O compositor paraense, pesquisador de John Cage,

 falou a Barros, Iwao e del Nunzio na Padaria Alemã em data não revelada de 2003.


 

a palavra de 

Valério

Fiel da Costa

a Megafone

 

Por obséquio, comente muito brevemente suas realizações.

Eu estou terminando o mestrado na UNICAMP. Na semana que vem eu me qualifico. Até o fim do ano defendo a minha dissertação sobre o piano preparado do John Cage. Esse ano eu pretendo escrever mais peças do que no ano passado.

E planos para o futuro ?

Depois do mestrado ou eu volto para Belém para trabalhar na Universidade Federal do Pará, para ajudar a montar o curso de composição lá, ou eu emendo no doutorado e continuo a trabalhar no assunto em que estou trabalhando atualmente.

Qual o projeto que você mais se orgulha de ter feito ?

O projeto Artesanato Furioso, feito em Belém-PA, uma parceria que eu tenho com Fábio Cavalcante, responsável pelo primeiro concerto de música eletroacústica no Norte, em Pará no ano 2000, e que se caracteriza por uma liberdade extrema em termos de concepção,  improvisação e composição de obras. Consiste basicamente em música eletroacústica, improvisações baseadas em objetos amplificados, participação do público, etc.

No estilo de um happening ?

Não, não é happening. É algo planejado, mas planejado cinco minutos antes de começar, mas sempre planejado. Mas, se você assistir a um concerto, você vai viver um clima de happening, porque as coisas que estão acontecendo podem mudar a qualquer momento, dependendo do que o público fizer, como interagir, a música vai ficando mais longa, mais curta, às vezes falta luz no meio e a peça acaba ali, ou às vezes ficam só os sons que não estavam plugados na tomada.

O que é música ?

Música... Música é um negócio que acontece na nossa cabeça quando a gente ouve sons e procura extrair deles alguma experiência estética.

Mas, existe música com não-som ? É possível ?

Mas aí vou apelar para o Cage, então. O não-som você não está ouvindo de verdade. O não-som está aqui mas você não se apercebeu dele. Quando você se apercebe dele, ele passa a ser som.

Você é compositor ?

Sou compositor.

Por quê ?

Sou compositor, porque, bem, primeiro, eu gosto de trabalhar com isso; segundo porque eu me vi numa situação em que estava velho demais para buscar outra coisa. Então, teve uma época em que eu parei de pensar em mudar de curso: não, vou ficar nesse curso aqui, vou ficar até o fim e tentar extrair dele o máximo. Com o passar do tempo, passei a gostar mais do que estava fazendo, principalmente quando saí da graduação da UNICAMP, quando eu passei a ter mais tempo para compor e desenvolver atividades de composição. Eu passei a curtir mais o que estou fazendo.

Qual a frequência e os horários de trabalho de seu trabalho de composição ?

Costumo dizer que eu componho o tempo inteiro, 24 horas por dia, mas eu separo composição da escrita. Estou compondo, avaliando situações sonoras, pensando, resolvendo problemas que eu mesmo crio, mas tudo isso andando, na parada de ônibus, lendo alguma coisa, assitindo a uma aula, indo para UNICAMP, ouvindo música, minha cabeça está funcionando. Na hora que eu tenho condições de sentar ao computador - condições, lê-se tempo - sentar no computador e fixar essas informações todas, aí é a parte de escrita que eu chamo. Isso acontece sempre que eu tenho tempo de sentar ao computador.

Você não faz atividade nenhuma além da composição ?

Não, sempre que tenho tempo de sentar ao computador e não estou jogando algum videogame ou me dedicando à minha pesquisa.

Digo, você disse que está sempre compondo, pensando em alguma música...

Sempre estou pensando em alguma música...

Então você nunca está pensando em outra coisa... Faz composições permanentemente...

Permanentemente porque essas outras coisas interagem e fazem parte desse processo.

