Música simples
por Alfredo Votta
No mundo moderno, cheio de experimentações de todo tipo e visionários
de todos os gêneros, tornou-se surpreendentíssimo ser conservador. Ser
tradicional choca: é assim que tem funcionado, não obstante os sentidos vários
que se atribuem a tradicional e conservador.
Sob estas denominações são colocados, às vezes, epigonismos bem
realizados e pouco interessantes, e, pior, epigonismos mal realizados e lamentáveis,
freqüentemente indícios de inseguranças. Não se condenem, neste instante,
seus perpetradores; façam-se-lhes ressalvas; apontem-se-lhes as falhas.
Descrito, portanto, o epigonismo, eliminemo-lo, passando a outros tipos
de conservadores e tradicionais; há uma espécie deles que raramente continua a
merecer estes adjetivos na acepção pejorativa e mais corrente. É quase
preciso redefinir estes termos para que eles continuem a merecê-lo; estes rótulos,
no entanto, vão com o desenrolar dos raciocínios perdendo o interesse, embora
possam ter motivado o início de reflexões.
Um número não pequeno de inovadores tem sua parcela tradicionalista.
Notadamente na Europa, observamos artistas não pouco iconoclastas e
“modernos” reivindicarem para si a condição de herdeiros dos conterrâneos
célebres que os antecederam. Uma preocupação pouco comum nas Américas, e que
quando por aqui existe é um tanto forçada, deslocada, assumindo às vezes
aspectos caudilhescos[1].
Malgrado o gênio de Villa-Lobos, não só seria risível querer apontar-lhe um
sucessor como seria indesejabilíssimo perpetuar a existência de uma única
grande figura musical, grande a ponto de eclipsar as outras.
Aspirar à herança da tradição musical do país é uma forma de ser
tradicional, e nos resta sorrir quando o vemos em músicos que, noutros
contextos, são “revolucionários” e “inovadores”.
Outro tipo de compositores a quem se poderiam aplicar designações como
“conservador” ou “tradicionalista”, e não sem distorcer as coisas, são
aqueles ligados ao minimalismo e, mais especialmente, à Nova Simplicidade. Se
por um lado corre-se o risco de ser inexato ao abrigar compositores desconexos
sob o mesmo guarda-chuva, tem-se por outro o pretexto para comentá-los todos.
Um primeiro exemplo a citar é Sir John Tavener. Curiosamente, quase
poderia ser colocado naquela outra categoria, a dos herdeiros de tradições
musicais (embora não reclame esta condição), pois sua volumosa obra coral o
coloca ao lado de numerosos de seus conterrâneos ingleses e numa tradição
nada recente, a da música coral inglesa. Mas, naturalmente, encaixa-se também
na segunda categoria, por poder ser colocado no guarda-chuva da Nova
Simplicidade, pelo uso que faz de um sistema harmônico simples ligado ao
tonal-modal. Não se limita, entretanto, a este mundo, variando seus recursos
conforme ache adequado. Sappho: Lyrical fragments é serial[2],
Eternity’s sunrise utiliza o modalismo; são representativas, no
entanto, da mesma imaginação musical, sendo conveniente ainda lembrar que
tratam de temas poéticos distintos: a poesia de Safo e a terra como reflexo do
céu e a eternidade, com texto de William Blake. E esta imaginação musical é
de serenidade e de contemplação: aspectos que, mais do que propriamente
“tradicionalismo” ou “conservadorismo”, surpreendem por vezes o mundo
musical atual.
Arvo
Pärt, em maior extensão que Sir Tavener, apóia-se nas tradições musicais
litúrgicas cristãs – não só da sua Igreja Ortodoxa Russa, mas também do
canto gregoriano da Igreja Romana. Seu idioma harmônico pode ser chamado de
“tonalidade abstrata”, como propõe Paul Hillier no seu livro sobre o
compositor. Não sendo o primeiro nem o único a usar essa “tonalidade
abstrata” (Reich e Glass são outros), ele desenvolveu no entanto sua própria
poética, dentro dos seus próprios temas preferidos (religiosos), e suas próprias
técnicas de composição que, por seu despojamento e aspecto “matemático”
(segundo o próprio Pärt[3])
o aproximam um pouco da renúncia de John Cage ao gosto individual do compositor
– um paralelo interessante colocado também por Hillier.
Pärt
foi, nos anos 50, um dos primeiros compositores soviéticos (o primeiro
estoniano) a utilizar o serialismo; datam daquela época muitas composições
vanguardistas, o que lhe criou não poucos problemas com o patrulhamento artístico
e ideológico da URSS. O silêncio e o estudo da música medieval, nos anos 60 e
70, o levaram a uma linguagem radicalmente diferente, que faz uso escalas modais
(geralmente eólio ou jônio) sem praticamente nenhum cromatismo e com grande ênfase
sobre a tríade, agora num papel especial dentro de suas técnicas. Nas suas
composições, sempre uma das vozes faz ouvir somente notas da tríade, uma técnica
chamada pelo compositor tintinnabuli (pequenos sinos, em latim). Sua
linguagem rítmica apóia-se em geral em ritmos medievais, e a construção de
suas linhas é totalmente dependente do texto, nas obras vocais, ou de algum
princípio simples aplicado à escala pura, nas obras instrumentais.
