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Samelly Xavier
Nota:
A iniciativa de criar um Espa�o Especial  para a Escritora  Samelly Xavier neste site, nasceu da nossa amizade e da grande admira��o que tenho pelos seus textos. 
Apresenta��o:
Samelly Xavier, reside em Campina Grande no Estado da Para�ba. Ganhou diversos concursos liter�rios; entre eles, o concurso  promovido pelo ETC, que abriu as portas para sua caminhada de sucesso. Aos 17 anos de idade publicou seu primeiro livro: "OUSADIA". N�o poderia privar os meus amigos de conhecerem, ao menos, parte desta obra. Assim, apresento e divido com voces o textos geniais de Samelly Xavier.

                              
S� podendo
Um dia desses, eu me apaixonei muito, mas muito mesmo e dei o fora porque sabia que aquela paix�o toda s� podia n�o ser paix�o. "N�o � estranho que o homem da minha vida apare�a justamente na minha vida?" , eu vi isso no filme "A dona da hist�ria" e achei t�o certo que s� podia n�o ser certo.
Foi na mesma �poca que me promoveram no trabalho, ganharia quase o dobro do que ganhava. Adivinhem? Pedi demiss�o. Era tanto dinheiro que s� podia n�o ser mesmo dinheiro. A� eu fiquei sem amor e sem sal�rio. Resultado? Fui num psic�logo que me disse quase as mesmas coisas que a cartomante tinha dito: que era s� uma fase, que eu ainda ia ser muito feliz. Fiquei t�o aliviada que s� podia n�o aliviar. Tanta sorte assim s� podia n�o ser sorte.
Sai determinada a conseguir outro emprego e outro amor e s� podia n�o conseguir.
Estava eu, em minha busca, quando aconteceu algo que estragou  tudo: me chamaram para trabalhar. Por que justo eu? Com tanta gente desempregada, qualificada, acharam de garantir a vaga logo pra mim? Era t�o f�cil que s� podia n�o ser f�cil. Era t�o arriscado que s� podia n�o arriscar.
Conheci um cara que, de cara, se apaixonou por mim, queria at� casar. Esquisito que com tanta mulher no mundo, ele quisesse se casar logo comigo. Falei disso pra ele, ent�o me disse que eu era diferente, ent�o eu era igual a todo mundo em ser diferente. Isso era t�o simples que s� podia n�o ser simples. Assim lhe disse um n�o mesmo querendo dizer sim. S� que quando eu  quis dizer sim, achei que j� tinha passado a vontade e era melhor dizer n�o.
Era tanto desejo que s� podia n�o ser desejo.
Voc� deve estar pensando que eu s� posso ser maluca, e na verdade s� por isso eu n�o sou. Porque se tu parares pra pensar, e s� por isso, n�o vais parar, eu fa�o as mesmas coisas que tu. Por�m, quando tu fazes, achas t�o normal que s� pode n�o ser. E por isso tudo, pra me consolar, resolvi escrever esse texto. Mas ele � t�o besta que s� pode n�o ser besta, e por isso d� uma vontade de rasgar e eu s� posso n�o rasgar.
Fico eu aqui, perdendo tempo enquanto voc� n�o vai nem entender e s� pode.

