Mimo artesanal

na confusão de valores musicais que ronda nosso fazer cotidiano

por Alexandre Fenerich

       primando pelo artesanato minucioso: os gostos se dirigem, nos dias de agora, pelo detalhe virtuoso, pelo mimo artesanal, bem mais que pelo gesto criador que se realiza em meio a tropeços e percalços, indícios evidentes de um artista em pressa de fixar a solidez de sua expressão, esquivando-se de construir minúcias. Mas que gostos? O do grande público, de certo, mas sobretudo dos próprios músicos e dos criadores no momento do fazer. Reflexo de um atordoamento diante da falta de perspectivas renovadoras ou complexo terceiromundista de falta de uma sólida formação artesanal?

       talvez excesso de formação artesanal. Pois aquilo que tem sido mostrado como criação original não passa às vezes de pastiche bem feito de alguma nova-velha tendência da pós-vanguarda universal, às vezes, pastiche mal-feito. Estamos imitando muito bem aquilo que outros já fizeram muito bem. Problema é que aquilo que foi necessário pela primeira vez se torna patético na repetição: a História acontece primeiro como tragédia e depois como farsa, Napoleão X Napoleão sobrinho. Será que não poderíamos fazer muito mal aquilo que realmente precisa ser feito? Será que, talvez, não fosse o momento de propormos feituras novas e orgânicas surgidas, ao invés de uma insegurança que leva à imitação virtuosa, da necessidade, da intromissão, da rebeldia, da intrusão?

      estou farto de ouvir concertos de música-nova brasileira repletos de pastéis muito bem requentados. Mas claro que nem tudo é mesmice nesse mundo; estou me atendo aqui a um desconforto que sinto de uma forma geral, sempre há pessoas e pessoas. Mas a repulsa é resultado de anos e anos de freqüência e uma constatação ampla: a música-nova brasileira está chata, é preciso renová-la.

PS: cabe lembrar porém que para renová-la é preciso que seja mostrada; e o fim do *Música Nova em Santos tira um pouco o sono de todos. A mesmice que vivemos não é resultado, talvez, da falta de perspectivas a que me referi antes? Uma espécie de... marasmo de fazenda?

* Este texto foi escrito em 2002 (nota dos editores)

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