Quais os horários que você fica sentado escrevendo ?

São muito variados. Ontem fiquei de madrugada trabalhando, mas não é habitual isso. Pode ser de manhã, pode ser de tarde.

Quais as relações possíveis hoje - no Brasil e no exterior - do compositor com seu ganha-pão?

Eu acho o seguinte: o compositor não tem que pensar em viver de composição. Pode ser radical isso, mas penso assim. Acho que o compositor precisa ter uma atividade  profissional que o sustente.

Que não atrapalhe a atividade de composição...

Pois é, uma atividade profissional que não atrapalhe sua atividade de criação. Acho que o compositor que precisa atender a uma demanda específica não tem liberdade plena para criar. Isso é algo que eu fico preocupado em sacrificar, por princípios. Acho que o compositor tem que estar vinculado à academia – a universidade pública, no Brasil - porque é um local financiado pelo estado para o desenvolvimento de n atividades, entre elas atividade experimental, atividade de pesquisa, atividade, como é que se diz, de estimular o contato entre compositores de várias procedências, estimular a criação de novos trabalhos, etc.

Então a composição tem uma tendência à academia ?

A composição musical acho que só tem capacidade de sobreviver de forma autônoma dentro da academia.

Um compositor que porventura não se encaixe no formato da academia tem que arrumar outro emprego para viver...

A gente tem visto isso. Um compositor que não se encaixe dentro de algum formato estabelecido dentro do ambiente em que ele trabalha, seja dentro na academia ou fora - pode trabalhar num estúdio, numa gravadora, ou coisa assim - ou ele muda o meio, ou migra para um meio mais permeável.

Você acredita que a academia possa atrapalhar ou influenciar de alguma forma o trabalho do compositor?

Sim, com certeza. Mas você atrapalha ou ajuda no mesmo sentido em que qualquer outra instituição, seja acadêmica ou não, atrapalha ou ajuda. A instituição tem um certo perfil, um perfil institucional. Ela avalia o teu trabalho de acordo com padrões objetivos; então você precisa atender a esses padrões senão seu trabalho vai ser mal avaliado e você perde espaço dentro da instituição e isso significa perda de verbos, prestígio acadêmico, etc, no caso da academia. Então o cara é obrigado a atender demandas, nesse sentido, e isso é ruim.

Como você vê essa situação em relação a outros países?

Precisaria conhecer melhor a situação em outros países. Mas, de qualquer forma, eu acho que o ideal seria a gente ter liberdade, mesmo dentro da academia, para desenvolver uma atividade plenamente autônoma, experimental, uma atividade que pressuponha a possibilidade do erro, possibilidade de você desencadear um processo sem necessariamente esperar que dele saia alguma coisa objetivamente considerada útil...

Mas você não sente a necessidade do compositor justificar e legitimar seu trabalho dentro da academia ? Isso não pode ser uma influência negativa no trabalho dele ?

Acho que ele precisa ter cuidado com a crítica que o meio impõe. Ele precisa saber defender seu trabalho. O trabalho precisa ter um respaldo teórico para poder existir, para começo de conversa, porque se a academia tem o seu padrão e isso fere a maneira como você trabalha, você tem que, à maneira acadêmica, defender essa liberdade.

Então, nesse sentido, você acha que a academia é o meio ideal, já que você tem que justificar teoricamente a criação e não pode fazer apenas pela experiência estética ?

Acontece que na academia existe uma correlação de forças bastante desigual. Você tem grupos políticos e você tem uma relação desigual de docentes e discentes, por exemplo, que eu acho complicada no caso da composição. E quem define quais são os objetivos do espaço e o que justifica a injeção de investimentos e verbas são esses caras; então você precisa dialogar com eles, precisa convencê-los de que o que você está fazendo é correto, ou, pelo menos, que é viável dentro daquele espaço, ou é algo que valorize aquele espaço. Agora, para isso você precisa desse trato teórico, dessa preocupação, porque eles já têm isso muito adiantado, existe uma tradição aí por trás que já definiu os critérios para avaliação de obras, por exemplo.