                                         Samelly Xavier
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Obs: A Carta a seguir, foi vencedora das fases regional e nacional do concurso epistolar para jovens dos Correios, cujo tema era: "Carta para algu�m de quem sinto saudades".
Campina Grande, 04 de abril de 2002
Pai:
      Hoje tenho um dif�cil miss�o, transformar este aglomerado de sentimentos em uma carta para ti. Ela deve falar de saudades, sabe pai? Lembrei que a l�ngua portuguesa tem em seu contexto uma �nica e imperativa palavra para falar desse sentimento: SAUDADE. Imagine se n�o f�ssemos brasileiros? Como expressaria este meu sentimento?
       Pensando nisso procurei no dicion�rio o significado aparente: Saudade s.f. (Do latim solitar, solitatis, solid�o, soledade) - 1. Recorda��o suave e melanc�lica de pessoa ausente ou coisa distante que se deseja voltar a ver ou possuir, - 2. Nostalgia, - 3. Pesar mais pela aus�ncia de algu�m que nos � querido.
      Das tr�s, gostei mais da �ltima, por�m n�o concordei inteiramente com nenhuma. O senhor acha poss�vel sentir saudades de algo que nunca se teve? Pois � isso que acontece comigo...
      Sinto saudades das conversas que n�o tivemos, das permiss�es que nunca pedi, dos olhares que nunca trocamos, dos filmes que nunca assistimos, das atividades de casa que o senhor poderia ter me ensinado, de atrapalhar teu sono � noite por estar com medo de um pesadelo, do seu colo que poderia ter me acalentado enquanto eu chorava, do seu abra�o que poderia ter me envolvido quando eu estava feliz.
      Sinto saudades das trocas de sonhos, at� dos poss�veis "serm�es" eu sinto saudades, acredita?
      Sabemos que n�o houve culpados na nossa separa��o, certo?
      Uma doen�a n�o � motivo de alegria, tamb�m n�o deve ser alicerce para l�grimas e dores. Os m�dicos disseram que a doen�a se manifesta com grandes emo��es, e foi no casamento com minha m�e que ela surgiu. Passaram-se 14 anos  at� que quase "milagrosamente" eu nasci. Disseram que o senhor teria uma probabilidade de melhorar ou piorar, mainha me falou que durante um ano tudo ficou bom, por�m depois o senhor ficou mais agressivo e tivestes que ir morar no hospital.
      Fui crescendo e ouvindo falar de ti de duas formas: Por minha m�e que sempre mostrou o grande car�ter que tens, pelas pessoas que parecem n�o entender minha falta de traumas.
      Uma coisa que me deixava com raiva eram os coment�rios dos colegas escolares, eu passava e ouvia "essa menina e filha do doido". Eu tinha vontade de responder: "Meu pai n�o � doido, � esquizofr�nco, uma doen�a gen�tica. Louco � um cara saud�vel que n�o se 'merece', se maltrata, se humilha". Na verdade nunca respondi nada (n�o ria de mim, viu?). Eu n�o sabia pronunciar direito a palavra esquisofr�nico (tinha uns 7 anos) e para n�o me atrapalhar saia andando, fingindo que n�o ouvia.
      Sabe outra coisa muito engra�ada? O modo como as pessoas falavam de ti. As frases sempre come�avam com " apesar de tudo, ele era...", apesar de tudo o que meu Deus? Diziam para eu n�o ter traumas, ao mesmo tempo que informavam �timos psic�logos infantis a mainha. Eu pensava: "mente de adulto n�o entende realmente nada de mente de crian�a"...
      Sabe por que eu era tranquila, pai? Porque tive uma m�e maravilhosa que me falava de ti apenas como eras. Gra�as a ela sempre encarei a vida de frente. N�o tinha um pai alc�latra, drogado, ladr�o ou que tra�ra minha m�e. Apenas tinha um pai doente, preso no seu inconsciente, algu�m que tinha muitas virtudes. Por isso fico feliz quando falam que nos parecemos.
      Nos vimos poucas vezes, n�o foi? Para ser exata quatro. Espero que o senhor entenda. Eu n�o me sentia bem naquele hospital (muito sofrimento...), e em outro lugar n�o poderiamos nos ver. Toda noite eu orava pr ti, algumas vezes pensando nessa saudade.
      Saudade tranquila que n�o me arranca turbilh�es de l�grimas ou arrependimento. O que sinto est� liberto de imposi��es sociais. Transcende a mat�ria, acho que � saudade espiritual.
      O poeta Caetano Veloso disse que "de perto ningu�m � normal". Compreendo que a doen�a cerebral te impediu de lidar com algumas coisas, por�m teu esp�rito � esvoa�ante. Hoje acredito que est� muito melhor do que quando carregava um corpo.
      Poder�o dizer que a louca agora sou eu...Escrever para algu�m que j� saiu deste mundo, mesmo assim sei que est�s lendo tudo que escrevo.
      Ao come�ar esta carta tive dois objetivos: O primeiro era homenage�-lo. O segundo diz respeito a frase que li no cartaz deste concurso: "J� imaginou o mundo lendo sua reda��o?" Pensei: "Isso � bom! Poderei finalmente expressar o que sinto, e o que realmente sinto � que nunca me senti a crian�a sem pai, traumatizada, problem�tica". Tento passar com isso que devemos sorrir para a vida, j� que ela n�o nos d� mais do que precisamos, nem menos do que merecemos.
      Obrigado, pai! Pelas li��es que me deste atrav�s do que minha m�e conta de ti. �s um grande exemplo e por mais que eu escreva, a vida n�o cabe em palavras.
      Enfim, acabo de deduzir meu conceito de saudade, bem diferente do que o dicion�rio trouxe:
      Saudade (s. s. g. - substantivo sem g�nero) - 1. Ansiedade calma pelo dia do reencontro que com certeza acontecer�. Querido pai, at� l�!!!

