| LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS
(Fragmento)
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Paro um pouco a enrolar o meu
cigarro (chove)
E vejo um gato branco à
janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é
esta: a gente—certa gente—sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs
sem proveito nem glória
e há gatos brancos à
janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos
burgueses
com quem ainda é possível
pactuar—
vêem com tal desprezo
esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto,
desdenhando-a ...
Não, a probabilidade
do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato para cima—nem pensar
nisso é bom!
Propalam não sei que
náusea, revira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São criaturas, é
verdade, calcule-se,
gente sensível e às
vezes boa
mas tão recomplicada,
tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar,
com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento
hipócritas.
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Mário Cesariny, NOBILÍSSIMA VISÃO
(1945-1946)
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Rui L. Mendes (Lisboa, 1992)
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