o no recinto de suas casas; havendo contudo a lastimar a perda d�uma valiosa pharmacia estabelecida na referida rua; o terror e o espanto estav�o estampados no rosto de todos; foi um espectaculo d�horror e agunia!!!

O arrabalde alem do rio, do lado de Cambas, foi ainda fulminado de maior catastrophe; as habita��es, e armazens que arrecadav�o alguns generos e grandes depozitos de sal, sendo mergulhados, for�o por terra, restando, d�alguns apenas os alicerces e mont�es de ruinas, e d�outros, nem vistigios do que havi�o sido; seus donos reduzidos a extrema mizeria e sem terem aonde se abrigarem com suas familias. O arvoredo d�algumas propriedades alli situadas, extirpado, desapareceu, ficando o terreno assolado. No retrocesso das aguas, ao descobrir as ruinas, a perspectiva d�aquele s�tio era horrorosa e pungente.
Os mertolenses for�o testemunhas oculares da scena mais pahtetica

Pela mesma occasi�o agredindo a alluvi�o as planices adjacentes � ermida de Santo Sebasti�o, a distancia d�esta villa sobre um kilometro para o lado norte, demolio a referida egreja e as cercas e mais propriedades d�aquelle s�tio ficar�o tambem assoladas; raspando o terreno d�umas, e areando outras por tal forma, que talvez para sempre sejam incultiv�veis; e em uma cerca mais proxima � ermida, levando-lhe totalmente a terra, restando-lhe apenas roxedos, fic�r�o a descoberto muitos jazigos, sobre alguns dos quais estav�o campas de pedra, mas sem epitaphios, donde se podesse deprehender a sua era.

A inunda��o cobrindo tambem as vargens da Bombeira, situadas ao sul da villa sobre uns quatro kilometros, devastou aquelles campos, raspando-lhe tambem a terra, e deixando a descoberto alicerces e outros vistigios d�uma mediocre povoa��o, por cima da qual at� ent�o era terreno de cultura.

Por efeito da mesma alluvi�o for�o achados vistigios d�algumas poucas casas em um s�tio d�ste concelho, conhecido pelo barranco do azeite, a dist�ncia d�esta villa sobre onze kilometros, e alli se encontrou uma balan�a romana de cobre e em boa conserva��o com dimens�o de cincoenta e cinco centimetros.

As propriedades marginaes do Guadiana soffrer�o incalculaveis estragos e uma povoa��o tambem marginal, de moderna edifica��o, no s�tio do Pomar�o, a distancia d�esta villa por quize kilometros, que servia d�embarque de mineraes, ficou tambem muito estragada; os prejuizos, n�o so os referidos, mas outros, cuja enumera��o seria infinita, s�o superiores a toda a express�o.

E porque a ominosa memoria d�estes principais sucessos do diluvio se deve perpetuar, e transmitir � posteridade, que talvez incredola, os repute exaggerados, mas que s�o puramente verdadeiros, mandou a Camara fazer aqui d�elles registo, que authenticou com as suas assignaturas; deliberando outrossim, que na parede exterior do edif�cio municipal fronteira � pra�a publica e no s�tio que balizou a enchente, se colloque uma lapide com a seguinte legenda =Aqui mesmo chegou a enchente diluvial do Guadiana na terrivel noite de sete de Dezembro de 1876=


Escrito em Mertola em sess�o da Camara de 29 de Dezembro de 1876
[Assinaturas]
Visconde dos Bois�es, Manuel Antonio da Cruz, Antonio Maria Palma, Jose Pedro Guerreiro Teixeira, Jose Revez Mendes
(Livro de "Sucessos Memorandos", Arquivo Hist�rico Municipal de M�rtola).
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