Você não acha que a área de música na academia importa modelos das ciências sociais...

Em que sentido ?

No sentido de não ter referências artísticas, e sim científicas.

Eu acho o seguinte: a aceitação da criação musical, por exemplo, como dado acadêmico é algo muito recente no Brasil. Isso é coisa, se não me engano, dos anos 90, se não for beirando 2000. Por exemplo, CNPq não reconhece a obra ou espetáculo como produto acadêmico, você não tem nenhum tipo de reconhecimento por isso; mas a CAPES já passou a reconhecer isso. Então se está no começo de um processo, e pode ser que a gente consiga criar aqui dentro uma visão nossa de academia, uma academia mais musical, mais voltada às nossas especificidades. Mas, por enquanto, a gente tomou emprestado, a gente lida com padrões de outras áreas, que estão mais adiantadas nesse processo.

Você acredita que não é o ideal ?

Com certeza não.

Você acredita que a universidade deve amparar pessoas que têm um trabalho estritamente artístico ?

Como é um trabalho estritamente artístico ? 

Que não seja um trabalho científico. Alguém que não justifique teoricamente o que faz.

A universidade já faz isso. Na UNICAMP, para que os cursos do IA funcionassem, foi criada a carreira de mérito artístico, por exemplo. Porque, se viu o seguinte: a academia em música não produz porra nenhuma, não tem titulados, enfim, a academia em música no Brasil não tinha pessoal capacitado em termos acadêmicos para criar um curso. Você vai trazer aquele pessoal que está em atividades artísticas, são artistas mesmo. Você os traz para dentro de academia para que eles construam ali condições para que haja um curso de música.

Muito bem, só que está havendo um discurso, que é, em alguns centros, você já tem pessoal "qualificado", titulado, que tiveram sua graduação, seu mestrado e seu doutorado já aqui no Brasil mesmo, não vieram de fora, e está se especulando, inclusive, o fim desse mérito artístico, porque já se tem esse número suficiente de titulados. Bem, isso é uma faca de dois gumes, porque você vai acabar trazendo para dentro da academia gente que não necessariamente desempenhou atividades artísticas. Isso é ruim, por questões óbvias. O cara que não tem a prática, que é apenas um teórico do objeto vai dar aula de prática a compositores, intérpretes...

Não é o curso natural de uma área que importa modelos científicos ?

Uma área que está submetida a modelos científicos alienígenas, digamos, mas que, se houver, talvez uma mobilização, se houver um momento em que a gente sente para discutir, para fazer uma reflexão realmente consistente sobre o curso, pode ser que a gente crie uma maneira alternativa de ver música na academia, permeável inclusive a esse tipo de investimento de fora da academia, para enriquecer o meio, através de estágio, etc.

O sr. ouve a própria música ? Em que situações ? Gosta de ouvir a própria música ? Por que razões ? Acha-a boa?

Eu ouço minha própria música em várias situações. Gosto de ouvir em concerto, para ver a coisa acontecendo; depois, ouvir o material do concerto, fixado em suporte, para ver como ficou; e depois, para desempenhar alguma atividade que não necessite de atenção, ponho em cd, onde estão inclusive minhas peças, em ordem randômica, para preencher um espaço.

Qual é o papel dos sentimentos profundos na apreciação musical ?

Na apreciação musical ? Acho que isso é uma coisa que varia de indivíduo para indivíduo. Você quer saber para mim ? De que sentimentos profundos você está falando ?

Profundamente sentimentais.

