Acerca de gatos
     
Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata 
que não parava em casa: fornicava 
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia, 
de tão puta. Só muitos anos 
depois entrou em casa, para ser 
senhora dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma 
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida 
aberta que me deixou a sua morte 
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos 
que talvez aqueça as mãos, e partilhe 
a leitura do Público ao domingo.
 

(Eugénio de Andrade) 


 


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