                              De sua continua��o terrestre:

                                        Samelly Xavier
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Moral da hist�ria:
Quando eu tinha tr�s anos, a maior dor que sentia, era quando desejava aquele imenso doce e n�o compravam pra mim. V� dizer para uma ccrian�a de tr�s anos que � "s� um doce". Hoje, quase obesa, por mais que coma, nunca mais o gosto daquele doce foi igual. Paladar de crian�a deve ser muito apurado. Agora eu sei que n�o se pode fazer todas as vontades infantis, por�m meus olhos arregalados daquela �poca n�o conheciam depois; queriam naquele momento, j�. Era decepcionante um "n�o". Depois, passou.
Nos meus cinco anos, quando eu fui a primeira vez na escola, tudo o que eu mais queria era ter sido a escolhida da professora naquela cantiga de roda. "Da menina mais bonita quero um beijo e um abra�o". O beijo e o abra�o procurados pela professora n�o foram os meus. Fiquei p�ssima. Sai da escola. V� dizer para uma crian�a de cinco anos que aquilo era s� uma cantiga. Depois ouvi muitas m�sicas, chorei com algumas delas, outras tantas me trouxeram lembran�as, para n�o dizer dor-de-cotovelo. Foram at� v�rias serenatas com muitos "Voc� � linda, mais que demais" ou "eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras n�o sei dizer". Marcou, l�gico que marcou, contudo nunca foi o abra�o  que eu esperava da minha primeira professora. Depois aprendi que eu era s� mais um serzinho no meio da multid�o  e n�o deveria, nem poderia ser sempre a escolhida. Na �poca, parecia que eu n�o era digna daquela encantadora mestra. Por�m, depois, passou.
Quando eu menos esperava, fiz oito, nove anos e fui convidada para ser a rainha da primavera! Nossa! Eu rainha da primavera. Antes das flores, peguei catapora. Queria porque queria ir, minha m�e obviamente, n�o deixou sob o �timo argumento que eu iria empestar  meus amiguinhos com a doen�a . V� dizer para uma futura ex-rainha da primavera que era s� algu�m ir no seu lugar. Depois eu aprendi que sa�de � mais importante que vaidade e que n�o h� nada t�o insubstitu�vel. Aquele dia foi tr�gico. Co�ava a pele e fervia a mente. Depois, passou (a coceira e a fervura).
Com onze, doze anos veio o primeiro namorado. Nada que toda menina j� n�o tivesse passado. Apenas, in�dito pra mim. Apaixonar-me por um colega  de rua que estudava na mesma escola que eu. Disso para todos os outros passos foi um passo: apresenta��o, conversas, aproxima��o, convites, amizade colorida, indu��o, dan�as coladinhas, beijo, muitos beijos e fim. O primeiro amor se foi. T�o banal. Mas v� dizer para uma apaixonada de onze anos que o primeiro amor dura 90 dias. Senti-me fracassada em n�o conseguir perdurar um amor que iria durar pra sempre. Depois aprendi que era s� o primeiro que marcaria e passaria e que muitos estariam por vir. No dia do fim, fui eu quem, triunfantemente, disse a velha frase "est� tudo acabado entre n�s". Ele saiu e fui chorar sem lhe dizer que quem estava acabada era eu. Depois de umas semanas, alguns len�os, e longos telefonemas, passou.
Logo em seguida vieram novas datas. Treze anos, outra paix�o; catorze, mais uma; quinze, uma linda; dezesseis, uma intensa; dezessete, uma desastrosa; dezoito, uma quente. Novas l�grimas, novos amores , novos fins nunca esperados. V� dizer pra uma jovem em pleno "sonhamento" que aquilo era s� coisa da idade. Depois aprendi que era mesmo. S� depois, muito depois. E se duvidar, at� hoje meu cora��o trepida, eu ainda sonho e me frustro, por�m tenho melhores disfarces, afinal de contas eu j� sei: amanh� ou depois, passa.
Nesse meio tempo veio o primeiro emprego, o primeiro sal�rio. V� dizer pra uma jovem empregada que � s� um sal�rio que n�o dar� para quase nada . Era um sonho permutado em moedas! Com uns meses veio a demiss�o, o arraso de sempre, o esgotamento, a sensa��o de incompet�ncia, que... adivinhem? Isso mesmo! Depois, passa.
A primeira transa, o primeiro susto (ufa! Ainda bem que chegou!), o primeiro casamento, a primeira briga, o maior dos arrependimentos e a sensa��o de que agora eu j� conhecia tudo da vida e era dona do meu pr�prio nariz. V� dizer a uma mulher de meia idade que ela tamb�m n�o entende nada da vida. Depois eu aprendi que s� entendia  um pouquinho, s� um pouquinho do pouquinho que eu havia vivido, entretanto como a vida n�o era reprise, sempre tinha algo novo e inesperado por vir. Interessante que sempre incomodava, magoava e era bom. Depois, anos depois, eu aprendi que era assim mesmo.
Como n�o � surpresa, vieram os filhos e o espelho do que eu vivi neles. O medo de n�o saber ensin�-los a n�o sofrer, e os erros e as injusti�as. V� dizer pra uma m�e que ela tamb�m , �s vezes � injusta. Hoje eu admito que fiu, mas passou, gra�as a Deus, passou. E como depois v�em os netos, a gente tenta mim�-los tudo que tinha medo de mimar os filhos, e tenta ser mais legal para errar menos. V� dizer pra uma v� que no fundo, ela quer pedir desculpas aos filhos atrav�s dos netos. Depois a gente entende que � bobagem e, afinal de contas, os netos tamb�m crescem, a�, depois, passa.
At� que um dia, depois dos oitenta, noventa, sabe-se l�, a gente senta num terra�o florido, as pernas um tanto tr�mulas, a voz mais baixa, a vista cansada. Os netos est�o na escola, os filhos est�o trabalhando, a vida est� acontecendo, e a nossa m�goa pelo doce negado da inf�ncia, nosso trauma da ciranda da escola, nossa dor do primeiro amor mau amado, nossa demiss�o e o desespero imediato, nosso primeiro casamento desfeito, v�m tudo � tona, em frenesi.
Nosso imediatismo infantil, nossa velocidade jovial, nossa sensa��o de "sabe tudo" da meia idade se funde num �nico �xtase real e antes disso, atemporal. Como se agora, s� depois, � que aprend�ssemos a moral da hist�ria: que nada passa porque na verdade quem passou fomos n�s. E agora � s� esperar a morte passar, mas v� dizer a uma senhora que chegou aos oitenta, noventa anos que a morte tamb�m passa... 
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Textos do �ltimo livro: "etc" - Samelly Xavier.
Trabalhos recentes, acesse: 
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VERBOS (BEM) EMPREGADOS
Eu invejo os mornos
Eu aplaudo os irreverentes
Eu incomodo os normais
eu admiro os inteligentes