Do patético ? Na apreciação musical ? Bem, tem o seu papel, mas, acho que não é necessariamente relacionado com o objeto. O que posso dizer sobre isso é que, por exemplo, quando estou ouvindo uma música, uma música nova - de algum concerto nosso, ou de alguma coisa que fui ver em São Paulo - eu vou muito mais movido pelo interesse da novidade, ou do que o compositor tem para me dizer, e tal, do que por uma vontade de sentir alguma coisa. E quando isso acontece... Bem, vamos ver o outro extremo... Quando eu pego uma música - eu sou de Belém - de um compositor paraense... Uma música popular, que não tem nada, eu já conheço, já ouvi mil vezes, e tal... Eu ponho para tocar, eu sinto uma série de coisas, porque isso me remete a situações particulares minhas, que tem a ver com minha vivência em Belém.

Como deve ser o ensino a jovens compositores ? Como se forma um compositor ?

Acho que, primeiro, tem que se criar um ambiente de produção, onde haja liberdade de criação, para início, onde não sejam impostas regras rígidas de conduta estética, ou de performance para os alunos, onde haja muita informação, um ambiente para o qual os professores tragam suas propostas, seus trabalhos, ocupem o espaço, onde haja debate, onde haja circulação de idéias entre estudantes e professores, onde haja performance das peças de estudantes e intercâmbios com outras unidades de ensino onde situações diversas aconteçam.

Essa é a base para um curso de composição que, na minha opinião, pode funcionar quase de forma espontânea. Se isso estiver acontecendo para valer, eu imagino que os próximos passos a serem dados, inclusive passos institucionais, vão ter muito mais consistência, porque eles partem da prática, daquilo que exatamente tem funcionando dentro do curso.

Qual o papel do chamado "métier" ?

Bem, primeiro, para você entrar contato com a obra de um compositor que te interesse, é interessante que você entenda a maneira como ele escreveu a peça, como estruturou a peça, ou seja, você precisa ter ferramentas de análise, que são muito mais aproveitadas, se você tiver contato com a escrita. Vou dar um exemplo: tem um teórico que não escreve, e vai analisar a peça de um compositor... O que motiva o compositor a agir de determinadas maneiras é muito mais fácil de deduzir por uma pessoa que escreva do que por esse teórico...

Você compreende melhor a música de um outro compositor porque você é capaz de deduzir caminhos na obra dele, porque você também está acostumado a buscar seus próprios caminhos. Outra coisa é que é importante ter um "métier" porque você vai ter que passar isso a seus alunos no futuro... Isso está ligado ao que eu falei que o compositor vai necessariamente trabalhar na academia dando aulas de contraponto, harmonia, composição, às vezes ele vai ter que ensinar a escrever por estilo.

Isso não está ligado à criação musical, nos moldes que falei antes, aquela criação espontânea, experimental, livre. Agora, é inegável que quanto mais ferramentas você tiver para se expressar, melhor. Você vai, talvez, resolver mais rapidamente alguns problemas que você mesmo se impõe, sabendo resolver uma linha melódica, sabendo fazer uma  orquestração, conhecendo repertório, etc.

O que você aprendeu na universidade ou no conservatório ?

Bem, eu não fiz conservatório. Na universidade eu aprendi que... Bem, eu aprendi que... Vou falar em termos políticos, porque em termos de criação musical, aprendi alguma coisa de "métier", procurando incorporar algumas coisas do meu professor de composição, tendo que fazer trabalhos de fim de semestre, para ser avaliado. Acho que nesse sentido pouco acrescentou a mim como compositor, nos moldes que hoje eu entendo composição - acho que meu trabalho extra-acadêmico contribuiu muito mais para minha formação.

Mas, na minha experiência acadêmica na UNICAMP, eu vi que é possível trabalhar dentro da academia, para transformá-la em espaço permeável a atividades. Para isso, é preciso muita articulação política, envolvimento de muitas pessoas. Mas, a experiência da UNICAMP tem mostrado que isso é viável. E isso é uma coisa bastante estimulante para a gente pensar a academia no Brasil e, se eu for embora daqui a pouco, para trabalhar em outra  universidade, em outro lugar, vou ter muito mais ferramentas para ajudar um pouco aquele pessoal a mudar um pouco o espaço.

