Um desses “outros objetos” dignos de interesse era a minha coleção de lagartas e borboletas. Não sei se outras crianças têm manias idênticas. Quanto a mim, sei que era louco por toda espécie de taturanas, lisas e cabeludas, com ou sem “chifres”. Sabia também que algumas delas, das cabeludas, queimavam terrivelmente; por isso apanhava-as com muito cuidado, sem as tocar diretamente. Uma vez, por descuido, apertei na mão uma dessas enormes lagartas toda coberta de “pinheirinhos” verdes; estava numa folha de goiabeira e, como usa de um perverso mimetismo, é difícil distingui-la do verde das folhas. Fiquei com a mão horrivelmente inchada, dias e noites a fio, sem poder dormir de dor.
A maior parte das minhas lagartas, porém era inofensiva. Apanhava eu em diversas plantas esses bocas-estômagos rastejantes. Punha-os dentro de caixas de madeira ou papelão, dando-lhes cada dia daquelas mesmas folhas onde os encontrara. Comiam desesperadamente. Depois de certo período suspendiam a faina gastronômica, e eu já sabia por experiência o que ia acontecer. Penduravam-se de cabeça para baixo, na tampa ou nas paredes da caixa, presas por uma cola auto-fabricada. Encurtavam-se, engrossavam, escureciam, e, depois de alguns dias – zás! Arrebentava-lhes a delicada pele das costas, e de dentro saia uma linda crisálida, ou, como nós dizíamos, uma linda “bonequinha”. Havia de todas as cores e formas. Eu tinha uma lagarta que dava crisálida igual a vidro de espelho; outra que dava bonequinha verde-clara com dois pontinhos de ouro na cabecinha e uma argolinha dourada na cintura. Mais umas semanas – e eis que a crisálida explodia pelas costas e dela saia a borboleta. Era este o momento de maior surpresa e sensação, porque em geral, eu não sabia que espécie de borboleta sairia taturana. Em vez de colecionar as borboletas, matando-as e espetando-as com alfinete numa tábua, eu soltava as beldades, porque não me interessavam coisas mortas. |