Especialmente
a linguagem rítmica, reforçada ainda pela temática religiosa de sua música,
tem-lhe valido o título de “neomedieval”; embora longe de não fazer nenhum
sentido, o termo é muito pouco adequado. É muito interessante observar que, em
comparação com várias obras medievais, certas composições de Arvo Pärt são
até mais severas e ascéticas. Uma melodia gregoriana pode ser largamente
florida, e a emblemática Messe de Nostre Dame de Guillaume de Machaut
mostra seções ritmicamente muito vigorosas. O severo ritual do De Profundis,
do estoniano, para coro masculino, sino, gran cassa e tam-tam, se
distancia consideravelmente destes exemplos.
Nota-se,
portanto, como a poética de Pärt é muito mais complexa
do que simplesmente “neomedieval”. É sempre necessário ter em mente que
uma de suas influências mais fortes é a da música litúrgica do cristianismo
oriental. O próprio compositor diz: minha obra não é influenciada pelas
mesmas coisas que a maioria dos compositores do Ocidente[4].
Entre o cosmopolitíssimo Ocidente e o assediadíssimo Oriente além-Constantinopla[5] parecem ter permanecido
intocados os tesouros de Bizâncio.
Se “neomedieval” não se aplica com tanta adequação ao compositor
estoniano, Nova Simplicidade, por outro lado, parece adaptar-se melhor, pois na
sua obra os princípios são de fato, sempre simples; e a simplicidade é
expressamente defendida pelo compositor. Esta é uma objeção colocada por ele
em relação à música serial, ensinando ainda que a beleza de Webern, por
exemplo, vem de sua simplicidade.
Há quem afirme ser a música de Arvo Pärt um
sintoma da modernidade, e não uma solução de seus impasses. Não é difícil
perceber que ele (como outros compositores) é indiferente a isto, nutrindo seu
trabalho com a vivência de uma tradição religiosa muito mais antiga e perene
do que certas preocupações modernas que se renovam a cada década.[6]
É bem de observar que a música de gente como Pärt, Sir Tavener, o
georgiano Giya Kancheli e a tártara Sofia Gubaidulina (poderia até acrescentar
Messiaen, já que se fala de religião) existe num mesmo mundo que viu nascer
uma “contracultura”, cuja face musical visível parece, afinal, ter-se
limitado a uma simples radicalização de música (“rock”, parece) dos anos
50. Sendo “contra a cultura”, mostrou-se melancolicamente escrava da cultura
pop e midiática recentíssima, numa “poética” de pouca vitalidade –
inclusive pelos próprios padrões de comportamento defendidos por essa
“cultura”. Mas acredito que todas as experiências ensinem coisas, e esta
“contracultura”, que foge ao assunto deste texto, muito provavelmente tenha
as suas virtudes, cujo comentário deixo forçosamente a entendidos, dispondo-me
a modificar meu ponto de vista.
No âmbito da música erudita, de concerto, não se
pode evitar perceber que aqueles mesmos compositores citados (Pärt, Sir
Tavener, Kancheli, Gubaidulina) trabalham ao mesmo tempo em que Pierre Boulez,
Brian Ferneyhough, Tristan Murail, Michael Finnissy, Philip Glass. Esta
variedade é uma virtude do século XX-XXI, e só podemos nos alegrar com ela,
por acontecer em nossa época. Que não nos limitemos a uma tendência somente
parece-me muito saudável. Schumann escreveu que seria necessário viver cem
vezes mais para conhecer somente a boa música existente[7].
O século XX, tão revolucionário, manteve esta bela tradição.
[1] Naturalmente, só na América Latina... os Estados Unidos têm seus próprios problemas quanto a isto. Mas apenas uso estes termos por causa do nosso grande exemplo, Villa-Lobos. Não compete a mim criticar o caudilhismo em política; faça-o o competente. Da minha parte posso observar quão prejudicial ele é em Música. Volta
[2] É verdade que esta obra é de 1980, Sir Tavener não voltaria a escrever música serial. Mas a inclusão (pelo próprio compositor) desta obra num disco feito com instrumentos barrocos, ao lado de música modal, nos permite considerá-la representante da mesma estética e dos mesmos pensamentos das outras.Volta
[3] Segundo relato de uma conferência de Arvo Pärt na cidade sueca de Piteå, por Rolf Hallgren em Dealing with music is about mathematics, no jornal Piteå-tidningen, em 1997. Volta
[4]
Jamie McCarthy: An interview with Arvo Pärt. The Musical Times, Março
de 1989. Volta
[5] Quando falo “Ocidente além-Constantinopla” refiro-me ao intenso interesse, desde o século XIX, despertado pela Índia, Japão e Extremo Oriente em geral na Europa, em especial na França de Debussy e Monet. Volta
[6] Penso mais nas preocupações passageiras do mundo pop do que nas da música erudita. E igualmente nas “questões do nosso tempo”, com as quais se preocupam os “homens de seu tempo”. Isto tudo são coisas estranhas a um cristianismo ortodoxo (ortodoxo aqui não se refere às Igrejas Orientais, mas à “reta opinião”) Volta
[7] Robert Schumann: Consejos a los jovenes estudiantes de musica. Buenos Aires: Ricordi Americana. Volta