Você poderia comentar sua bibliografia essencial?

Bem, o que estou lendo ultimamente é material de pesquisa, que é essencialmente textos do John Cage, sobre Cage, entrevistas, em sites, etc. Trabalhos sobre John Cage, estou tendo que ler muitos e muitos livros, de vários autores. Mas, na minha estante tem Paulo Freire, Neil Gayman, gostei de uma biografia do Qorpo Santo, que eu comprei, estou lendo um pouco sobre estética e elitismo...

É... É, que mais... Tem uma coisa do... Como é o nome dele ?... Ah, sim, literatura, José Saramago, gosto de Umberto Eco, etc

Qual o papel das diversas outras áreas - artísticas ou não - na produção musical ?

Qual a importância ? Bem, depende de como eu vou interagir com elas. Acho que informação é importante. Acho que há um interesse profissional mais ou menos básico, que é aumentar o leque de possibilidades profissionais. Meu interesse é leigo. Nunca trabalhei com teatro, nem com cinema... Mas gosto de ir ao cinema, ler um livro, ver uma peça de teatro e acho que isso de alguma forma influencia o trabalho.

Qual foi a última música que o surpreendeu de fato ?

Em que sentido ?

Você escolhe o sentido.

Se for no mau sentido... Bom, deixa para lá...

Surpreendeu de fato ? Já faz muito tempo que não escuto algo que me surpreendeu de fato... Tem coisas que me impressionaram muito, como muitas obras de Stockhausen... Taira foi um compositor que me impressionou muito... Xenakis, mas já foi há muito tempo. Acho que Taïra foi o último. Não. Foi o quarteto dos helicópteros do Stockhausen.

Quem são os grandes nomes ?

Na música ?

Os grandes nomes.

Quantos pode dar ?

Infinitos.

John Cage, figura fundamental para se pensar a música do século XX e do XXI; Stockhausen; aqui no Brasil tenho uma admiração grande pelo Koellreutter, como criador, como educador, como ativista. Enfim, vou falar na música...

Em que pé estamos na evolução ?

Acho que nós estamos na primeira fase do colapso do apogeu da aventura humana.

Quem ou o que, artística ou profissionalmente, te irrita ?

Sacanagem, hein ?

Não precisa citar nomes.

Fazer mímica ? Estou fazendo.

Quem ou o quê ?

Irrita-me profundamente o discurso de excelência em artes. Acho que é um discurso que inibe a atividade criativa. Então, as pessoas que são portadoras desse discurso tendem a me irritar, porque eu não vejo nele algo que gere novas situações, novas possibilidades, e, como não concordo que a situação que vivemos hoje é propícia, prefiro uma atitude menos dogmática.

O seu primeiro grande nome foi John Cage. Como você vê a influência dele em outros compositores nesses últimos 50 anos ? Você acha que ele é muito mal interpretado, ou esquecido ?

Não é esquecido, Cage é relido, principalmente no meio acadêmico. Você aproveita dele o que te interessa e descarta o resto. É nesse sentido que eu digo que é mal aproveitado. Mas, esse mau aproveitamento é uma coisa interessada, essa é a questão crucial. Você pode dizer que Cage influenciou outros compositores europeus nos anos 50 e 60, que passaram a desenvolver obras que continham acaso, indeterminação, que davam ao intérprete algum controle sobre a peça, etc.

Você diz, bem, isso tem a mão do Cage, influência dele. Só que o tipo de trabalho que o Cage fez, a maneira como o Cage lidava com a indeterminação era diferente, não era como esses compositores. Para eles, é imprescindível que haja algum controle sobre o resultado. Cage trabalhou com essa concepção uma parte da vida dele, mas não toda; tem uma parte da vida dele que ele abre mão do resultado, deixa de lidar com o objeto e passa a lidar com o processo.

