Uma nova entrevista in progress em Megafone:

Mikhail Malt, compositor brasileiro nascido no Egito, fala aos editores por e-mail.

Malt se ocupa de atividades diversas:

vive há quase 15 anos em Paris,

dedicando-se a aulas e pesquisas no IRCAM.


 

Mikhail Malt

e as indagações megafônicas

Comente brevemente suas realizações.

Digamos que acho que “realizações” é um pouco pretensioso... vou comentar brevemente o que faço, ou o que ando fazendo (pelo menos musicalmente...) Nos últimos anos tenho trabalhado na intersecção de três áreas: composição, computação e matemática (eu não desenvolvo teorias, mas uso a matemática como uma ferramenta), com um objetivo principal: o de estudar de que maneira podemos usar a computação e modelos formais em composição.

Este trabalho se desenvolveu numa área nova que se chama “composição assistida por computador”, ou melhor, a “escrita musical assistida por computador”.

Atualmente eu sou  professor de “Composição Assistida por Computador” aqui no Ircam;

...e além de dar muitas aulas, estudo os modelos de vida artificial, especialmente um que é chamado de “agentes autônomos”. Apresentarei uma instalação em Outubro de 2003 aqui no Ircam, onde o som é gerado por este modelo.

Mas você tem se utilizado (ou vai se utilizar, ontem, hoje, amanhã) desses materiais ou desse processo para escrever alguma música em particular? (além da idéia da instalação).

Sem dúvida,

esta é a primeira parte do trabalho:

1) eu escolho um modelo matemático (formal, etc.)

2) gero material musical

3) observo...

a instalação é para isso

na segunda fase, quando vou “conhecer” melhor o modelo,

passo para outra coisa...

já esta planejada uma próxima peça (piano ou conjunto ou quinteto de sopros...).

De qual projeto se orgulha mais ter feito?

Penso que o trabalho que foi e é o mais importante foi a minha tese, onde desenvolvi o conceito, a idéia de “solfejo de modelos”, isto é, de como os compositores dos últimos cinqüenta anos (Brian Ferneyhough, Tristan Murail, Magnus Lindberg, Marco Stroppa, Mesias Maiguashca, etc.) começam a se relacionar com modelos matemáticos da mesma maneira como se relacionam com o “espaço gráfico” de uma partitura.

De um ponto de vista tradicional um compositor (um músico em geral) é capaz de ler uma partitura (que é no final das contas um “desenho” feito num espaço gráfico, normalmente de duas dimensões de comprimentos e uma dimensão de cor); voltando, este músico é capaz de ler esta partitura, de interpretar este espaço gráfico em “sons”... inversamente este compositor é capaz de “transcrever” os sons que escuta neste “desenho” que chamamos partitura... Este é o solfejo tradicional.

No “Solfejo de modelos”, o compositor é capaz de saber qual a relação entre um modelo de cálculo e o som resultante...

Compositores como o Tristan Murail (tive alguma aulas com ele) são capazes de, por exemplo, dizer o seguinte:

“Vou usar  como exemplo uma série harmônica sobre um Lá 0, com um coeficiente de distorção ‘d’ de 1.11, segundo a fórmula Fn = n* F0^d.”

E ele é capaz de escutar “interiormente” a série harmônica distorcida....

O que é música?

Eu retomo uma paráfrase da definição do Berio: “música é tudo aquilo que queiramos que seja música...” (ou que consideremos que seja música)

mas mesmo se para fins didáticos ou acadêmicos, precisamos definir o que é música...

(como poderíamos fazer música, num contexto acadêmico,

sem saber o que ela é??? )

Deveríamos evitar definir o que é música.

os últimos cem ou cento e cinqüenta anos nos mostraram que definir

música é antes de tudo

definir uma sensibilidade,  definir uma cultura, definir maneiras de

pensar, maneiras de sentir e de perceber o mundo..

Querer “congelar” uma definição de música, é uma atitude tão

intolerante (ou psico-rígida) quanto o racismo ou o fascismo...

definir música é “congelar” uma escuta, congelar a percepção de uma

parte da realidade

é pararmos de “escutar” plenamente

é colocar/construir “filtros” nos ouvidos e na mente

Mas atenção, eu disse (parafraseando o Berio) que

“música é tudo aquilo que queiramos/consideramos que seja música...”

Eu não disse que

“todo mundo tem que aceitar a música que pensamos/percebemos ser música”

temos

(como compositores)

de ter o cuidado de não sermos tentados a impor

a nossa percepção aos outros.

(estética musical e sectarismo têm muitas

coisas em comum)

as peças que escrevemos (ou que cometemos),

são reflexos de uma escuta e de uma percepção...

se existem pessoas com quem podemos dividir, ótimo!!!!

se não existem estas pessoas...

a) continuamos a fazer o que pensamos que seja música

b) mudamos de estilo para agradar a comunidade, ou

c) perguntamo-nos por que a nossa sensibilidade é tão diferente

Você acha que a música está ligada ao sonoramente audível?

