Ligadão em Bach
por Mário del Nunzio
Atualmente
temos visto a proliferação de intérpretes de música "histórica"
com o uso de tudo que é possível
na tentativa de - como boa parte deles explica ou
tenta - "fazer a música como na época" e com isso ter a música
o mais perto possível do suposto ideal do compositor, transmitindo aos ouvintes
de hoje a sensação estética de um ouvinte de ontem.
Somente
com essas poucas idéias propostas por "músicos históricos" já
temos vários problemas. O uso de instrumentos de época,
especialmente em casos nos quais a sonoridade foi pouco alterada - mesmo
com o desenvolvimento tecnológico do instrumento (já que, nesses casos, nem
características de timbre justificam tal utilização)
e, principalmente, a adoção de técnicas instrumentais de época, geram
os mais diversos equívocos e inconvenientes de execução. Em recente apresentação
em São Paulo, com um dos considerados grupos brasileiros especializados, após
ter reafinado seus instrumentos (e nunca de modo satisfatório) a cada peça
executada - nenhuma delas sendo de duração superior a cinco minutos - teve as
seguintes palavras de seus integrantes: "Quando eles [os instrumentos]
foram feitos, não se esperava esses ambientes 'hiper-climáticos' ". Tal
concerto, em determinados momentos, mais parecia um de música do século XX,
repleto de uníssonos com batimentos e passagens microtonais.
Pior,
mesmo nas gravações mais cuidadas disponíveis no mercado, quem garante ser
esse o desejo do compositor ? Diversos dos mais diferentes e instigantes
criadores musicais do século XX discordam completamente. O pianista Glenn Gould
- que gravou [ um absolutamente não-antiigo piano (e com variadas técnicas de
edição do material gravado)] diversas obras renascentistas e barrocas - disse,
por exemplo, que a melhor gravação que já ouviu de um "Concerto de
Brandemburgo" foi uma essencialmente eletrônica - com sintetizadores -
realizada, na década de 1960, por Walter Carlos (presente no disco
"Switched-On Bach"); ainda disse, em relação à produção para
teclado de O. Gibbons (1583-1625), que, assim como os último
quartetos de Ludwig van Beethoven ou diversas obras de Anton von Webern,
funcionam muito mais na memória de alguém ou na partitura do que nos
instrumentos (o que deixa clara a possibilidade de serem tocadas em qualquer
instrumento - como Glenn Gould fez ao piano). O supracitado compositor Anton von
Webern, em sua orquestração do "Ricercare"
a 6 vozes da "Oferenda Musical" de J. S. Bach, para orquestra, se
valeu - durante boa parte do decorrer da obra da "klangfarbemelodie"
{adaptando, melodia de timbres [procedimento inaugurado por Schoenberg em suas
"5 Peças para Orquestra op. 16" - especialmente a terceira denominada
"Farben" (que, este menciona em seu livro "Harmonia" - em um
dos momentos digressivos - como algo que será no futuro tão importante quanto
a melodia com notas e que no caso da obra dele citada é bastante caracterizada
pela alteração das qualidades de timbre de um único acorde através da mudança
de orquestração e no sobredito caso de Webern, pela divisão de uma linha melódica
da obra de Bach em diversos instrumentos)]}. O próprio Schoenberg fez, além de
várias adaptações de baixo-cifrado do período barroco, versões como a de um
concerto para violoncelo de G. M. Monn, com procedimentos harmônicos alterados,
orquestra aumentada, inclusão de cadências et cetera. Diversos outros casos
podem ser citados, mas realmente não
se precisa ir longe. É típico da
música barroca e pré-barroca a idéia da transcrição, de arranjo e
re-arranjo, da re-utilização de melodias frequentemente com uso de timbres
bastante distintos (basta citar Vivaldi: a melodia inicial da
"Primavera" de "As 4 Estações", tocada ao violino
anteriormente havia sido usada em uma ópera do mesmo compositor, cantada).
Cabe
dizer que, nesse aspecto, um uso mais apropriado de instrumentos antigos se dá
- paradoxalmente [?] - na música contempporânea em obras como "Música
para Instrumentos Renascentistas" de Mauricio Kagel ou "The Mummy and
The Humming Bird" de A. Mellnas, ou mesmo em obras para cravo de diversos
compositores, como Xenakis, Berio, Ligeti e Zender, nas quais os instrumentos a
serem utilizados foram escolhidos por opção estética, de acordo com características
próprias inerentes à construção deles, e não o contrário (que parece
acontecer na música "histórica").
Outro
ponto óbvio é que não estamos aptos a ouvir como há centenas de anos. Mesmo
se conseguindo o impossível e utópico ideal da execução "de acordo com
os preceitos históricos" não é possível que tenhamos uma "audição
histórica" (no sentido de desconsiderarmos a vivência com as sonoridades
inexistentes em períodos passados); não é possível ser "livre" em
relação ao que se ouve com a paisagem sonora contemporânea [seja com itens
relacionados a mudanças tecnológicas ou, mesmo, com relação à música (em
sentido tradicional, não sendo necessário alargamento de conceito) dos últimos
tempos - tanto a música pop, como
o jazz, a música de cinema ou, mesmo, Wagner e Mahler, Berg e Webern, Boulez e Stockhausen, Xenakis
e Nono, e tantos outros...
Obviamente
não é nosso desejo descartar a música de outros períodos, mas a abordagem da
música deve ser feita essencialmente de acordo com qualidades criativas e não
historicizantes. De acordo com isso e de acordo com, por exemplo, a proposição
de revisão da literatura criativa brasileira por Haroldo de Campos (em parte
baseado em diversos autores, especialmente Ezra Pound), com a adoção, para
abordagem da literatura, do conceito de sincronia, antinômico à diacronia.
Este segundo tendendo de todo modo a desconsiderar questões estéticas, tendo
como válidos apenas os dados históricos do período sendo abordado, de modo
portanto estático e absolutamente desligado da inventividade. O primeiro,
ligado essencialmente à criação atual e de tal forma revivendo obras do
passado de acordo com a criação contemporânea, ou seja, de modo móvel, ativo
e inventivo.
Percebemos
que na música hoje temos como corriqueira a abordagem diacrônica, e não
apenas nos teóricos e musicólogos, mas nos responsáveis pela execução
musical [o que, comparando à literatura, gera problemas mais graves, pois esta
depende de intérpretes, pessoas ativas na criação enquanto a literatura
(mesmo com teóricos e críticos retrógrados - que podem, no máximo, afirmar
bobagens) não depende de intermediários].
Com
isso, chegamos a um ponto crítico: a interpretação musical, o ato de
"fazer música", desligado de critérios estéticos - e, aqui deve ser
enfatizado, não se pode tomar o supostamente válido em outro período como
critério válido eternamente para feitura de algo (aí pode ser mencionado o
conceito de pancronia, podendo-se dizer, portanto, que qualquer expressão
cultural se modifica pois as pessoas se modificam). Não adianta dizer "o
compositor imaginou assim" (inverossimilhança) ou "era assim na época"
(inverossimilhança) ou algo do gênero se falta a atualidade [e aqui não falo
nem dos autores absolutamente irrelevantes redescobertos por nossos "arqueólogos
musicais" (citando frase de Alfredo Bosi em palestra na UNICAMP: "A
vida é curta demais para perdermos tempo com autores apenas históricos"),
mas sim de interpretações nulas de sensacionais obras].