Reflexão Gotica

 

 

                                                                  Reflexões Goticas

 

Este pequeno ensaio visa esclarecer algo sobre o goticismo e o movimento gótico moderno, a fim de desmistificar o tema ao público leigo e especialmente refletir, junto aos góticos, sobre as diferenças mais marcantes que revelam o contraste existente entre aqueles se confessam como tal. Em termos gerais poderíamos definir o goticismo como uma visão romântica, surrealista e medieval do mundo e da vida, entre outras características. Essa maneira de perceber as coisas conduz a um jeito de ser, que pode exteriorizar-se na estética pessoal e em alguns costumes associados aos góticos. Isso leva à conclusão de que uma pessoa “gótica” o é em seu interior, sendo que isso não necessariamente irá se manifestar em seu exterior. Vários motivos podem justificar essa ausência de manifestação, entre eles a pressão da família, da comunidade local (costumes) ou até mesmo uma opção própria pelo anonimato. Pode ainda a pessoa “gótica” não sentir essa necessidade, simplesmente; embora as pessoas mais próximas provavelmente notarão essas características de maneira a não julgarem algo “anormal”. O romantismo é uma característica essencial do goticismo. Esse romantismo não está associado necessariamente a enlaces afetivos dirigidos a uma pessoa, e sim a um sentimento de extrema intimidade com a natureza e no encanto com suas características mais belas e terríveis. Além disso, o romantismo gótico traduz-se também pelo bem-estar íntimo que a pessoa gótica experimenta. Por isso muitas vezes os góticos são tidos como pessoas que gostam da solidão. Isso não é exatamente uma verdade, ocorre que a pessoa gótica sente-se muito bem consigo mesma, e por isso lhe apraz os momentos de introspecção. A solidão não é vista como algo ruim se se sente bem consigo mesmo. Para entender a perspectiva do medieval, somos remetidos à origem do termo gótico, e encontramos então a história de um 
dos povos mais peculiares da Idade Média. Os Godos eram considerados bárbaros ao pensamento romano-cristão, e figuraram entre os últimos povos a serem “convertidos”. Ocorre então que os Godos criaram uma percepção muito particular sobre o cristianismo, encarando-o provavelmente no interior como apenas mais uma maneira de ver o mundo. A dualidade entre o bem e o mal, suscitado por Deus e Satã encantava os Godos, que produziram imensa literatura poética e dramática a respeito dos mistérios ligados aos 
problemas filosóficos suscitados pelas contradições e contrastes dessa nova percepção. Os Godos, conquistados pelo império de Roma no início da Idade Média terminaram por devolver o produto dessas reflexões não apenas na forma de literatura, mas também na arquitetura espetacular, a lembrar as catedrais góticas de Reims, Chartres e a mais conhecida Notre-Dame de Paris (séculos XIII e XIV). Posteriormente, no século XVI o termo gótico passou a figurar como sinônimo simplesmente de medieval ou até mesmo 
bárbaro (às vezes no sentido do “bom selvagem” de Rousseau). Quem procurar conhecer melhor a história dos Godos poderá perceber os elementos hora do drama, hora do romantismo, hora da melancolia e mesmo do sentimento de mistério que caracterizava esse povo. Voltando à concepção moderna do termo goticismo, acrescenta-se o termo medieval ao romantismo porque a “visão romântica do mundo” para o gótico é aquela associada muitas vezes à admiração que os povos da idade média tinham para o desconhecido. Em outras palavras, o gótico observa com uma grande dose de encanto pessoal o mistério, especialmente os mistérios 
ligados às questões mais fundamentais sobre nossa existência e o mundo. 
Num exemplo, observar um céu estrelado é testemunhar uma grandiosidade que maravilha a um espírito sensível. Certamente que algo assim não foi privilégio único da Idade Média, no entanto aos povos medievais a 
ignorância em muitos campos e a fertilidade da imaginação facilitava essa visão poética que, sabemos, exteriorizou-se numa busca geralmente acompanhada por descrições fabulosas de um mundo povoado por seres estranhos, anjos e demônios, mapas antigos descrevendo locais de monstros marítimos, magia, alquimia, castelos e momentos épicos. É esse “romantismo medieval” que caracteriza a pessoa gótica. É bom mencionar que para um gótico a Ciência, com todas as suas descobertas, não faz diminuir a beleza estética ou mesmo o sentimento de mistério que caracteriza a visão romântica do mundo. Importante frizar isso porque, em um exemplo, para algumas pessoas a explicação de um psiquiatra sobre como os hormônios aparentemente “guiam” o sentimento de paixão entre duas pessoas parece tornar as coisas mais “cinzentas”, ou que 
conhecer os detalhes físicos implicados na visualização de um arco-íris o torna menos belo. Ao contrário, um gótico busca conciliar o conhecimento com a emoção. Saber que o Sol é uma esfera de hélio em reação nuclear não tira o encanto de observar a chuva de raios que ocorre quando sua luz se reflete nas ondas de um rio. O conhecimento e o refinamento cultural é algo que deve ser sempre buscado. Aliás, a ampliação da percepção e conceituação da “realidade” trazida pela Ciência não deve significar outra coisa senão horizontes mais fecundos, como um monte mais alto (ou apenas outro monte, para alguns) com o qual acrescentam-se outras “miradas” para apreciar e enamorar-se com a natureza em diversificados níveis. Sendo possível a conciliação do romantismo e do conhecimento, podemos recorrer à imaginação e à criatividade capazes de 
proporcionar o prazer estético, enunciando o surrealismo como característica apreciada (e às vezes vivida) pelos góticos. Os devaneios da imaginação sem preconceitos geram formas-de-pensamento diversificadas, 
e a libertação dos grilhões de uma moral religiosa do senso-comum permite que se ouse obter prazer em tais noções, por mais que sejam consideradas profanas. Chegamos agora a ponto de considerar o resultado de tudo isso dentro da esfera teológica. Não temos ainda nenhuma pesquisa verdadeira feita para se verificar a concepção religiosa dos góticos, no entanto a soma das características citadas até o momento pode nos dar uma pista, à qual irei somar minha experiência pessoal de vivência entre os góticos. Como era de se esperar, entre os góticos figuram um pequeno número de cristãos (católicos ou esotéricos) e satanistas (satanismo moderno de Lavey em sua maioria absoluta e satanismo tradicional em minoria) e um maior número de agnósticos (livres-pensadores e deístas), gnósticos, ocultistas e wiccans, entre outros gêneros híbridos 
destes.        

                         Peterson Leal (Acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFMT).

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