Eu canso os rasos
Eu aceito os radicais
Eu irrito os incontest�veis
Eu encanto os magistrais

Eu jogo com os espertos
Eu amo os inalcan��veis
Eu aturo os �bvios
Eu rio dos invenc�veis

Eu lastimo os inoportunos
Eu sonho com os aut�nticos
Eu acredito nos absurdos
Eu escrevo para todos...
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DIVIDINDO DO JEITINHO QUE ME ENSINARAM:
Inf�ncia � quando voc� �
e nem se preocupa, nem sabe, nem tem curiosidade
de saber que est� sendo

Adolescente � quando voc� descobre que n�o era
e come�a a se infernizar para aprender (e se aprende?) a ser

Maturidade,
Ah, a maturidade!
� quando voc� � tudo,
Perde tudo, n�o acha mais,
Finge que �,
Duvida que consiga ser,
Decide nem ser,
Aparenta que sabe o que �,
Ridiculariza quem n�o �.

E se n�o suicidar,
(o n�o-ser concretizado)
se mata de pouquinho
(o quase-ser de tdo mundo)

S� sendo pra ser,
Descobre-se numa idade qualquer
em que uns - sorte, pura sorte - voltam a ser crian�a

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EROTISMO LING��STICO
Que me importam as m�s l�nguas
se s�o as boas que me lambem?
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PARA O TAPA COM LUVAS DOS CR�TICOS:
Cada poema que eu fa�o, asseguro,
d�i mais em mim que em voc�s...
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