Esse câmbio do objeto para o processo é uma coisa sobre a qual, na minha opinião, a gente precisa refletir mais, principalmente aqui no Brasil, onde ficamos só com o preconceito sobre a obra de Cage, nem a obra dele nós temos, ficamos só com o preconceito que veio de outros lugares sobre a obra dele, e a gente precisa refletir um pouco sobre essa questão...

Sobre a importância da obra de arte, a importância do processo, sobre a possibilidade de você refazer as prioridades dentro da criação musical, dentro da performance, dentro da fruição musical. Isso é algo que não é explorado por puro preconceito e porque tem gente interessada em que isso não venha à tona mesmo, ou porque não vêem consistência nisso, ou porque acham que isso é algo incômodo, mesmo.

E quanto aos compositores que trabalham só o processo, como em música algorítmica ?

É, música algorítmica é puro processo. Mas, preciso ver um compositor que trabalhe música algorítmica como processo, e não alguém que está indo atrás de algo mais ou menos específico e utiliza o algoritmo para alcançar isso mais ou menos específico.

O que tenho visto até agora, mesmo na obra de compositores de música algorítmica famosos, é que você está atrás de alguma coisa, que não é absolutamente determinada, mas, você elaborou o algoritmo para alcançar. Mas não é abrir mão do objeto isso.

Muitos compositores contemporâneos têm a opinião que Cage é muito importante na idéia mas musicalmente não se realiza...

Ele abriu mão de um monte de coisas que eles consideravam imprescindível.

Por que é importante abrir mão da música com resultados específicos ?

Não, não falei que é importante abrir mão. Falei que as propostas do Cage abriram um pouco mais o leque de possibilidades dentro da criação musical. Só que parte desse leque, dessas informações novas, dessas propostas novas, foram boicotadas. Talvez porque esteja cedo demais para a gente conseguir incorporá-las.

Cedo implica em uma evolução.

Implica uma mudança de contexto, não necessariamente evolutiva. Uma mudança. Nesse momento é muito difícil, amanhã pode ser mais fácil, por n razões. Mas eu acho que faz falta essa discussão. Esse preconceito contra esse tipo de abordagem na minha opinião faz com que as pessoas percam a chance de entrar em contato, às vezes, consigo mesmas.

Mesmo que o resultado não seja musicalmente válido ?

O resultado musicalmente válido depende desse culto ao objeto. O objeto feito considerado ideal, é algo que existe em si, mas que está sendo mantido à força desse interesse em uma determinada forma e um determinado caminho, que foi estabelecido e está sendo seguido. Quando eu falo que esse tipo de abordagem alternativa, experimental, pode fazer com que você entenda melhor a si mesmo...

No nível do material ou da forma ?

Em todos os níveis. Que faz você se conhecer um pouco melhor é isso, você passa a não lidar com aquele objeto ideal, que você descarta a priori e assume o processo, que você mesmo desenvolveu.

Esse processo vai te levar a um objeto ou objetos diferentes, diversos daqueles que você idealizava; e, pode ser que nesse processo de lidar com processos você encontre uma maneira tua de ouvir, de tocar a própria música, de conceber, de comunicar a terceiros, etc.

O senhor deseja acrescentar algo ?

Quero dizer que eu vejo hoje essa mudança no curso de composição da UNICAMP como um primeiro passo importante que deveria ser cultivado, deveria ser cuidado, porque acho que a partir daí podemos começar uma grande discussão, uma grande reflexão, do que é criação musical no meio acadêmico. E aí, todas essas questões que discutimos aqui, vão estar na ordem do dia - não só no nosso curso, onde existe circulação de idéias, mas no Brasil todo. Quem sabe um dia possamos ter a nossa própria teoria musical, nossa própria composição e, quem sabe, ter nossa própria autonomia.

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