A música está ligada “principalmente” ao audível,

dependendo da “hora”,

do dia,

do ano,

da estação,

do local geográfico, etc..

ela estará ligada a outros fenômenos da percepção..

o “audível” é o centro do território musical,

mas as fronteiras não são precisas...

o audível tem fronteiras com o visível, com o “tateável”, etc.

e o “audível” é sempre influenciado por outros espaços de percepção,

trabalhos como os do Kagel, Berio, Stockhausen, Cage etc.

nos mostram que o “audível” é uma grande parte do território musical,

mas não é todo o território...

qual a diferença entre escutar lieder e ver a interpretação??

Como é diferente a nossa escuta de uma peça para piano (por exemplo) de um CD, ou ao vivo.

Para isto basta imaginar

o final de um Prelúdio de Chopin,

onde o pianista termina as últimas notas,

mantém as mãos suspendidas no ar

que suspendem o nosso fôlego e atenção,

que só relaxam quando a tensão do pianista se afrouxa....

Você ouve a própria música? Em que situações? Gosta de ouvi-la? Por que razões? Acha-a boa?

Acontece que escute a minha própria música, de vez em quando pelo prazer, outras vezes como pesquisa. Mas dificilmente me digo:

-Que inspiração, vou ouvir minha música hoje!!

Aliás uma das razões (existem outras) de escrevê-la, (a outra razão de “escrever/fazer” música é como validação de uma pesquisa.....) é pelo prazer de escutá-la.

Mas, uma vez escrita, ensaiada e tocada, normalmente passo para outra coisa.

Quanto ao prazer de escutá-la, sim, o prazer é duplo, de uma parte pela música em si
e pelo fato de ter “construído” algo (mesmo se esta construção tem a consistência de um conjunto de vibrações aéreas).

Quanto a achá-la “boa”...

depende do que quer dizer “boa”...

mas voltando sobre uma peça ou outra me digo:

-Hum, você foi muito rápido aqui, podia ter  resolvido de doutra maneira...

Sabemos que você tem alguma relação com a música ritual tibetana, por você a haver mostrado em sua conferência na Unicamp (2003). Como entrou em contato com esta música?

No meu trabalho existem três aspectos:

                pesquisa

                composição

                ensino

na parte de pesquisa, o centro de interesse é principalmente

a relação entre modelos matemáticos

e as estruturas musicais geradas.

Dentro deste trabalho o aspecto de representação é de grande relevância.

Esta pesquisa se faz em duas direções:

                Dos modelos em direção à música

                                (onde estudo o comportamento

                                de um modelo gerando música)

                Da música em direção aos modelos

                                (onde “tento” modelizar, achar regularidades

                                dentro de obras musicais)

                                Até agora tinha estudado

                                Xenakis, Boulez e Brian Ferneyhough

Dentro do contexto “da música em direção aos modelos”, comecei a procurar outro tipo de estruturas musicais para estudar.

A música ritual tibetana me propunha uma escuta “desconcertante”.

À primeira audição me parecia um grande Caos, mas ao mesmo tempo ela me fascinava.

Tive a sorte de encontrar uma etnomusicóloga francesa, Mireille Helffer, com quem comecei a trabalhar. Ou melhor, com quem comecei, e continuo a aprender sobre música ritual tibetana.

Atualmente nosso trabalho consiste na análise de peças e no meu caso, construo ferramentas informáticas e tento achar modelos formais para descrever as situações musicais ouvidas...

O que a música tibetana tem-lhe ensinado?

Principalmente a respeitar culturas que não conhecemos.

confesso que no princípio, imaginava usar o que teria aprendido para fazer música.

mas com o convívio com este tipo de música nasce também um respeito muito grande.

é música “litúrgica”.

não é música de festa.

difícil dizer, hum,

-Vou escutar música tibetana, enquanto tomo banho, ou enquanto faço um bom macarrão!!

A Mireille Helffer me ensinou a respeitar esta música e seu significado...

cada peça é usada em rituais específicos.

acho que estou aprendendo muito sobre ética.

mas o que ela tem de particular para um ouvinte ocidental, penso que é principalmente

a noção de tempo. As coisas são mais lentas. Os agrupamentos se fazem numa escala de tempo que não é a nossa.

para terminar.

atualmente estou:

        desenvolvendo ferramentas informáticas para o estudo desta música

        estudando certos instrumentos

                (tais como as trompas longas, as trompas curtas e os “oboés”)

        e estudando a noção de tempo nesta música

Você disse que primeiramente havia pensado em usar o que aprendesse com a música ritual tibetana, e que depois essa idéia foi embora por ter vindo esse respeito pela função específica que essa música exerce em certa sociedade. Gostaríamos de saber: em sentido geral (ou seja, nos trabalhos de outros compositores) você considera possível fazer um uso honesto (“ético”, no seu dizer) de materiais dessas culturas?

Não tenho nenhum critério “explícito” ou regra para este uso.

Mas me parece que o ponto mais importante é a atitude do compositor que usa estes materiais.

Mesmo se às vezes o material sonoro pode “atrair” o compositor, é preciso que ele esteja consciente de toda a significação e de todo o simbolismo que esta música carrega...

Nós, ocidentais, temos o hábito de pensar que o mundo que nos rodeia é um grande supermercado, onde é suficiente esticar o braço e pegar o que queremos...

No que diz respeito à música de outras culturas, é preciso evitar uma atitude de “consumidor”...

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