A descoberta do novo

 

Somos viciados nas próprias crenças, dependentes das próprias verdades, toxicômanos das próprias convicções. E como ocorre em todas as dependências precisamos repetir as nossas verdades para não cair no pânico da dúvida, na ameaça da mutação. Inventamos uma pacificação ilusória e grandiloqüente. Seu nome: coerência.

Coerência passa a ser grande virtude. "Fulano, conheço-o há trinta anos. Sempre na mesma posição. Tipo coerente está ali". E assim saudamos a quem parou no tempo e que tão logo ganhou uma convicção, fechou-se às demais.

Assim nas crenças, assim nas idéias, e assim também, nos sentimentos, nas vontades e nos hábitos. Uma pessoa diz com orgulho que há quarenta anos torce pelo mesmo time. Parabéns. Mas fico a pensar no que ela perdeu de vida, alegria e descoberta nesse tempo todo, de oportunidade de apreciar a qualidade dos demais, a beleza da camisa dos outros, as virtudes dos antagonistas, o estilo dos adversários. No afã de querer a vitória de suas cores, quantas outras vitórias essa pessoa deixou de fazer também suas, quantas alegrias perdeu.

A rigor, nem sempre há como renovar o que há de antigo em nós. Em geral nada. Não me refiro ao que há de permanente, pois o ser humano é feito de permanências e provisoriedades. As permanências (ligadas às essências) devem ficar. Mas as provisoriedades que se tornaram antigas, paradas e repetitivas e que ali estão remanescentes por nossa preguiça de examiná-las ou por nossa incapacidade (ou medo) de removê-las, estas precisam ser revistas, checadas, postas em discussão, em debate e arejamento.

Essa difícil mas possível renovação, tem um nome: criatividade. Criar é manter a vida viva. Criar é ganhar da morte. Morte é tudo o que deixou de ser criado. Criatividade é, pois, um conceito de vida. Vida é criatividade e criação é vida. Só a criatividade nos dará uma possibilidade de solução para cada desafio novo. As soluções jamais se repetem. Nós é que nos repetimos por medo, comodismo ou burrice. Adoramos repetir, tememos renovar, por isso tanto sofremos.

 Artur da Távola

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