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Fitas de Áudio
Reflexões
Iris Helena Gomes
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Um menino de roça
(uma página da autobiografia de Rohden)
macuco
inhambu
           Todo o meu mundo de menino da roça estava na fazenda de plantação e gado de meus pais, sobretudo em passarinhos, lagartas e borboletas, que abundavam por toda a parte. Éramos uma grande e família - nada menos de sete irmãos e 7 irmãs; apenas uma irmãzinha, a Cecília, já havia falecido quando eu apareci no cenário; ocupava mais ou menos o meio da série.
              
                Nós três, meu irmão João, dois anos mais velho, e o Hugo, dois anos mais moço, éramos apaixonados caçadores. As roças e matas de nossa fazenda estavam repletas de arapucas de todos os tamanhos e feitios. Não gostávamos de passarinhos pequenos presos em acanhadas gaiolas suspensas em paredes. Só apanhávamos pássaros de vulto – macucos, jaós, inhambus, urus, jacus e pombas, contanto que estas últimas fossem das grandes; rolas e juritis não contavam. Construíamos espaçosos viveiros de ripas de palmeira rachada ao comprido, com diversos metros de diâmetro e tão altos que uma pessoa podia comodamente andar neles. No meio do meu viveiro havia uma árvore natural, que servia de poleiro aos alados inquilinos. Cada um de nós rivalizava por melhor povoar o seu viveiro.
                Um desses “outros objetos” dignos de interesse era a minha coleção de lagartas e borboletas. Não sei se outras crianças têm manias idênticas. Quanto a mim, sei que era louco por toda espécie de taturanas, lisas e cabeludas, com ou sem “chifres”. Sabia também que algumas delas, das cabeludas, queimavam terrivelmente; por isso apanhava-as com muito cuidado, sem as tocar diretamente. Uma vez, por descuido, apertei na mão uma dessas enormes lagartas toda coberta de “pinheirinhos” verdes; estava numa folha de goiabeira e, como usa de um perverso mimetismo, é difícil distingui-la do verde das folhas. Fiquei com a mão horrivelmente inchada, dias e noites a fio, sem poder dormir de dor.

                 A maior parte das minhas lagartas, porém era inofensiva. Apanhava eu em diversas plantas esses bocas-estômagos rastejantes. Punha-os dentro de caixas de madeira ou papelão, dando-lhes cada dia daquelas mesmas folhas onde os encontrara. Comiam desesperadamente. Depois de certo período suspendiam a faina gastronômica, e eu já sabia por experiência o que ia acontecer. Penduravam-se de cabeça para baixo, na tampa ou nas paredes da caixa, presas por uma cola auto-fabricada. Encurtavam-se, engrossavam, escureciam, e, depois de alguns dias – zás! Arrebentava-lhes a delicada pele das costas, e de dentro saia uma linda crisálida, ou, como nós dizíamos, uma linda “bonequinha”. Havia de todas as cores e formas. Eu tinha uma lagarta que dava crisálida igual a vidro de espelho; outra que dava bonequinha verde-clara com dois pontinhos de ouro na cabecinha e uma argolinha dourada na cintura.
Mais umas semanas – e eis que a crisálida explodia pelas costas e dela saia a borboleta. Era este o momento de maior surpresa e sensação, porque em geral, eu não sabia que espécie de borboleta sairia taturana.
          Em vez de colecionar as borboletas, matando-as e espetando-as com alfinete numa tábua, eu soltava as beldades, porque não me interessavam coisas mortas.
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